OPINIÃO

Aconteceu um golpe de Estado no dia 17 de abril e não um impeachment

18/04/2016 13:50 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

O placar foi mortal.

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Foram 367 votos à favor do impeachment e 146 contra no último dia 17. A Câmara dos Deputados, presidida pelo réu Eduardo Cosentino da Cunha, mandou o pedido de impedimento da presidente Dilma Rousseff para o Senado. Especulações dão conta que a governante não resistirá ao processo.

O poder será passado ao vice Michel Temer, que divulgou uma carta reclamando da presidente e uma gravação antecipando seu discurso de posse. É um vice que quer ser presidente, totalmente diferente de Itamar Franco no impeachment de Fernando Collor de Mello.

Um vice que é acusado, desde o final de 2015, de receber R$ 5 milhões na Operação Lava Jato de Cunha.

Enquanto o presidente da Câmara teria recebido R$ 52 milhões parcelados em 36 vezes, de acordo com uma das inúmeras delações premiadas na mesma Lava Jato.

Dilma não está acusada na Lava Jato, a não ser em sua participação na compra da refinaria da Petrobras em Pasadena. A presidente não teria acusação de enriquecimento ilícito. Seu processo de impeachment é por pedaladas fiscais, uma maracutaia de empréstimos envolvendo bancos públicos para programas como Bolsa Família. Os autores do processo querem enquadrá-la em improbidade administrativa, como aponta os juristas Hélio Bicudo, Janaína Paschoal e Miguel Reale Júnior.

Impedida a presidente, saem fortalecidos Cunha e Temer. Na cadeira de presidente da República, o vice pode arquivar investigações contra si, alterando a atuação da Polícia Federal e do Ministério Público.

O próprio Eduardo Cunha está tentando fazer uma alteração no processo penal.

O que essas informações soltas apontam?

Há um golpe de Estado em curso. Ele começou no dia 17 de abril. Articulado pela base do governo Dilma contra sua presidente. Recentemente, o PT incorporou o discurso do golpe e fala abertamente com a mídia internacional. Dilma Rousseff e o próprio ex-presidente Lula, indicado ao ministério da Casa Civil, falam sobre isso em depoimentos.

Mas além da ideologia de esquerda do Partido dos Trabalhadores, de fato existe um golpe parlamentar em curso.

A maioria dos 367 votos pedindo o impedimento da presidente mencionaram Deus, a família tradicional e a "desmoralização da política sob o comando do PT". E nenhuma palavra sobre pedaladas fiscais. Ou justificativas para improbidade administrativa presidencial.

Jair Bolsonaro chegou a defender o torturador militar Brilhante Ustra, que colocou ratos na vagina de uma mulher no regime ditatorial.

Os grandes veículos de mídia brasileiros evitam tocar no assunto. Tratam o golpe como "jargão de esquerda".

Ignoram violações contra os governos de Honduras e do Paraguai, em 2009 e 2012, respectivamente. Foram "golpes brancos" com ares de constitucionalidade e que merecem um estudo para comparar ao que ocorre no nosso País.

Em 1964 o Brasil sofreu um golpe dos quartéis contra o presidente João Goulart porque ele ameaçou fazer a Reforma Agrária. Suas atitudes foram enquadradas como políticas esquerdistas em plena Guerra Fria.

Agora vemos o ciclo Lula-Dilma se encerrar num golpe branco, mesmo com o PT muito distante do progressismo que caracterizou sua história e mergulhado num desenvolvimentismo que o aproxima do PMDB. Partido empenhado na construção predatória de Belo Monte e no apoio de aliados nada confiáveis como Paulo Maluf, que pediu o impedimento da presidente.

O governo Dilma está sofrendo uma derrubada criminosa encabeçada pela dupla Temer-Cunha. Não entraremos numa ditadura militar, mas talvez teremos à frente uma presidência da República empenhada em abafar a Operação Lava Jato e ampliar a corrupção por baixo dos panos.

Aqueles que acreditam que este papo é balela de esquerdista estão prestes a cair numa gestão golpista comprometida em manter a economia ruim e o país sem credibilidade democrática.

Veículos internacionais questionaram a legitimidade dos golpistas.

Aqui no Brasil isso é tratado como papo de "governista".

Seria cômico, se não fosse trágico.

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