OPINIÃO

GringoView: Dogwalker

Conheça a história de Marcos Madeira, um passeador de cães profissional.

03/05/2017 15:58 -03 | Atualizado 03/05/2017 15:59 -03
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Marcos Madeira brinca com um dos cachorros com quem passeia por São Paulo.

Meus passeios matinais com meu golden retriever Jordan pelas ruas do Bexiga foram fonte de prazer diário até o dia em que uma antiga lesão no tornozelo me forçou a abrir mão do meu exercício predileto. Nossa rotina incluía ouvir as fofocas do momento tomando um cafezinho no bar da esquina. Outros donos com seus cachorros acenavam de longe e sorriam, mantendo uma certa distância entre caninos que pudessem se envolver numa briga. Eu ficava maravilhado com os dogwalkers que manejavam vários cães ao mesmo tempo com seus braços fortes.

Quando eu precisei encontrar alguém para passear com o Jordan, escolhi o Marcos Madeira. "Eu sou o Marcos, tenho 27 anos, moro no Bexiga e faz mais ou menos dez anos que trabalho como dogwalker (passeador de cachorro) pelo bairro", disse ele. "E o que talvez possa parecer um trabalho simples e sem grande excitação tornou-se a melhor coisa que já me aconteceu na vida; é difícil imaginar qual rumo teria tomado se não trabalhasse como dogwalker."

O Marcos conta sua própria história muito melhor do que este gringo. Ok, mas como tudo isso começou? Eu conto, começou com a Nina.

"Você deve estar pensando se a Nina é uma garota por quem eu me apaixonei? Acertou. Impossível não se apaixonar por aqueles lindos olhos castanhos. Nina foi a minha primeira cliente e agradeço por tê-la conhecido, excelente companheira e extremamente carinhosa. Parte desses aspectos eu acredito que são oriundos da raça dela, Labrador, mas creio também que todo cachorro desenvolve uma personalidade. São seres vivos que se desenvolvem, guardadas as devidas proporções, igual a nós. Logo, com ela não seria diferente.

Então eu, com meus 14 anos e bem despreocupado andando pela rua dos Ingleses noto que alguém me olha fixamente. Até que meu olhar vai ao encontro do dela: lá estava a Nina sentada em um muro olhando para rua como se desejasse que o portão da casa onde morava se abrisse e ela pudesse dar uma volta. Eu me aproximei e arrisquei colocar a mão em sua cabeça pois ela parecia ser muito dócil - e de fato era. Passei cerca de uma semana indo todos os dias até o portão verde da casa da Nina para fazer carinho nela e ela parecia esperar ansiosamente por aquilo. Eis que eu pensei: eu poderia passear com ela, mas teria que pedir permissão para seu 'dono' .

Preciso interromper para refletirmos sobre a palavra 'dono': quando somos donos de alguma coisa podemos fazer o que bem entendermos, afinal é nossa propriedade. Mas esta palavra não pode se aplicar ao um amigo, a alguém que divide tantos sentimentos com você. Então acho justo trocar a palavra 'dono' por 'companheiro (a)' e assim estabelecer uma relação de parceria, amizade.

Precisava pedir permissão para a companheira da Nina e precisei de mais alguns dias para conseguir coragem suficiente para tocar a campainha (não que eu estivesse com medo, mas não gostaria de ouvir um 'NÃO'). Respirei fundo e toquei a campainha e após alguns segundos ouço uma voz feminina dizendo 'alô, quem é?'. Com o coração na boca, respondo 'Oie sou o Marcos, gostaria de falar com a senhora rapidinho'. Ela, chamada Tania, subiu e então perguntei:

- Eu adoro cachorros, mas nunca pude cuidar de um. A senhora me deixaria passear com a sua cadela?

A cuidadora da Nina me olhou no fundo dos olhos e disse:

- Claro! Quanto você cobra???

Essa pergunta mudou a minha vida!

Aceitei de imediato passear com a Nina, mas não consegui responder o quanto cobraria pelos passeios. Demorei aproximadamente uma semana para me decidir porque foi tão inesperado que não tinha ideia de quanto seria justo cobrar.

Nunca tinha ouvido falar sobre um trabalho como este, ficava imaginando qual seria o melhor valor para concretizar o acordo. Me sentia como um homem de negócios fechando um acordo milionário. Então respirei fundo e disse: Tania, o valor será de 25 reais por mês.

Ela aceitou e me senti incrivelmente feliz! Porque pela primeira vez iria ter a oportunidade de trabalhar e ganhar meu próprio dinheiro. Isto me deixou extremamente orgulhoso. Fiz vários planos antes de receber meu primeiro salário, pensava: vou comprar um tênis, vou dar uma parte para a minha mãe e etc.

Mesmo quando me dei conta que 25 reais não eram muito dinheiro eu, ainda assim, valorizava cada salário porque era o resultado do meu esforço. E aprender a valorizar as pequenas conquistas me fez chegar a lugares onde nunca imaginei estar. Mas o mais importante foi que através do compromisso de passear com a Nina formei amizades inestimáveis.

Hoje em dia, a Nina mora na Suíça, mas sempre que eu passo em frente ao portão verde daquela casa na rua dos Ingleses, meu coração pensa nela, a melhor cadela do mundo!"

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Nina, o primeiro amor de Marcos.

Quando não está passeando com cachorros, Marcos estuda engenharia mecânica no Mackenzie. No momento, ele está escrevendo mais um relato de suas experiências intitulado "Dura Lição". A lição mais importante é... não peça aos outros que façam ou deem aquilo que você quer, vá conquistar você mesmo.

*Este artigo é de autoria de articulistas ou colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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