OPINIÃO

GringoView: Democracias, Ditaduras e Corrupção

A crueldade do ato de Trump demitir seu diretor do FBI, que ficou sabendo da sua demissão pelo noticiário da TV, gera mais uma crise constitucional.

11/05/2017 23:26 -03 | Atualizado 11/05/2017 23:26 -03
Kevin Lamarque / Reuters
Donald Trump demitiu nesta semana o diretor do FBI James Comey, que estava investigando auxiliares do presidente.

Este gringo nunca há de esquecer a noite do sábado, dia 20 de outubro de 1973, quando, jantando com amigos advogados, recebemos a notícia de que o presidente Nixon tinha sumariamente demitido Archibald Cox, o procurador especial que estava investigando a infame invasão do Watergate.

Nesta última terça (9), Donald Trump, que não aprendeu nada com a história, seguiu o exemplo imperioso de Nixon e demitiu sumariamente o diretor do FBI James Comey. Recentemente, o Director Comey havia solicitado recursos adicionais para a investigação do FBI em progresso sobre a influência russa nas eleições americanas de 2016 e a possível conspiração entre os auxiliares de Trump e os soviéticos para burlar a eleição americana.

No século 19, o político inglês Lord Acton escreveu: "o poder tende a corromper; o poder absoluto corrompe absolutamente". Desde que assumiu a presidência, Trump vem nadando em sua piscina de poder, espirrando para todos os lados sem qualquer reserva ou contenção, violando todo e qualquer padrão ético conhecido com seu nível de corrupção absoluta.

A crueldade do ato de demitir seu diretor do FBI, que ficou sabendo da sua demissão pelo noticiário da TV, gera mais uma crise constitucional. Pode o presidente se safar desta? Ou será este um marco histórico na queda de Trump?

Meus amigos e colegas brasileiros, muitos dos quais são visitantes frequentes e grandes fãs dos Estados Unidos, me perguntam como isto pode acontecer, como pode um país democrático com todo os seus defeitos de arrogância e insensibilidade, um país orgulhoso de sua fama de "excepcional", decair tão rapidamente? Reconhecendo que, recentemente, o Brasil teve mais do que seu quinhão de corrupção, apontam com orgulho para a Operação Lava Jato e a independência e coragem do juiz Sergio Moro, perguntam-me como o presidente americano pode simplesmente dispensar o cabeça de uma investigação potencialmente constrangedora sem dar origem ao tipo de manifestação que irrompeu por todo Brasil. Que democracia é esta?

São boas perguntas e, por mais que eu quisesse de ter respostas positivas e otimistas, encontrá-las está se tornando cada vez mais difícil.

De fato, a forma como este drama vai se desenrolar nas próximas semanas vai provar se isto é uma aberração a ser rapidamente superada por uma retaliação popular que irá derrubar a presidência de Trump ou se é um câncer que vai crescer até corroer o cerne do sistema democrático americano.

O fato do The New York Times ter publicado como manchete principal da última quarta-feira: "Donald Trump está mentindo de novo, agora a respeito de James Comey" denota a total falta de credibilidade deste presidente.

David Leonhardt escreve: "...é importante lembrar quão frequentemente Trump mente. Virtualmente, sempre que ele acha mais conveniente declarar uma falsidade do que uma verdade, opta pela falsidade". Isto é um comportamento orwelliano. Mentiras são verdades para ele e o pior é que ele provavelmente acredita que seu poder absoluto permite que ele faça o que bem entender.

Infelizmente, a luxúria e o abuso do poder não são nada de novo. Assistindo à série The Tudors na Netflix, é impossível não notar o quanto Trump e Henrique VIII têm em comum – e não só no que diz respeito às mulheres. À medida que o poder deles aumenta, a fome de poder absoluto torna-se insaciável.

A crise constitucional surge da questão de se o presidente e o ramo executivo do governo têm o poder constitucional de por fim a uma investigação que foi sancionada pelo ramo legislativo. Neste caso, o crime seria o de obstrução da justiça — usar o poder presidencial para abortar uma investigação legal da equipe do presidente.

Quando Nixon demitiu Cox naquela noite fria de outubro em 1973, por uma questão de princípio, tendo recusado a ordem presidencial de demitir Cox, o procurador-geral Elliot Richardson e seu vice William Ruckelshaus preferiram renunciar a demitir Cox por fazer seu trabalho, atendendo à ordem do presidente.

Em 4 de julho de 1776, a Declaração de Independência Americana foi adotada pelo Congresso. Naquele mesmo ano, o patriota americano Thomas Paine escreveu: "Aquele que não se atreve a ofender não pode ser honesto".

É triste observar que no clima político atual ninguém ainda foi capaz de renunciar em sinal de protesto, como eles fizeram na época.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade

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