OPINIÃO

A posse de João Doria, o discurso de 'trabalhador' e a polarização destrutiva

02/01/2017 12:49 -02
André Bueno/CMSP/Fotos Publicas

No primeiro dia de 2017, João Doria Jr., o "gestor" do PSDB, tomou posse como prefeito de São Paulo no lugar do petista Fernando Haddad.

No discurso na Câmara Municipal, quando recebeu sua certificação oficial, Doria disse que vai governar pela ética, insistiu na tese de que não é um político profissional e que é o "João Trabalhador" que vai acordar cedo e bater ponto na Casa dos Vereadores. "Vamos começar agora com o projeto Cidade Linda, para limpar a cidade", afirmou no dia 1º de janeiro.

2017-01-02-1483331667-7356331-possedoria1.jpg

Disse também que iria "vestido de gari" no dia seguinte para promover o programa (hoje ele cumpriu com a promessa).

Fez um sinal de reza ao receber aplausos na cerimônia.

Doria faz um esforço hercúleo para desconstruir o discurso de seus opositores. Insiste que não é o "Donald Trump brasileiro", mesmo sendo um empreendedor de negócios distintos em Campos do Jordão e também na cidade de São Paulo. Deu entrevista para as páginas amarelas da revista Veja para tentar contrariar a tese.

O que realmente é comovente nesta tentativa de desconstrução dos opositores é a própria leniência do PT e de suas figuras públicas. Logo após a certificação na Câmara, Doria participou de uma cerimônia simbólica no Teatro Municipal com o agora ex-prefeito Fernando Haddad para a transmissão de poder. Haddad diz que passa a tocha como se fosse "para um irmão". Ele estava com uma gravata azul que foi dada pelo novo prefeito.

Irmão?

Do lado de fora do teatro, conforme este jornalista pode acompanhar, militantes pelos direitos do sem-teto, taxistas anti-Uber e apoiadores de Doria gritavam sem parar. Os dois últimos grupos estavam com o tucano. Mas os sem-teto odiavam todos os políticos.

2017-01-02-1483331964-9757464-possedoria7.jpg

2017-01-02-1483331992-2358812-possedoria8.jpg

E, na saída do Teatro Municipal, eles xingaram Fernando Haddad: "O senhor foi outro prefeito da burguesia! Trabalhador não governa pra burguês!".

Xingaram mais o governador Geraldo Alckmin, que também estava presente no local. Chamaram-o de "Ladrão da Merenda", mas não achincalharam tanto Fernando Capez, o presidente da ALESP e cria de Alckmin que carrega tais acusações. Na rua, o clima é de antipolítica de qualquer partido.

2017-01-02-1483332065-7323490-possedoria5.jpg

Enquanto João Doria Jr. tenta vender uma ideia falsa de que é "trabalhador", o calor das ruas só aumenta. O ceticismo político abre um espaço perigoso para o ódio. E o PT e o PSDB, ao invés de criarem uma polarização construtiva para São Paulo, debatendo ideias, contribuíram para construir a ruína que se avizinha.

Haddad fez importantes avanços de mentalidade e inteligência urbana ao brigar pelas ciclovias, pelo wifi livre, pela Paulista aberta e por muitas inovações que captaram os olhos da classe média paulistana. Mas faltou a base. Faltaram mais escolas, hospitais e creches pra periferia. A "quebrada" menosprezou o prefeito com "padrão europeu".

2017-01-02-1483332096-2634868-possedoria6.jpg

E botaram um "playboy" no lugar. Um empresário esperto, diga-se de passagem, mas que dificilmente vai desfazer sua imagem de Donald Trump tupiniquim.

Na Câmara Municipal dos vereadores, a mesa diretora teve como vitorioso Milton Leite, do partido conservador Democratas, o mesmo do militante do MBL recém-eleito, Fernando Holiday. Mesmo com vozes novas, como Sâmia Bomfim do PSOL, São Paulo dá provas claras que "tucanou" pelos próximos anos.

O novo prefeito e os vereadores fazem um bom par com o governador Alckmin, que já deixou os paulistas sem água temporariamente na crise da Sabesp, não termina as obras dos metrôs com a corrupção Alston-Siemens e tem seu partido há 20 anos no poder do estado.

Tucanar São Paulo parece um excelente roteiro para um desastre.

Um desastre anunciado.

LEIA MAIS:

- O 'gangster' Lula versus o gangster Eduardo Cunha

- 'Seria João Doria Jr. o Donald Trump brasileiro?'

Também no HuffPost Brasil:

João Doria 'vira' gari em São Paulo