OPINIÃO

As eleições americanas são um espelho do show business?

19/08/2015 17:05 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Gage Skidmore/Flickr
Donald Trump speaking at CPAC 2011 in Washington, D.C. Please attribute to Gage Skidmore if used elsewhere.

Eu jurei que não ia escrever este blog. Afinal, quem no Brasil pode dar a mínima para as maluquices que acontecem no interminável circo político da Gringolândia, especialmente quando este país se encontra em modo de crise, com a economia afundando, o escândalo da Petrobrás continuando e as revelações sempre crescentes da operação Lava-Jato alimentando manifestações crescentes de indignação pública, indicativos claros de que o público está levando tudo isso a sério?

Me pergunto se o mesmo pode ser dito das idas, vindas e, principalmente, do palavrório bombástico do grupo atual de 17 pré-candidatos republicanos e quatro democratas que se acotovelam para tentar ser nomeados o candidato presidencial de seu partido, mais de um ano antes da próxima eleição presidencial nos Estados Unidos. É espantoso como cada ato ou palavra deles é dissecado e discutido pela mídia, como se eles devessem ser levados a sério. Pior ainda, o público (descrito anos atrás, em frase que ficaria famosa, como "o grande grupo dos que não se banham") está acompanhando tudo como se fosse o reality show mais recente.

E é exatamente isso mesmo.

Por que razão 24 milhões de telespectadores - o recorde absoluto para um evento não esportivo transmitido pela TV a cabo, um público muito maior do que qualquer programa político sério jamais teve - acompanhariam um "debate" televisionado de duas horas entre os dez principais candidatos republicanos? Por que razão o Facebook e o Twitter se iluminariam como árvores de Natal, fervilhando de comentários pasmos sobre o debate e seus participantes?

A resposta só pode ser que parecemos ter nos afastado de um mundo em que questões sérias são discutidas seriamente. Hoje tudo é show business e celebridades.

O líder atual dos candidatos republicanos, segundo as pesquisas de opinião, é Donald Trump. Para quem não conhece seu nome (e não deve haver muitos que não o conhecem), Trump (frequentemente descrito como "The Donald") é um magnata bilionário do setor imobiliário, dotado de um ego maior e mais grandiloquente que seus mais pretensiosos imóveis Trump, Hotéis Trump, Campos de Golfe Trump e outros ativos Trump. Ele comandou durante anos um reality show de grande audiência, "O Aprendiz", e ficou famoso pelo prazer evidente e sádico que tinha ao olhar com cara feia para cada aprendiz que não atendia aos seus requisitos e lhe dizer "você está despedido!".

Ironicamente, foi justamente isso que sua rede de TV lhe disse recentemente, depois de uma diatribe que ele lançou quando anunciou sua pré-candidatura à Presidência americana. Naquele discurso ele falou, aludindo aos imigrantes mexicanos: "Eles trazem drogas ao país. Trazem o crime. São estupradores. E alguns, imagino, são pessoas boas." Foi demais para a rede de TV e seus patrocinadores, mas, ao que parece, não para uma grande parcela do público.

O que sai da grande boca de Trump é em boa parte factualmente equivocado. Uma declaração clássica de Trump: "O site de US$5 bilhões da Obamacare... nunca funcionou. Ainda não funciona", é, segundo o site confiável de verificação de dados Politifact.com, "errada em relação ao custo e à eficácia [da Obamacare]". Embora muitos dos fãs de Trump pareçam não se incomodar com isso, não podemos descartar por completo a possibilidade de que as coisas racistas, misóginas, combativas e pura e simplesmente falsas que ele diz agradem a esses fãs, porque eles compartilham secretamente essas posições, mas são tímidos e politicamente corretos demais para expressá-las publicamente. "Acho que o grande problema deste país é ser politicamente correto", disse Trump no debate presidencial republicano. "Sinceramente, não tenho paciência com a correção política total, e, para ser franco com vocês, este país também não tem."

É verdade que a correção política pode ser levada ao extremo e pode acabar atrapalhando a expressão simples da verdade. Mas será que os modos vulgares e agressivos de Trump refletem uma insatisfação americana mais ampla? Estará a nação se afastando de sua cultura historicamente liberal e aderindo a uma em que a celebridade (e a riqueza e os excessos que a acompanham), seja como for que tenha sido conquistada, se tornou o ideal do país, e tudo pode? Será que nós, no Brasil, estamos tão para trás?

A grande pergunta que ainda não foi respondida: o reality show virou nossa nova realidade?

FIM.

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