OPINIÃO

GringoView Eleição nos EUA: História de Fantasmas

22/06/2016 17:27 -03 | Atualizado 22/06/2016 17:27 -03
Drew Angerer via Getty Images
NEW YORK, NY - JUNE 22: Republican Presidential candidate Donald Trump speaks during an event at Trump SoHo Hotel, June 22, 2016 in New York City. Trump's remarks focused on criticisms of Democratic presidential candidate Hillary Clinton. (Photo by Drew Angerer/Getty Images)

"A vida não passa de uma sombra que caminha, um pobre ator

Que se pavoneia e se aflige sobre o palco -

Faz isso por uma hora e, depois, não se escuta mais sua voz.

É uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria

E vazia de significado."

Shakespeare, em Macbeth

Esta eleição gringa pode ser cheia de som e fúria e pode ser totalmente vazia de significado. Mas, pelos padrões de todas as eleições passadas nos Estados Unidos, ela está ficando cada vez mais estranha e assustadora. Este pode ser um bom momento para meus compatriotas gringos se colocarem algumas perguntas difíceis sobre sua democracia e decidir que rumo ela deve seguir.

Esse barulho todo em torno da eleição está forçando o público americano a encarar os fantasmas do racismo, do machismo agressivo, da homofobia e da inveja enraivecida, que esperavam nos bastidores por seu momento de ocupar o palco central. O provável candidato republicano Donald Trump despreza a "correção política" frequentemente hipócrita, dando preferência a uma linguagem francamente racista, evocando o fantasma da segregação racial e se deleitando com o endosso recebido do Ku Klux Klan (KKK).

Em entrevista à CNN, ele se negou a condenar David Duke, antigo "grande mago" (líder) do KKK, e os grupos supremacistas brancos que apoiam sua candidatura. Isso não é politicamente correto, não mesmo. Seus apoiadores, como Paul Ryan, o poderoso e covarde presidente da Câmara dos Deputados, condenaram fortemente o fato de Trump não se dispor a rejeitar o endosso do KKK, mas disseram que nem por isso deixarão de apoiar a candidatura de Trump. Não é exatamente um bom exemplo de alguém que tem a coragem de defender suas convicções.

A mesma coisa se repetiu com o ataque lançado por Trump contra o juiz que preside um processo na justiça federal contra a Trump University, um programa de seminários de corretagem imobiliária de Trump que é acusado de ser uma operação que visa lucros ilegais. Trump disse que o juiz não pode ser justo porque é "mexicano" (na realidade o juiz é filho de imigrantes mexicanos, mas nasceu e foi educado nos EUA). Os frequentes e violentos ataques de Trump a muçulmanos, tachando-os de terroristas e dizendo que se for presidente não os deixará entrar no país, são apenas mais um caso em sua longa lista de ataques racistas e xenófobos.

Meus amigos aqui no Brasil me perguntam a toda hora: "O que aconteceu com a América?" Por que uma parte grande da populacho de repente perdeu sua tolerância cortês e cordial das opiniões e crenças que diferem das suas? Será o fim da democracia e da liderança moral dos Estados Unidos? Será Trump um pequeno Hitler ianque, à espera de seu momento?

Lamento dizer que o que aconteceu com a América não é novidade alguma. É algo que vem acontecendo há algum tempo já. Antes os fantasmas sussurravam; agora, estão gritando. Desde a eleição de Barack Obama, o primeiro presidente negro, os republicanos vêm usando (com êxito considerável) sua maioria na Câmara e no Senado para tentar sabotar e derrotar cada iniciativa dele. Esses esforços quase sempre são disfarçados como atos de "conservadorismo". Mas a verdade é que são motivados por um ódio racista singular, que fervilha em fogo baixo, pelo fato de, nas palavras de um crítico, "...um deles ter chegado à Casa Branca, e não um de nós".

Com a ascensão do fenômeno Trump, estamos assistindo a uma enorme reação contrária de homens brancos, da classe trabalhadora e de baixo nível de instrução, que se sentem traídos pelo poder e a riqueza crescentes da comunidade negra, por imigrantes que eles consideram que colocam em risco sua segurança no emprego, pelo papel mutante (e desafiador) das mulheres e por uma revolução tecnológica que os ultrapassou e deixou a ver navios. O fato de seu herói ser um bilionário agressivo, egoísta, vulgar, mentiroso e mulherengo parece não incomodá-los nem um pouco.

Por sorte, esse fato mais que incomoda -ele deixa horrorizados os homens educados, a maioria das mulheres, os negros e os hispânicos, sem os quais não é possível conseguir votos suficientes para ser eleito presidente.

Então para que todo o som e a fúria?

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