OPINIÃO

Gringolândia: o que há de novo e diferente em Nova York?

15/10/2015 13:26 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Geoff Tompkinson via Getty Images
Fisheye shot of crowds in Times Square at night.

Tudo parece mudar tão rápido nos Estados Unidos - pelo menos em Nova York. Fazia alguns anos que não voltava para lá e queria ver se as mudanças tinham sido tão dramáticas quanto me diziam. Também queria ver duas coisas extraordinárias no teatro; o musical da Broadway "Hamilton" e uma montagem de "Sonho de uma Noite de Verão" com apenas cinco atores, muito longe da Broadway.

O Meatpacking District, antigo reduto dos frigoríficos, a oeste do Greenwich Village, virou um lugar superchique, com banners exibindo a logomarca do "Meatpacking District" e caríssimos hotéis "in" disputando os dólares dos turistas. Artistas e artesãos foram expulsos do bairro para abrir espaço para os nouveau riche. Todo táxi agora aceita cartões de crédito, e a máquina sugere quanto deixar de gorjeta. A comida étnica está em toda parte, e o número de línguas diferentes ouvidas nas ruas é impressionante.

O teatro também está mudando.

Quem diria que um musical baseado na vida e morte de um dos pais fundadores dos Estados Unidos, Alexander Hamilton (1755-1804), que passou de imigrante pobre a primeiro secretário do Tesouro, se tornaria uma das produções mais concorridas da Broadway em anos? Ou que o público (incluindo o presidente Obama, a maioria de seus ministros e quase todas as autoridades do primeiro escalão) faria filas para ver uma peça intelectualmente desafiadora e cheia de camadas de referências históricas, apresentada num ritmo frenético e com uma trilha de hip-hop, levantando questões contemporâneas sobre raça e imigração?

O musical começa com Aaron Burr, adversário de longa data de Hamilton, perguntando para Hamilton (nascido nas Índias Ocidentais): "Como um bastardo, órfão filho de uma prostituta e de um escocês... que viveu na miséria cresce e se torna um heroi e um acadêmico?"

Em três horas de discursos e ação brilhantes, conhecemos Washington, Jefferson, Madison, o rei George III, o marquês de Lafayette e, é claro, o ambicioso Aaron Burr. Como disse a resenha do The New York Times: "Estão todos aqui, fazendo guerra e escrevendo Constituições e debatendo estruturas econômicas".

Apropriadamente, "Hamilton" está no teatro vizinho de "Les Miserables", o último musical verdadeiramente marcante.

A estrela dessa produção assombrosa é o musical em si. O elenco tem uma variedade de nacionalidades e tons de pele que estaria em casa na sede da ONU, a algumas quadras de distância. O fato de essa mistura racial funcionar tão bem, apesar das imprecisões históricas, reflete uma grande mudança de atitudes que pelo menos alguns dos fundadores dos Estados Unidos teriam aplaudido.

O gênio por trás de "Hamilton" é o dramaturgo, músico e intérprete de Hamilton, Lin-Manuel Miranda, um talento fulgurante que recentemente recebeu o prestigioso prêmio MacArthur. "Hamilton" é resultado de cinco anos de trabalho intenso de Miranda, um descendente de porto-riquenhos. Ao trazer à vida esse período histórico, ele provou que os musicais podem ser ao mesmo tempo sérios e mais que mero entretenimento.

Caminhando sentido oeste, quase chegando ao rio Hudson, você encontra o Pearl Theater, um espaço íntimo onde cinco atores extremamente talentosos apresentam "Sonho de uma Noite de Verão", de Shakespeare, numa montagem hilária, que prova que grandes sets e produções elaboradas muitas vezes atrapalham o bom teatro, em vez de realçá-lo. Com a crescente disparidade entre produções ricas e pobres, estas últimas têm de se virar sem a ajuda de investidores ricos. Isso quer dizer que o dinheiro tem de ser substituído pela imaginação.

Lembrando um pouco "R&J de Shakespeare", em que quatro atores homens interpretaram "Romeu e Julieta" no evento "Experimento Shakespeare" do SESC-SP, em 2012, os três atores e duas atrizes de "Sonho de uma Noite de Verão" constantemente trocam de papeis e usam seus corpos para criar o cenários. Parte da poesia de Shakespeare se perde na ação frenética, mas ainda assim a peça é maravilhosa.

Tudo isso é empolgante e preocupante ao mesmo tempo. Nova York era o "cadinho" original onde imigrantes como Alexander Hamilton desembarcavam à procura de uma nova vida. Mas, com o recente fluxo de dinheiro estrangeiro de origem questionável, apartamentos de milhões de dólares se tornaram a regra, não a exceção. São lugares excelentes para esconder dinheiro, nada parecidos com as tavernas em que os fundadores do país se reuniam para planejar um novo país. Hoje, quem chega sem vastos recursos não pode nem sonhar em morar em Manhattan.

É uma pena. A essência de "Hamilton" fala sobre a capacidade de uma pessoa de partir de origem humilde, e a de "Sonho", de fazer muito com pouco. Esperemos que a cidade siga o mesmo caminho dessas produções teatrais brilhantes em vez da gentrificação do Meatpacking District.

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