OPINIÃO

Este gringo tornou-se um viciado em últimas notícias

A vida imita a arte ou a arte imita a vida?

14/06/2017 01:28 -03 | Atualizado 14/06/2017 01:28 -03
Kevin Lamarque / Reuters
Donald Trump transformou a presidência dos EUA num dramalhão com suas esquisitices provocatórias.

Ok, eu admito. Este gringo tornou-se um viciado em últimas notícias.

Tudo começou inocentemente, assim como todos os vícios. A campanha eleitoral norte-americana de 2016 e suas horrendas consequências, a avalanche de revelações do escândalo da Petrobras que levaram à remoção de Dilma Rousseff da Presidência da Repúblicae a Operação Lava Jato passaram a atrair mais leitores e espectadores do que qualquer novela ou série da Netflix. Ao final de cada dia, nos encontramos debruçados à beira do abismo de sempre, à espera do próximo episódio.

Normalmente, eu surfaria pelos canais à procura de eventos esportivos ou algum concurso gastronômico, depois de me entediar com a arrogância insuportável do Richard Quest na CNN ou com os acontecimentos de séries como A Regra do Jogo. Mas tornou-se impossível se desligar do drama da vida real das notícias da hora.

O ator inglês Stephen Moyer escreveu: "conflito é drama, e como as pessoas lidam com drama demonstra que tipo de pessoas elas são". Certamente pode-se ver com clareza que tipo de pessoas estão governando os EUA e o Brasil, e não é um retrato muito feliz.

Sem sombra de dúvida, Donald Trump transformou a presidência dos EUA num dramalhão com suas esquisitices provocatórias e seus intermináveis tweets semi-alfabetizados.

Como disse um analista, "Trump tem a profundidade de uma demão de tinta". Apesar de termos nos entretido com a realidade alternativa apresentada em seu show relativamente inofensivo, The Apprentice (O Aprendiz, no Brasil), suas ações como o homem indiscutivelmente mais poderoso, e portanto mais perigoso, do mundo não são exatamente divertidas.

Charles Blow, observador do New York Times, escreveu: "no mundo de Trump não importam os fatos, não importa a verdade, não importa a linguagem. O único ideal é uma performance apaixonada. Uma mentira dita com firmeza e repetida com frequência é melhor do que a verdade – é aceita como um ato de fé, que é melhor do que um fato real". Ser o máximo do surreality show é o que o torna tão atraente.

O drama que envolve o recente depoimento perante o Congresso de James Comey - ex-diretor do FBI que investigava uma possível ligação entre a campanha eleitoral de Trump e os russos e foi sumariamente demitido por Trump - é um exemplo perfeito. Martha Dolciamore escreveu noSanta Cruz Sentinel:

"Quando Comey declarou ter ouvido de Trump 'eu espero lealdade', não pude deixar de sentir que, de algum modo, Trump estava encarnando o personagem de seu show de TV The Apprentice. E quando Comey se recusou a colaborar, Trump fez o que fazia com os candidatos no The Apprentice. "Você está despedido!"

Oscar Wilde escreveu que "a vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida". Mas no caso de Trump, parece mais apropriado o comentário de Woody Allen: "a vida não imita a arte, imita televisão ruim".

Aqui no Brasil, a situação parece diferente, mas existem muitas similaridades. Em seu âmago está a longa tradição de corrupção impregnada na sociedade brasileira. Entre os muito ricos e poderosos que foram presos na Operação Lava Jato,estãoo ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha e Marcelo Odebrecht, um dos principais homens de negócios do Brasil.

Apesar das manobras para tentar impedir a iniciativa judicial em Brasilia (sombras dos esforços de Trump em Washington), as prisões causaram um choque dramático, mesmo para uma nação que não se choca facilmente. Ordenada pelo agora célebre juiz Sérgio Moro, é difícil não ver nesta situação caótica a imagem espelhada da destruição do império corrupto de Frank Underwood em House of Cards.

Em mais um episódio surpreendente da sua longa saga, o presidente Michel Temer conseguiu se agarrar tenuamente à presidência frente ao Tribunal Superior Eleitoral, com 4 votos a seu favor contra 3. Conforme reportado pelo NY Times, a decisão coube a "juízes que são claramente a favor de Temer ou que foram apontados por ele e que votaram para mantê-lo no poder". É pra ficar surpreso?

Fosse este o último episódio da última temporada, todo mundo poderia voltar ao trabalho. Mas, definitivamente, não é este o caso.

A falta de popularidade de Temer o mantém na defensiva, o resultado de um novo escândalo no qual uma conversa com um magnata da carne gravada secretamente (ele trocou sua imunidade criminal e uma passagem só de ida para fora do País por informações abundantes) parece mostrar o presidente obstruindo uma investigação anti-corrupção. O público está ligado no próximo episódio, mas cada vez mais preocupado – o drama pode não ter um final feliz.

Se "Deus é brasileiro", Antonio Delfim Netto, ex-ministro da Fazenda e um dos economistas mais proeminentes do Brasil, não está mais tão certo disto. Ele foi citado recentemente por comentar com tristeza que "Deus desistiu do Brasil".

Será que a vida está imitando a arte ou vice-versa? E será que alguém pode sugerir alguma forma de me livrar do meu vício?

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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