OPINIÃO

Podemos levar um vislumbre de esperança para os sírios?

31/03/2015 18:54 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02
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Você pode imaginar os perigos de dar à luz em um hospital sem eletricidade nas noites frias da primavera no norte da Síria?

Os recém-nascidos tinham poucas chances de sobreviver em meio ao caos e à carnificina no leste de Aleppo, até que o Comitê Internaciol da Cruz Vermelha (CICV) e o Crescente Vermelho Árabe Sírio conseguiram levar um gerador elétrico, através das linhas de frente da cidade, ao único hospital pediátrico. Alguns dias mais tarde, a chefe da nossa delegação na Síria recebeu um e-mail com uma foto da fila de incubadoras que mantinham aquecidos os bebês de poucas horas.

"Foi arriscado levar o gerador ao hospital, mas ele realmente salvou vidas", me contou Marianne Gasser, chefe da delegação, depois que os voluntários do Crescente Vermelho enfrentaram disparos de franco-atiradores para ajudar a restabelecer a eletricidade.

Toda nova vida certamente traz alegrias para a mãe e o pai, e quem poderia negar aos pais as esperanças que têm para o seu filho, mesmo na Síria, país que entra no quinto ano de um conflito devastador?

Mas o futuro das crianças é desolador. Em Aleppo, elas crescerão em meio a destroços depois de meses de combates pesados e dormirão com o barulho incessante dos bombardeios e tiros. Se elas fugirem com os seus pais, aumentarão as fileiras dos quatro milhões de Sírios que pediram refúgio no exterior ou se tornarão mais um dos sete milhões de sírios que buscam a segurança com amigos, com a família, em acampamentos ou abrigos provisórios.

Toda criança nascida na Síria é afetada pelo conflito. Os serviços de saúde estão desmoronando, a economia está destruída e a multidão de desempregados têm poucos recursos para continuar vivendo. Os parentes dessa criança terão sido mortos ou feridos. Quando o filho adoecer, os pais enfrentarão muitas dificuldades para conseguir o tratamento adequado, já que os hospitais fecharam ou foram destruídos e os médicos fugiram ou foram mortos. Os pais têm de se preocupar com conseguir comida, como se manter aquecidos e se a água - que às vezes sai da torneira - é segura para beber.

A criança de Aleppo será especialmente vulnerável em um conflito que violou quase todas as normas elaboradas para poupar as pessoas que não participam dos combates. Quatro anos de violência destrutiva não fazem com que seja aceitável atacar estabelecimentos de saúde, alvejar indiscriminadamente os civis ou maltratar as pessoas capturadas.

Quando uma pessoa nasce, as crenças dos seus pais ou a origem étnica não deveriam fazer dela um alvo. Os jovens, os idosos, as mulheres, as pessoas com deficiência, os doentes e os feridos têm direito à proteção segundo o direito internacional. Com demasiada frequência, os apelos do CICV para que se respeitem as normas são ignorados.

O conflito tem um impacto tal que o Movimento Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho tem de consertar cada vez mais a infraestrutura básica da Síria. Os nossos engenheiros reparam bombas d'água, trocam tubulações, distribuem água em garrafões e caminhões para garantir que os 16 milhões de sírios tenham água potável, uma necessidade básica para viver.

Em Aleppo, a rede elétrica está tão danificada que só fornece um pouco mais de uma hora de eletricidade por dia. As nossas equipes estão trocando os cabos de alta tensão para que os serviços básicos, como hospitais, tenham a energia necessária para funcionar.

Os edifícios estão destroçados pela violência, mas as pessoas também. Somente em Aleppo, as autoridades estimam que uma quantidade extraordinária de pessoas - entre 70 e 100 mil - sofreram amputações. Cada uma dessas pessoas traumatizadas precisa de reabilitação para se recuperar física e mentalmente. São necessárias cadeiras de rodas e também próteses.

Até o meio do ano, o CICV e o Crescente Vermelho Árabe Sírio abrirão dois grandes centros ortopédicos, em Aleppo e Damasco, para entregar membros artificias e oferecer terapia.

São projetos como os nossos serviços de abastecimento de água e as nossas clínicas de reabilitação física que fazem a diferença na Síria. Marianne acaba de voltar ao país depois de 18 meses de ausência. Quando lhe perguntei o que havia mudado, ela me disse que muitos dos seus velhos amigos perderam a esperança. Cabe aos políticos obter a paz, mas o Movimento Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho, com o firme apoio dos seus doadores no Oriente Médio, pode ajudar a manter a esperança.

Mediante um processo de negociação, realizado com paciência, e a insistência de que a ajuda somente pode ser distribuída com base nas necessidades, o Movimento ampliou esses momentos em que se sente esperança.

Todas as semanas, 200 caminhões com assistência humanitária saem dos nossos depósitos na Síria, tendo dobrado, no ano passado, o número de vezes que cruzamos as linhas de frente para chegar até as pessoas necessitadas.

As Sociedades Nacionais da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho na Turquia, Líbano e Jordânia oferecem comida e abrigo aos mais vulneráveis, transportando e cuidando dos feridos de guerra, além de propiciar serviços básicos de saúde. Os governos e cidadãos mostraram a sua generosidade ao acolher milhares de sírios que o único que queriam era ir para casa em segurança.

Na própria Síria, muitas pessoas dividem o pouco que têm. O CICV distribui comida e cobre os gastos com o gás para as cozinhas comunitárias que alimentam milhares de pessoas. Estas cozinhas, porém, são dirigidas por organizações beneficentes locais que não sobreviveriam sem a generosidade de compatriotas sírios.

A natureza do Movimento Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho, uma parceria internacional e local que oferece uma resposta independente e imparcial, faz com que tenha a capacidade singular de manter a esperança por muitos anos pela frente. Está pronto para dobrar o nível atual de resposta na Síria e a ajuda para os refugiados e as comunidades que os acolhem duramente afetadas nos países vizinhos.

O conflito não vai terminar amanhã e estamos planejando com antecipação. Será necessária uma intensa atividade humanitária por, pelo menos, cinco anos mais.

Estamos na véspera da terceira conferência anual, no Kuwait, para gerar compromissos de apoio financeiro ao esforço humanitário na Síria, organizada pelo emir do Kuwait, Sua Alteza Xeque Sabah Al-Ahmad Al-Jaber Al-Sabah, que vem apoiando generosamente o Movimento Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho.

Se esta reunião no Kuwait puder gerar parcerias de longo prazo entre os doadores e o Movimento, elas trarão uma maior possibilidade de esperança para todas as crianças nascidas em Aleppo e em toda a região.

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