OPINIÃO

GringoView: 140 caracteres são o bastante?

24/12/2016 13:42 -02 | Atualizado 24/12/2016 13:42 -02
Kacper Pempel / Reuters
FILE PHOTO: People holding mobile phones are silhouetted against a backdrop projected with the Twitter logo in this illustration picture taken September 27, 2013. REUTERS/Kacper Pempel/Illustration/File Photo

Se você pensar no assunto, reduzir todas as comunicações escritas ao máximo de 140 caracteres permitido pelo Twitter pode não ser tão má ideia. Isso nos pouparia muito tempo e nos ajudaria a "manter os olhos atentos para a bola", como dizem meus colegas gringos. Não haveria necessidade de entulhar nossas cabeças com detalhes. A ideia fundamental é o que importa, e, se ela não puder ser tuitada, não poderá convencer e certamente não vai viralizar. Parece que essa a direção que estamos seguindo: rumo ao fim da linguagem tal como a conhecemos.

Graças a um colega que é gênio cibertecnológico e tem a metade de minha idade, acabo de escapar do Twitter. Ninguém mais vai poder me "seguir" (não que eu consiga pensar em alguém que tivesse vontade de fazê-lo), e eu não me sinto na obrigação de seguir ninguém. Extricar-se do mundo do Twitter é um processo cheio de obstáculos não apenas técnicos a ser superados, mas também emocionais. De repente você está olhando para uma floresta depois de um incêndio - muitas árvores pretejadas e sem folhas.

Como é que vou conseguir entender o que acontece no mundo sem aquelas mensagens de 140 caracteres aparecendo a todo momento e praticamente implorando para ser comentadas ou, no mínimo, retuitadas? (Tenho que admitir que eu quis escrever este blog como uma série de tuites, mas eu não parava de usar cada um dos caracteres permitidos, e minha editora foi obrigada a me lembrar que o texto traduzido ao português teria muito mais caracteres que o original em inglês e certamente não caberia no espaço. Argumentei que "Feliz Natal" tem menos caracteres que "Merry Christmas", mas ela não se convenceu. Então essa grande ideia foi para a lata de lixo.)

Já foi aventada a hipótese de que o Twitter teria sido na realidade a criação de um regime extracelestial que quer despir nossas linguagens de suas roupagens elegantes e reduzir nossas frases a factoides toscos e ataques vulgares. Os adjetivos devem ser proibidos, e reflexões entre parênteses, idem. Poesia? Um "não" inequívoco!

Frank Sesno, ex-chefe da sucursal de Washington da CNN e atual diretor da Escola de Mídia e Assuntos Públicos da Universidade George Washington, foi citado recentemente argumentando que a disposição de Donald Trump de usar seu feed do Twitter como arma, especialmente contra pessoas que não são rivais políticos, pode exercer um efeito inibidor sobre pessoas que se dispõem a criticar o presidente publicamente. "Isso pode desencorajar as pessoas de manifestar suas opiniões", ele disse.

Se estou lendo corretamente as folhas de chá do Tea Party, nosso futuro vai ditar que sejam deletados quaisquer conteúdos que excedam os limites de caracteres e profundidade do Twitter. Lamentavelmente, será o fim da Constituição americana, do código fiscal dos Estados Unidos (que tem mais palavras e "não farás..." que a Bíblia) e até da própria Bíblia. Os estimados 17,3 milhões de seguidores no Twitter do em-breve-presidente Donald Trump receberão todas suas "notícias" no meio da noite, diretamente do maníaco insone da Casa Branca. Coletivas de imprensa em que jornalistas são autorizados a formular perguntas inquiridoras não limitadas pelo número de caracteres serão tão raras quanto os pedidos de desculpa de Trump por ter se equivocado sobre alguma coisa. Nuances e matizes vão virar coisa do passado. Simplesmente não se encaixam no limite de atenção de Donald Trump, restrito a 140 caracteres. O discurso democrático vai se emburrecer paulatinamente até cair para o nível de um diálogo em um reality show.

Alguns pesquisadores audazes do "New York Times" produziram um catálogo de insultos proferidos por Trump. Quer molhar a ponta dos pés no rio de invectivas de Trump no Twitter?

Chegou sua oportunidade:

Como observou o "New York Times":

"... Trump demonstrou em sua transição, com seus tuites e seus comícios, que mensagens simples e viscerais funcionam. As pessoas se recordam dessas mensagens muito tempo depois de os detalhes complexos sobre políticas públicas terem caído no esquecimento."

Mesmo que sejam mentiras, como já mostraram ser muitos dos tuites de Trump, essas mensagens vão continuar ali fora, poluindo a atmosfera, e muitas pessoas vão continuar a acreditar nelas.

Talvez você se lembre que, durante a campanha eleitoral, os assessores de Trump de alguma maneira conseguiram barrar seu acesso ao Twitter. Indagado sobre isso, o presidente Obama comentou:

"Se uma pessoa não sabe lidar com uma conta no Twitter, ela não sabe lidar com os códigos nucleares. Se você começa a tuitar às 3h da manhã porque o programa 'Saturday Night Live' tirou sarro de você, você não vai poder lidar com os códigos nucleares."

Como sabemos, Trump conseguiu sua conta no Twitter de volta e a vem usando diariamente. Dentro em pouco, ele terá acesso aos códigos nucleares. Acho que no futuro próximo veremos a elegância de nossas línguas reduzida pouco a pouco até que não reste nada exceto frases feitas de uma linha só, mensagens autocongratulatórias e ataques a qualquer pessoa que o critique. E vamos torcer para ele não chegar perto do botão nuclear.

Se eu ainda tivesse minha conta de Twitter, poderia enviar um tuite desejando a todos um 2017 cheio de saúde, felicidade e prosperidade. Por sorte, posso fazê-lo mesmo sem o Twitter.

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