OPINIÃO

O 'White Power' do cantor Phil Anselmo prova que o heavy metal (ainda) é racista

05/02/2016 16:38 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

Phil Anselmo, ex-vocalista do Pantera e atual Down, subiu ao palco no dia 22 de janeiro de 2016, durante o Dimebash, ergueu o braço direito e gritou "White Power". "Poder Branco" em inglês é expressão conhecida no meio neonazista. A informação foi até o YouTube através de um usuário chamado Chris R.

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Estragou a homenagem a Dimebag Darrell. Phil disse que era uma "brincadeira com vinho branco". Foi duramente criticado por Robb Flynn, guitarrista e frontman do Machine Head. Phil depois pediu uma "segunda chance" da comunidade heavy metal, que oscilou entre defendê-lo e chamá-lo de nazista. Rita Haney, ex de Dimebag, disse que Robb se aproveitou da situação, mas as críticas não pararam. Marcelo Barbosa, guitarrista participante de bandas como Almah e Angra, disse que a admiração pelo cantor caiu para zero. O próprio Angra reprovou a postura do artista.

Mas o que realmente incomoda no caso de Phil Anselmo é que ele escancara uma verdade: O heavy metal ainda é racista.

É racista, preconceituoso e machista.

Em uma entrevista na revista Playboy de maio de 2015, o ex-Sepultura Max Cavalera disse que a escolha de Derrick Green para a sua antiga banda é "meio cópia de Sevendust, aquelas bandas americanas que botavam um cantor preto num grupo de metal".

Numa outra entrevista ao site Delfos, em 2006, o guitarrista Andreas Kisser comentou sobre o preconceito que já existia de gravadoras com o fato de Derrick ser negro.

Mas a reclamação recorrente no meio é que apontar isso é coisa dos "Social Justice Warriors" - os famosos guerreiros da justiça social na internet.

Pelo que pudemos ver na repercussão do caso Phil Anselmo, não é.

E nunca foi.

As principais figuras do heavy metal, desde os primórdios em 1970, com o Black Sabbath, são homens brancos. Pessoas transgressoras e de cabelos longos, mas distantes do meio negro.

O rock surgiu da mistura com a cultura africana, mas ele foi liderado por brancos.

No Sabbath, o estilo foi guiado por jovens pobres da classe trabalhadora. Mas todos eles eram brancos e ingleses.

E com a popularização do estilo em países da Escandinávia, como a Finlândia e a Noruega, a música ganhou perfeição técnica e conquistou cada vez mais as camadas elitizadas. Tal informação surgiu em uma pesquisa de Richard Florida, da Universidade de Toronto, divulgada em 2014.

Distante de várias pessoas e de diferentes camadas sociais, o estilo conserva preconceitos. Um deles é o próprio racismo.

Outro é a baixa presença de mulheres, que entram em bandas estritamente femininas ou em determinadas posições. Temos diferentes casos de grupos liderados por talentos como Simone Simons, mas não temos tantos talentos mesclados.

Cantores declaradamente gays como Rob Halford são celebrados por serem "homossexuais com jeito de homem". A suposta aceitação é rodeada por preconceitos.

Isso tudo não é culpa dos críticos chatos que lembram essas informações, mas sim das pessoas que integram o estilo e permanecem preconceituosas.

A ação de Phil Anselmo não é um caso isolado e o medo de Rob Flynn em se posicionar sobre este fato é real. O ex-Pantera é idolatrado e criticá-lo significa atrair ataques de seus fãs na internet.

No entanto, precisamos perder o medo de dizer a verdade. O caso de Phil escancara uma triste verdade.

O metal é racista. É preconceituoso.

Precisamos admitir o erro antes de avançar e mudar o estilo musical para que ele aceite mais pessoas e se torne melhor.

Texto originalmente publicado na Whiplash.net.

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