OPINIÃO

GringoView: Espelho do passado

11/07/2014 14:30 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02
Nelson Kon

Um dos mitos convenientes mantidos por muitos gringos aqui é o de que só porque houve séculos de miscigenação desde que os primeiros colonizadores portugueses pisaram no Brasil as fronteiras entre brasileiros negros, morenos e brancos desapareceram em uma alegre mistura, despida de qualquer tensão ou preconceito étnico ou racial. Se você não tiver ao menos algumas gotas de sangue mestiço nas veias, diz o ditado, não é um brasileiro de verdade.

É claro que, como a maioria dos mitos, isso é mais algo em que queremos acreditar do que a verdade.

Os primeiros colonizadores, que vieram para o novo país principalmente em busca de trabalho e riqueza, chegaram sem esposas ou família. Houve naturalmente uma considerável miscigenação com as nativas e as escravas, o que produziu uma população de sangue muito misturado. Infelizmente, isso pouco fez para eliminar as diferenças raciais, especialmente as econômicas. A história romântica de Chica da Silva, nascida escrava e que usou sua extraordinária beleza e ambição para ascender e se tornar a esposa (embora não tenha se casado oficialmente) de um dos homens mais ricos no Brasil no século 18, dá uma ótima história para filmes e telenovelas. Foi uma rara exceção, e não a regra.

"Os brasileiros falam de seu país como sendo o mais 'miscigenado' do mundo e o mais desigual, na mesma medida", escreveu Katia Miukadze em um post em "Societal Eye".

Sondar essa desconexão entre mito e realidade foi a principal missão do Museu Afro Brasil, hoje com dez anos e 12 mil metros quadrados, situado no Pavilhão Padre Manoel da Nóbrega no Parque Ibirapuera em São Paulo. Espalhado pelo espaçoso edifício desenhado por Oscar Niemeyer, suas bem concebidas exposições permanentes e temporárias, que mudam constantemente, convidam o visitante a se envolver com essa parte difícil de seu legado. Ele vale uma visita de qualquer pessoa que queira compreender esse aspecto crítico da cultura do Brasil moderno, um tema amplamente ignorado e que, para muitos, é melhor esquecer. Nem sempre é agradável, nem pretende ser. Infelizmente, muito poucos brasileiros desfrutam dele, preferindo talvez viver no conforto do mito.

Museu Afro Brasil


Graças amplamente aos esforços intermináveis de Emanoel Araújo, famoso artista e curador de museu que trouxe o Museu Afro Brasil à existência e cuja forte personalidade está claramente estampada em todas as suas atividades, somos mergulhados no que ele chama de "um compromisso com a história, a memória e, mais importante, com a autoestima de muitos afro-brasileiros que não sabem quem eles são". Em uma entrevista recente, ele declarou: "Este é um museu sobre arte, cultura e memória, e não sobre a escravidão. Não vamos representar uma obra de arte como um fenômeno isolado ou como a obra de um movimento ou artista, mas sim como uma unidade que simboliza a memória e a história de um povo".

Embora Emanoel diga que "o museu foi construído para seduzir quem quer que o visite", são as classes de escolares que parecem mais imediatamente capturadas. "As crianças são muito mais vulneráveis e sensíveis que os adultos. Elas ainda estão em seus anos de formação, quando as imagens têm um poder imediato". Essas visitas-aulas formam o maior segmento do surpreendentemente pequeno número de visitantes do museu. Emanoel atribui isso ao fato de que dez anos é relativamente pouca idade para um museu, e ele se situa em um parque que tem muito pouco estacionamento. Ele diz que a classe média brasileira tende a preferir "arte europeia ruim à arte brasileira excelente" e a não ter uma cultura de museu. Muitos paulistas sofisticados nem sequer sabem da existência do museu.

Hoje é quase impossível imaginar a vida extremamente dura e difícil dos escravos importados da África para as colônias. Em uma exposição permanente, podemos ver como eles eram amontoados nos navios e vemos as correntes pesadas e outros objetos usados para impedi-los de escapar. Ao ver o maquinário que eles usavam para moer a cana ou cortar as madeiras da Amazônia, só podemos nos espantar com sua força e coragem. E as grandes coleções de ferramentas e artefatos que eles criavam com grande perícia só nos enchem de admiração.

A escravidão no Brasil não foi uma questão moral. Descobrimos que ela era vista somente como uma necessidade econômica e um fato consumado. O explorador americano William Lewis Herndon, em sua clássica obra de 1854 Exploração do Vale do Amazonas, diz sem mais comentários que a cidade de Barra tem "3.614 pessoas livres e 234 escravos". Um painel do museu que descreve a administração de uma fazenda de café oferece uma avaliação igualmente corriqueira dos escravos da plantação, relatando suas várias ocupações, gêneros e idades para determinar seu "valor".

O museu também abre uma janela importante e fascinante para a compreensão de como o candomblé e a umbanda surgiram das religiões que os escravos deixaram para trás na África quando entraram no "mundo dos mortos" acompanhados apenas pelas memórias vibrantes de seus ancestrais, memórias que seus senhores não podiam retirar.

É por isso que o museu não é apenas sobre escravidão e discriminação, mas, principalmente, sobre memórias. Ele exibe um amplo leque de pinturas, trajes, esculturas, joalheria e artefatos criados nos últimos três séculos de muitas partes da África. Ele os situa no contexto dos aspectos rituais da vida africana, da celebração da natureza e da vida humana em ritos de passagem e dos muitos deuses cuja benevolência ou ira poderiam ser invocados. Especialmente belas são as estatuetas dos gêmeos Ibejo (Nigéria) e uma Porta Senufo do sul do Mali. Uma brilhante exposição temporária tem fotos extraordinárias dos reis africanos.

Se o museu tem uma história para contar e um ponto de vista forte, é sobre a importância da experiência negra na formação da identidade brasileira. Ele raramente é didático. O que vemos nas paredes, nas exposições e vídeos é um excelente corte transversal de material histórico, e não uma leitura unilateral da desigualdade racial.

Definitivamente vale uma visita.

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