OPINIÃO

A posse do caos?

20/01/2017 19:22 -02 | Atualizado 20/01/2017 19:22 -02
POOL New / Reuters
First Lady Melania Trump, United States President Donald Trump, Vice President Mike Pence and Karen Pence stand on the east front steps of the Capitol Building after Trump is sworn in at the 58th Presidential Inauguration on Capitol Hill in Washington, DC., U.S., January 20, 2017. REUTERS/John Angelillo/Pool

Como seu blogger residente que apresenta a visão dos gringos, estou profundamente constrangido e entristecido pelo que vimos tomar forma nos Estados Unidos nos últimos anos, culminando hoje com a posse de Donald Trump como o novo presidente americano com o potencial de criar caos.

Fui obrigado a lembrar recentemente, de modo áspero, que a América talvez seja o único país do mundo cujos cidadãos realmente acreditam e expressam sua suposta excepcionalidade, o único país que se enxerga como fonte da liderança moral do mundo e protetor da liberdade e da paz mundiais, que acredita que sua Constituição é um documento sagrado e suas tradições de liberdade são incontestáveis. Foi isso que fui criado para acreditar.

Porém, recordando o célebre comentário de Vinicius de Moraes ao retornar de uma viagem aos EUA: "Os Estados Unidos é bom, mas é uma merda. O Brasil é uma merda, mas é bom", um estudante brasileiro de 21 anos me perguntou: "Você consegue imaginar um americano dizendo isso sobre seu país?"

É uma boa pergunta. E está cada vez mais difícil responder afirmativamente, na medida em que passamos dramaticamente de uma era de dignidade e reflexão inteligente, sob o presidente Obama, para o populismo tosco e muitas vezes analfabeto de Donald Trump. Mesmo reconhecendo as inúmeras hipocrisias e incoerências inerentes às ações domésticas e internacionais da América ao longo dos anos, suas alianças com líderes cujos valores eram diretamente contrários aos valores expressos por americanos e suas próprias violações dos direitos humanos sobre os quais ela tão frequentemente passa sermões ao mundo, sempre houve algo de especial em meu país, mesmo em suas falhas.

Disse o colunista Charles Blow, do "New York Times":

"Ainda me espanto porque não houve americanos suficientes que tivessem ficado suficientemente alarmados e envergonhados com as idiotices perigosas que continuam a jorrar da boca do homem que na sexta-feira será empossado como presidente dos Estados Unidos."

No discurso de posse de Trump, um discurso carregado de um longo histórico de eloquência refletida da parte de presidentes desde George Washington, Trump não esteve à altura da ocasião. Ele não falou de ideais e sonhos, mas, em vez disso, reforçou os mesmos temas populistas que o elegeram: dando socos arrogantes no ar, prometendo a transferência do poder de Washington para o povo: "Hoje os cidadãos deste país tornam-se os governantes deste país outra vez", ele disse. Todas as decisões do governo serão condicionadas por "priorizar a América", ele falou.

E ele prometeu trazer empregos de volta do exterior e reabrir fábricas fechadas. Trump pediu aos cidadãos: "abram seus corações ao patriotismo, não há lugar para o preconceito", mas então, estranhamente, fez a ligação disso com a promessa de erradicar o "terrorismo islâmico radical" da face da Terra. "Daremos conta do recado" e "vocês nunca mais serão ignorados", ele prometeu. E concluiu com a frase que virou sua palavra de ordem: "Faremos a América ser grande outra vez".

O cerimonial da posse foi impressionante. Houve momentos de grandeza real, nos quais foi quase fácil demais esquecer a realidade e ignorar a montanha de contradições oculta diretamente embaixo da fachada politicamente correta de unidade.

Trump diz que seu gabinete possui o maior QI da história (algo que pode ser verdade, segundo verificadores de informações). Uma coisa é certa: seus membros são donos de uma parcela maior da riqueza da América do que qualquer gabinete anterior. Mas, como já vimos aqui, a corrupção não conhece fronteiras geográficas, e existe uma preocupação grande de que, para os bilionários que compõem o gabinete e são donos de grande riqueza, cuidar de seus próprios interesses em vez dos interesses dos eleitores brancos pobres que conduziram Trump ao governo pode mostrar-se uma tentação terrível.

O Nobel de Economia Paul Krugman resumiu o sentimento de receio quando escreveu:

"O novo presidente será corrupto e maluco, mas também será incompetente. Ele ainda é o egomaníaco inseguro que sempre foi, dotado de atenção de pouco alcance. E, o que é pior, está se cercando de pessoas (eticamente problemáticas, ignorantes sobre a área que supostamente devem administrar ou então dotadas de profunda falta de curiosidade) que compartilham muitos de seus defeitos -possivelmente porque esse é o tipo de pessoa com quem ele se sente à vontade."

Não é um cenário promissor. Traz a palavra "caos" escrita sobre ele. A este gringo aqui, só resta torcer pela melhor saída possível.

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