OPINIÃO

Espetáculos de dança compensam 'viagem' até o teatro Alfa, em São Paulo

29/10/2015 19:53 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Divulgação

Se há algo que possa ser feito para despertar o interesse em dança, seria mudar o esplêndido Teatro Alfa de Santo Amaro para a região central de São Paulo. Mais que qualquer outra casa, o Teatro Alfa oferece espetáculos de dança com regularidade. Vamos até lá apesar do incômodo, da distância e do trânsito - é onde a dança vive.

A temporada deste ano apresentou o Cirque Plume, da França, o Grupo Corpo, o Ballet du Grand Théâtre de Genève e o Balé da Cidade de São Paulo. O Alfa também recebeu várias companhias que fizeram parte do festival O Boticário na Dança. Ambas as temporadas ofereceram assinaturas para as performances, com descontos nos preços. E o público está aumentando. Mas será que ele não aumentaria muito mais se o Teatro Alfa não fosse tão longe?

Assistindo ao Ballet du Grand Théâtre, uma companhia com uma longa e nobre tradição, associada a luminares como Diaghilev, Nijinski e George Balanchine, a expectativa era de uma coreografia explosiva. As duas peças do repertório, Lux, coreografada em 2010 por Ken Ossola e apresentada ao som de Requiém, de Gabriel Fauré, e Glory, coreografada em 2012 por Adonis Foniadakis com música de Handel, deram uma boa mostra da companhia e de seus dançarinos, mas ambas eram muito parecidas em termos de conteúdo e estilo. Lux tinha um problema extra: a dança competia com algumas das músicas mais lindas e tocantes de todos os tempos. Não é surpresa que a música tenha levado essa.

lux

Talvez um lugar tão calmo e regrado como a Suíça explique o estilo clássico e limpo da companhia de Genebra, mas ficam faltando a paixão que incendeia o palco.

Paixão não faltou ao Balé da Cidade de São Paulo. Em Cacti, um espetáculo extraordinário criado originalmente para o Nederlands Dans Theater em 2010 por Alexander Ekman, com uma colagem de composições de Haydn, Beethonven e Franz Schubert, a companhia fez uma apresentação robusta e apaixonada. O público se vê diante de muitas perguntas sobre a dança: será que os movimentos derivam dos esportes, das artes marciais ou meramente de observações agudas da maneira como nós humanos nos movemos e interagimos?

Assista a um curto vídeo de Cacti, com o Atlanta Ballet:

Os dançarinos aparecem sobre quadrados de madeira, aparentemente aprisionados pelo pequeno espaço. Mas, conforme o espetáculo se desenrola, eles conseguem escapar dessas limitações e assumem o controle do ambiente. Ao mesmo tempo, ouvem-se a música polifônica de um quarteto de cordas e uma voz gravada falando coisas sem sentido em inglês. É de se perguntar se o coreógrafo Ekman está fazendo uma piada com a pretensão da dança contemporânea (e, não por acaso, com aqueles que escrevem com tanta "sabedoria" a respeito). Ekman diz que é uma "'desconstrução' das afetações da dança".

glory

Pelo trabalho de se libertar, cada dançarino recebe um pequeno cacto. Muito som e fúria, mas qual é o significado? Quem vai saber? E importa? Todo mundo se divertiu. Talvez essa seja a diferença essencial entre as companhias brasileiras e suíças. Podemos admirar a precisão dos dançarinos suíços, mas não tem como não se excitar com a paixão dos brasileiros.

Parafraseando o famoso Guia Michelin, em ambos os casos valeu a viagem até o Alfa.

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Cacti