OPINIÃO

A ignorância dos reacionários que falam em 'doutrinação feminista' no Enem

26/10/2015 16:15 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Creative Commons/Domínio Público

Neste último final de semana ocorreu a prova do Enem para estudantes do ensino médio e interessados em ingressar em faculdades e universidades brasileiras. Além das pessoas que foram barradas por perder a hora e viraram pautas sensacionalistas, as redes sociais foram tomadas por uma onda de conservadorismo após a execução do exame.

A avaliação incluiu uma pergunta sobre o livro "O Segundo Sexo" da filósofa francesa Simone de Beauvoir, utilizando um dos trechos mais famosos da obra que é uma das referências no estudo do feminismo.

"Ninguém nasce mulher: Torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino", aponta o texto antes de perguntar se o gênero feminino também é uma formação social.

O exame não utilizou apenas Simone como referência e também apresentou questões abordando o pensamento do educador de esquerda brasileiro Paulo Freire, o filósofo marxista Slavoj Žižek, entre outras perguntas com viés mais progressista.

A inclusão dos autores foi suficiente para provocar uma convulsão dos reacionários na internet.

Mas a prova não teve apenas questões de esquerda. Perguntas sobre David Hume e São Tomas de Aquino estavam no cardápio.

No segundo dia de avaliação, veio o tema da redação: "A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira". E a internet veio abaixo, com as feministas defendendo a ousadia da prova em finalmente avaliar questões de desigualdade de gênero.

O primeiro site reacionário a vomitar besteiras foi o Spotniks. Seguindo a linha deles na imitação do liberalismo norte-americano de uma maneira mambembe, publicaram um texto em primeira pessoa de um estudante que está se transferindo de faculdade e precisava fazer o exame. "Quem lê a prova sai com a impressão de que a crise de 2008 segue um assunto mais relevante para a maioria dos estudantes do que a realidade atual do país", diz o autor Felippe Hermes, que ignora a situação delicada da Europa e acha que tudo na esquerda se refere à Karl Marx.

Para quem não lembra, o mesmo Spotniks que resolveu criticar a presença de Simone Beauvoir no começo do Enem é aquele site que defendeu que as mulheres usem armas de fogo para contra a violência sexual. Seus autores estão mais preocupados em defender uma pauta pró-armas do que realmente diminuir a desigualdade entre os gêneros.

Os autores do site também desconhecem sobre a própria esquerda que descrevem. Nem Simone ou seu marido Jean-Paul Sartre são herdeiros do marxismo. Na faculdade, ela estudou o racionalista alemão Gottfried Wilhelm Leibniz, herdeiro de Descartes, e também pesquisou o idealismo francês. Simone de Beauvoir só se tornou de esquerda na militância política, porque fez parte da resistência francesa contra o nazismo, que era composta por socialistas.

Pensadores mais influenciados diretamente por Karl Marx vieram da tradição da crítica econômica e da dialética, temas que são caros para Sartre e Simone, mas que jamais foram foco de seus estudos.

É sim verdade que Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre apoiaram Che Guevara, Fidel Castro, Mao Tse-Tung e até a União Soviética, porque eles eram um casal de filósofos existencialistas alinhados com a esquerda da Segunda Guerra Mundial. Na época, esse pensamento era engajado e buscava se firmar por governos autoritários.

No entanto, essa mesma Simone foi a que combateu o governo francês corrupto de Vichy, que se rendeu à Hitler, e apoiou Sartre na luta pela independência da Argélia, entre outros diversos países. A crítica dos reacionários ao Enem chega a ser infantil de tão pobre, por desconhecimento puro de história mundial.

No entanto, a ignorância é um celeiro de oportunistas. Os religiosos e ultraconservadores políticos Marco Feliciano e Jair Bolsonaro já declararam que o Enem é "doutrinação ideológica do governo Dilma Rousseff". Gritando que pensadores de esquerda apoiaram regimes autoritários, a nossa direita reacionária apela para a ignorância dos estudantes e quer mesmo que a escola funcione como uma censura ao gênero feminino e às minorias dos negros, da comunidade LGBT e de outros segmentos.

A presidente da República se manifestou favorável às novas questões do Enem no fim do domingo (25). "A sociedade brasileira precisa combater a violência contra mulher", disse Dilma através de sua assessoria de comunicação.

Enquanto isso, nossos reacionários permanecem mergulhados numa grave ignorância intelectual, fruto de um antipetismo midiático e falta de visão social. A gritaria contra o feminismo e contra o marxismo revela o machismo e a falta de leitura deles.

Como disse uma amiga minha, no Facebook: "O lema 'machistas não passarão' está sendo literalmente aplicado agora. Quero ver eles escreverem na prova que feminismo é 'falta de rola' e que mulher deve ser estuprada. Merecem ser ridicularizados".

*texto originalmente publicado no Medium

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