OPINIÃO

Estão matando minorias em <em>Watch Dogs</em>?

03/06/2014 11:03 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

A jornalista Patricia Hernandez, do site Kotaku, postou recentemente um vídeo que foi compartilhado em redes como Reddit e 9GAG de jogadores assassinando minorias digitais no novo game Watch Dogs: Negros, muçulmanos, gamers (!!!), mulheres, estrangeiros e pessoas com sexualidade fora do padrão hétero. Em seguida, ela dispara no texto: "Claro que nem todo mundo está jogando Watch Dogs assim. Na verdade, a maioria das pessoas provavelmente não estão".

Patricia fez este comentário porque é uma escritora preocupada com minorias oprimidas, mesmo dentro de uma seção ligada ao mercado de entretenimento como os videogames. Várias ressalvas podem ser feitas a este comportamento nos games. Jogos de mundo aberto como Watch Dogs e GTA têm a tradição por colocar o player no papel de um criminoso que comete barbaridades em uma cidade, com várias possibilidades de escolha. E muitas pessoas jogam, destroem carros no jogo e assaltam bancos sem ter esse comportamento na vida real. O que chama a atenção, talvez, sejam os alvos específicos de alguns jogadores. Por que matar negros e não outras etnias no jogo, naquele momento de suposta diversão? Parece que é justamente nas horas mais descontraídas que o preconceito aparece nas pessoas.

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Em Watch Dogs, jogo lançado pela Ubisoft no Brasil em 27 de maio, você controla um hacker ladrão chamado Aiden Pearce. Com o rosto coberto e um boné, Pearce crackeia a identidade das pessoas por um celular chamado Profiler, permitindo saber detalhes de suas vidas íntimas através de seus smartphones. Com este enredo na cabeça, é meio assustador que as pessoas estejam matando justamente aqueles personagens digitais (NPCs) que se encaixam na categoria "minorias".

Patricia Hernandez tem tradição em fazer comentários deste naipe no Kotaku. Abertamente feminista, seus críticos chegaram a abrir um tópico de discussão no site concorrente, a IGN. Chegaram a chamá-la de "Leonardo Sakamoto dos games" em algumas discussões aqui no Brasil. E, como ela tem uma postura mais ativista, até por ser mulher e sentir na pele a opressão dos homens nos jogos digitais, é esperado que ela cause este tipo de reação, principalmente de pessoas que não conseguem reconhecer a consistência do movimento feminista.

Mas não é realmente estranho que jogadores estejam matando minorias religiosas, étnicas e culturais por diversão? Claro que tudo pode ser apenas uma zoeira, e nós temos jogos transgressores há muito tempo - quem não lembra de Carmageddon em 97 que dava bônus aos pilotos de carros que atropelavam pedestres no jogo de PlayStation?

Patricia acompanha o Twitter. De acordo com ela, o roteirista de Watch Dogs, Ethan James Petty, tuitou que ele não podia esperar para ver os gamers "abusarem de nossos pobres NPCs. Lembrem-se de tirar screenshots!". O desenvolvedor de jogos David Gallant questionou Petty sobre o fato de que os jogadores estavam jogando e hackeando personagens digitais para fazer bizarrices no game. Para a jornalista, neste momento do bate-papo, Ethan Petty parece que quis fugir da discussão: "[É a] realidade doente em que vivemos - a privacidade das pessoas reduzidas a fatos".

O próprio Kotaku apurou que há outros jogadores que não estão utilizando o Profiler e nem jogando Watch Dogs de maneira repulsiva. Existem players que estão agindo como Robin Hood no game, roubando dos ricos para dar aos pobres. Usos moralistas no jogo também estão em voga, mas até quando aceitaremos, naturalmente, comportamentos mais reprováveis das pessoas nos videogames? Não existe ética no virtual?

Longe de mim querer proibir determinados gêneros de jogos digitais. Sou contra qualquer proibição e continuarei pensando assim. Acredito que jogos de tiro são divertidos e que GTA provocou uma revolução no mercado do seu modo. Mas não está na hora, talvez, de apostar em outros jogos para mostrar outras realidades nos videogames? Ou será que matar minorias é realmente legal e quem critica isso é "feminazi-mal-comida"?

Acho que não. Para mim, Patricia Hernandez parece certa em seu texto.

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