OPINIÃO

A corrupção virou norma?

Esse crime em todas as suas formas parece ter piorado significativamente nos últimos tempos.

23/08/2017 13:41 -03 | Atualizado 23/08/2017 13:41 -03
Joshua Roberts / Reuters
Os tumultos liderados e inspirados por nazistas que irromperam em cidades americanas refletem os instintos e o linguajar de Trump.

Está na cara que a corrupção sempre existiu.

O incrível tsunami de notícias avassaladoras dos últimos dias, reportando os atos de violência em Charlottesville e a recusa de Trump em condenar a marcha racista dos Nazis, demonstra a corrupção em seu auge, talvez ainda pior que a corrupção por dinheiro ou poder. É a corrupção da função primordial do presidente: defender os ideais tradicionais americanos e servir de exemplo para toda a nação.

Talvez seja por causa do foco Brasil/EUA deste gringo que a corrupção em todas as suas formas parece ter piorado significativamente. E tornou-se muito mais evidente nos últimos anos, quando a geração "me" passou a twittar por mais e mais de tudo o que existe para mim, mim, mim. Vivemos na idade das selfies, o egocentrismo impera fazendo que atingir o status de red carpet celebrity a qualquer custo tornou-se mais importante do que ganhar um prêmio Nobel.

O Guardianinglês descreveu a situação brasileira como "o maior escândalo de corrupção da História", o que não é surpresa, considerando os bilhões envolvidos. O presidente Michel Temer ganhou a distinção duvidosa de ser o primeiro chefe de Estado empossado a ser formalmente acusado de um crime. Ele continua sendo presidente, alimentando a expressão popular "acabou em pizza" - uma crença no fato de que nenhum embate politico é tão insolúvel a ponto de não poder ser resolvido com uma boa rodada de pizza regada a cerveja.

Vai ser necessário mais do que pizza e cerveja para mudar um sistema social em que o dinheiro e o poder reinam soberanos. E um sistema político onde o presidente é refém do Congresso, que, por sua vez, faz que seus membros peçam favores em troca de votos. E, frequentemente, os favores são financiados por dinheiro corrupto.

Em contraste radical com os EUA, graças a uma lei recente, corporações brasileiras não podem mais contribuir para o financiamento de campanhas eleitorais. As eleições de 2018 testarão se o Brasil consegue colocar no poder um governo que não tenha suas mãos nos cofres públicos nem dependa da corrupção para se manter. Melhor não apostar no resultado.

A corrupção que envolve a administração de Trump nos EUA cheira a "Yankee". A versão americana dessa doença vem se somar ao dinheiro e poder a corrupção de ideais, da civilidade a da linguagem. Para Zak Beauchamp, escrevendo para o influente Vox:

Os acadêmicos dizem que os instintos de Trump – assim como os de homens fortes como Mobutu Sese e Putin – o levam a ver o Estado como um feudo pessoal, um veículo para distribuir favores para familiares e aliados políticos, ao invés de algo que deve seguir as normas da neutralidade. É somente quando olhamos para o exterior – para países onde a corrupção e a pilhagem são a norma, não a exceção – que o perigo se faz realmente evidente.

Normas neutras costumavam ser uma especialidade americana, a fundação do "excepcionalismo americano". Mitt Romney, ex-candidato à Casa Branca, colocou eloquentemente: "Somos excepcionais por sermos uma nação fundada sobre uma ideia preciosa.: que todos os homens são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis. É a nossa crença na universalidade desses direitos inalienáveis que nos confere nosso papel excepcional na cena mundial, o de grande campeão da dignidade e liberdade humanas."

Como pode os EUA ostentarem a tocha da dignidade e liberdade quando o nosso presidente é descaradamente corrupto, sem dignidade, inteligência ou honestidade, objeto de ridículo e pária entre os líderes mundiais, e um perigo para o planeta? Trump está mais para um ditador de araque. Seus estúpidos tweetsmatinais são o veículo perfeito para alguém que nunca na vida teve uma ideia de mais de 140 caracteres.

Escrevendo para o The New Yorkersob a manchete "Os Negócios de Corrupção de Trump", Adam Davidson resumiu: "Tantos parceiros da Trump Organizationforam multados, processados ou investigados criminalmente que fica difícil atribuir o padrão a mera coincidência".

A marca Trump se enriquece mais e mais à custa dos contribuintes americanos. Normas éticas que um dia definiram critérios têm sido extremamente reduzidas ou mesmo ignoradas. Regulamentações ambientais foram para o lixo e a raiva e o nativismo substituíram o discurso e compromisso civilizados.

Da mesma forma que o escândalo da Petrobras se desenrolou durante anos, acordos feitos com a administração atual não virão à tona de imediato. A corrupção é desenfreada e parece que as crianças assumiram o controle da confeitaria.

David Brooks observou que "a sutileza está em hibernação na America moderna. Vivemos um momento em que as máfias de direita e de esquerda ignoram evidências e destroem bodes expiatórios". Essa corrupção de ideias e ideais envenena nosso espírito e adultera nossa natureza.

Os tumultos liderados e inspirados por nazistas que irromperam em cidades americanas refletem os instintos e o linguajar de Trump. Aliados ao temperamento infantil de Trump, estes fatos fomentam um crescente desdém da parte dos amigos da América ao redor do mundo.

A corrupção virou norma?

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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