OPINIÃO

Síria: A ajuda deve estar separada do processo político

Uma solução política é essencial para acabar com o sofrimento, mas não pode desviar a atenção das necessidades dos civis hoje.

26/05/2017 19:02 -03 | Atualizado 26/05/2017 19:02 -03
Rodi Said / Reuters
Deslocados sírios na cidade de Rakka.

Esta é a minha quinta visita à Síria. Toda vez que venho, vejo mais sofrimento. Quase metade da população foi deslocada e todos estão exaustos por causa do conflito. As necessidades humanitárias são imensas e estão crescendo vertiginosamente em algumas regiões do país ainda afetadas pelos combates.

Isso acontece especialmente nos lugares de difícil acesso ou com as pessoas que vivem sitiadas. A irregularidade da ajuda expõe essas populações a riscos, incluindo desnutrição, água não tratada ou assistência à saúde inadequada.

Acima de tudo, é evidente para mim que, mesmo se o conflito terminar amanhã, a assistência humanitária será assustadoramente necessária.

Reuni-me nesta semana com o presidente Bashar al-Assad e conversamos sobre as necessidades. Ressaltei a minha vontade de ampliar ainda mais o acesso do Comitê Internacional da Cruz Vermelha aos civis e detidos, enfatizando que é preciso que todos os lados no conflito facilitem mais o nosso trabalho no terreno. Junto com o Crescente Vermelho Árabe Sírio, estamos a postos para aumentar as nossas operações humanitárias neutras.

Estamos prontos para incrementar a distribuição de ajuda vital, mas o acesso é absolutamente crítico. Não podemos ajudar as pessoas que não podemos alcançar.

Sinto-me encorajado pelo progresso gradual que fizemos na prestação de assistência através das linhas de frente. Em 2016, realizamos oito vezes mais operações atravessando as linhas de conflito que em 2015 e, desde o início do ano, distribuímos ajuda em 19 operações desse tipo. Podemos fazer isso graças ao nosso diálogo honesto e direto com todas as partes do conflito. Mas precisamos transformar a ajuda em condições consistentemente melhores para a população.

Também visitei pessoas que sobrevivem em condições extremamente difíceis. São comunidades que vivem sem acesso seguro à água, são famílias deslocadas das suas casas e longe das pessoas queridas. Exatamente como me lembro da minha última visita. São os civis sírios que mais sofrem com este conflito.

Estou preocupado com a maneira que as hostilidades são conduzidas por todas as partes na Síria: ataques contra a assistência à saúde, uso de armas explosivas em áreas densamente povoadas e uso de táticas restritivas como os cercos.

Respeitar o Direito Internacional Humanitário e permitir o acesso é salvar vidas e aliviar o sofrimento de milhões de pessoas. As normas da guerra – acordadas pelos próprios Estados para salvar vidas – devem ser levadas em consideração quando as decisões militares são tomadas.

Uma solução política é essencial para acabar com o sofrimento, mas não pode desviar a atenção das necessidades dos civis hoje. A ajuda deve estar separada do processo político, e este não deve significar que os olhos do mundo não vejam mais o sofrimento da população síria.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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