OPINIÃO

Sobre reformas e o Titanic

A situação da Previdência demanda mais economia que moral, mas toda a discussão é permeada por um clima apaixonado de jogo de futebol.

06/06/2017 13:25 -03 | Atualizado 06/06/2017 13:25 -03
Bloomberg via Getty Images
Brasileiros protestam contra a reforma da previdência, que endurece as condições para a aposentadoria no País.

Um velho professor ensinava a diferença entre economia e moral: moral é que o você fala e economia é o que você faz.

A situação da Previdência demanda mais "economia" que moral, mas toda a discussão (se é que se pode chamar de discussão a gritaria generalizada) é binária (fazê-la ou não fazê-la). É também permeada por um clima apaixonado de jogo de futebol e salve-se quem puder.

Retirar benefícios e apresentar contas a serem pagas são duas atividades que geram bastante resistência, mas chega uma hora que é impossível desconsiderar os efeitos da realidade. E a realidade é que o modelo da Previdência está comprometido e é insustentável a longo prazo.

Há dados concretos que mostram essa situação de maneira absoluta, como os gastos em relação ao PIB, e também em comparação a outros países, no caso de indicadores globais. Se nada for feito, o caos virá. E, com ele, a falta de pagamentos de aposentadorias e benefícios, entre outros males.

O assunto é complexo. Existem preocupações pertinentes do lado de quem perderá benefícios e terá que contribuir por mais tempo. Essas questões devem ser endereçadas, mas não por meio de panfletagem e discursos sectários que não resolvem o problema. Antes, acirram posições e dificultam a obtenção de uma solução. É o conhecido barulho da turma do "quanto pior, melhor".

A discussão sobre a reforma da Previdência parece uma disputa no Titanic após atingir o iceberg sobre quem vai passar da segunda para a primeira classe, quem se mantém na primeira classe e qual o cardápio do jantar do dia seguinte. Todos aparentemente alheios ao fato de a inundação já ter começado e de que o navio se dirige inexoravelmente para o fundo do oceano.

É verdade que nosso Titanic ainda tem jeito, apesar das falhas estruturais. Mas precisamos recobrar a mínima racionalidade, deixar o radicalismo de lado, encarar os números e buscar uma solução o mais rápido possível, uma vez que essa reforma tem impacto profundo sobre a economia, investimentos, desenvolvimento e o futuro do País.

Isso serve não apenas para a reforma da Previdência mas para a trabalhista, a tributária e todo esse arcabouço arcaico que nos emperra como nação e nos condena ao subdesenvolvimento.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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