OPINIÃO

Infelizmente ninguém vai bater panela no pronunciamento de Eduardo Cunha na TV aberta

16/07/2015 15:27 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

Eu deveria escrever sobre videogames aqui. Mas política ultimamente está gritando mais alto.

eduardo cunha

Este texto não é pessimista, mas é uma constatação honesta.

E uma provocação.

Cubro o noticiário de política por força da profissão de jornalista, mas acompanho as discussões sobre seus assuntos como um cidadão. Não sou filiado a nenhum partido político e só militei em grêmios e movimentos estudantis quando acreditei em suas causas. Minha ideologia e minhas crenças políticas são mutáveis e bastante flexíveis.

Preciso ser claro ao me posicionar para vocês entenderem o que quero dizer.

Mesmo com todas essas explicações, me revolta perceber a falta de conhecimento político das pessoas sobre o atual presidente da Câmara dos Deputados, o senhor peemedebista Eduardo Cosentino da Cunha.

Muitos amigos meus, na maioria deles politizados, apontam as óbvias manobras conservadoras do congressista. Ele é contra o casamento de pessoas do mesmo sexo, a favor do aumento do seu próprio salário e de benefícios, além de ter articulado um golpe branco (dentro da legalidade) para levar adiante a votação pela aprovação da diminuição da maioridade penal de 18 para 16 anos.

No entanto, as pessoas precisam urgentemente se atentar aos detalhes das ações do parlamentar. Há alguns pormenores importantes.

A agenda de Cunha é clara: Pró-parlamento, excludente socialmente e pouco preocupada com a estrutura das demais instituições. Como o PT é governo federal, embora tenha articulado acordos com o PMDB e pelo ajuste fiscal econômico, ele aproveita a polêmica de suas ações para alfinetar a presidente Dilma.

Eduardo Cunha milita pelo parlamentarismo no lugar do presidencialismo, regime de poder que foi criticado até pelo insuspeito Joaquim Barbosa, o juiz presidente do STF no caso do mensalão petista.

Dito tudo isso, reforço o título deste artigo.

Ninguém vai bater panela no anúncio às 20h25mins desta sexta, 17 de julho. Cunha terá liberdade de falar o que bem entender na TV.

Porque quem pode protestar contra o presidente da Câmara dos Deputados, diante do seu conservadorismo como parlamentar, é uma esquerda e um segmento da população muito restrito.

A esquerda popular, e sindicalizada, se manifesta contra formas específicas de políticas elitistas, como os liberais e as corporações privadas.

Os progressistas, dentro e fora da esquerda, mais cientes sobre os feitos de Cunha nestes sete meses são uma classe vinda das universidades, leitora de um determinado tipo de mídia e muito distante da comunicação de massa.

Neste discurso massificado que ora debate o impeachment de Dilma Rousseff, ora se detém nos escândalos do partido antagonista do PT, o PSDB, abre-se uma brecha cinzenta que encobre a corrupção parlamentar.

Eduardo Cunha se blinda na desinformação, e por fazer parte supostamente do partido de base do governo, o PMDB.

Na mesma semana em que carros importados são apreendidos na casa do ex-presidente e senador Fernando Collor de Mello, Cunha tem espaço livre para se defender na imprensa sem protestos de nenhuma massa relevante.

E ele já fez isso antes.

Quando Eduardo Cunha foi citado no relatório da operação Lava Jato, a mesma que investiga Collor, ele bateu na porta de cada veículo de mídia para se defender sozinho. Temia que fosse investigado após o depoimento de relatores muito provavelmente.

Deu uma entrevista mansa no Roda Viva de Augusto Nunes. Depois foi até a Globonews conversar com Mario Sergio Conti, num diálogo mais áspero. Por fim, foi capa da revista Veja em um texto sem nenhuma menção à operação Lava Jato. Eduardo Cunha é um excelente relações públicas de si mesmo.

Acusado por seu ex-aliado Anthony Garotinho de ser um lobista, Cunha coleciona acusações de ter sido beneficiado por um leque variado de empresas privadas para atuar por determinados interesses no Congresso. Da Coca-Cola, passando por empreiteiras e até a Vivo, antiga Telefônica, essas relações com corporações revelam como o deputado não vê financiamentos não contabilizados como um ato de corrupção pública.

Vale dizer que as mesmas relações promíscuas com o setor privado provocaram o complicado processo jurídico do mensalão petista.

Eduardo Cunha não vê contradição em tais promiscuidades e nem as discute como presidente parlamentar.

No entanto, seus escândalos não receberam o devido holofote da mídia de massa. Se você perguntar na rua para o cidadão médio sobre Cunha, é provável que ele só faça críticas ao fato dele ter sua religião evangélica, o que nem de longe é um problema em si.

O problema é o lobby que Eduardo Cunha exerceu desde quando era da equipe de Fernando Collor, na época de seu impeachment, até conquistar a simpatia do eleitorado evangélico e militar pelos interesses de lucro das corporações. Deturpando o interesse público, Cunha se pôs contra o Marco Civil da Internet para beneficiar as empresas de telefonia que já lucram com serviços online de baixa qualidade.

Despreza-se a regularmente a corrupção parlamentar brasileira na imprensa. Para a mídia massificada, só interessa o escândalo que chegar ao presidente.

Impeachment é uma palavra mais bonita do que Reforma Política feita de uma maneira séria.

Por isso, provoco: Não bateremos panelas por Cunha. Infelizmente.

Texto postado originalmente no Medium.

VEJA TAMBÉM:

Protesto contra Eduardo Cunha