OPINIÃO

Quantos Quilos?

07/04/2016 19:02 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
ideabug via Getty Images

Eu estava saindo de casa num dia como outro qualquer quando aconteceu algo me impressionou um pouco. Na verdade, não era um dia tão "qualquer" assim, e nem foi tão pouco assim. Eu estava de muito bom humor, o que para um jovem da minha idade, que trabalha, fica no fio da navalha todo fim de mês e tenta se virar nessa vida, é um dia especial.

Estava indo para agência, pensando nos jobs que teria no dia, quando um velho que vinha subindo o morro (que eu começara a descer) parou abobalhado, me olhou de cima em baixo e soltou a pergunta:

"Quantos quilos?"

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Parei por um segundo sem saber o que fazer. Talvez a primeira vez em muito tempo que eu fiquei sem palavras. Enquanto o velho olhava pra mim, rindo, esperando uma resposta, eu me recompus e continuei meu caminho. O bom humor havia ficado na esquina, no início do morro. Deve estar lá até hoje. De vez em quando passo por ele e me lembro do velho. Não me lembro de ter olhado para trás.

Eu sempre fui gordinho, gordo e atualmente estou gordo para caralho. Talvez a melhor resposta para o velho seria exatamente essa constatação. Só que eu não consegui falar nada, porque talvez, de todas as vezes que escutei algo do tipo, eu nunca tenha me sentido tão mal. Qual foi a diferença dessa situação em particular ter me atingido de forma diferente?

Por que aquele velho sentiu que era ok me parar na rua e sem mais nem menos me perguntar isso?

Eu acho que se ele só falasse que eu tava gordo, ou que eu precisava de emagrecer, eu talvez não sentisse tanto -- o que não seria menos invasivo da parte dele.

Fui para o trabalho pensando em mil coisas que eu podia ter dito.

Que eu podia ter dito que ele estava errado, que não se para uma pessoa na rua e pergunta algo assim. Que ele era só um velho. Que... bem, eu estava gordo mesmo, então eu merecia.

Foi aí que eu engoli de vez a bolota de chumbo que tava na garganta.

Eu tinha sofrido algo comparável ao que todo tipo de minoria sofre todos os dias e que eu, nunca nessa profundidade havia sentido antes. Pensei nas pessoas que sofrem esse tipo de coisa todos os dias, a vida toda. O buraco negro que se cria no seu âmago é insuportável. Suga todo seu humor, toda sua boa vontade e toda sua perspectiva. Questionei como as pessoas conseguem viver com isso.

A culpa é o que mais alimenta o que chamei de buraco negro. Um sentimento comum até, quando acontece esse tipo de coisa. E a pior parte da culpa são as memórias que ela traz.

Lembrei de um barbeiro, lá de Monlevade, Minas Gerais, falando para a moça da locadora que eu estava (vivi metade da minha infância/adolescência em locadora):

- Você acredita que ele parou na frente da barbearia e ficou me olhando? Me olhando?!

- É mesmo?

- É, uma bicha... gorda ainda por cima. Você acredita? Uma bicha, gorda, ficou me olhando na porta da barbearia, parado assim assim, me olhando de cima embaixo.

- ...

- Ele veio, parou assim... veado. Gordo ainda.

Foi nessa hora que ele me viu. Eu cortava cabelo com ele, meu pai e meu irmão também. Fingiu não me conhecer e, olhando pra mim, continuou repetindo com nojo, cada vez mais aparente na sua expressão, "bicha" "gordo ainda, o filho da puta."

Eu peguei a fita que queria alugar, entreguei pra moça, fiz todo o trâmite com ela, enquanto o barbeiro continuava a repetir sua revolta com bichas gordas que o olhavam. Fui embora da locadora lançando um olhar de pena da moça que, deus sabe quanto tempo ainda teria que escutar a ladainha, e me sentindo mal, sem saber direito o porquê.

São dois casos diferentes, mas que me fizeram sentir praticamente a mesma coisa: pior. Fica um gosto ruim na boca, como quando você come algo podre. E me faz, hoje, sentir ainda mais empatia para quem passa por esse tipo de coisa diariamente.

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  • Substantia Jones of The Adipositivity Project
    “Não é nenhum segredo em qualquer lugar que você olhe, a fotografia é uma ferramenta comumente usada para criar vergonha do corpo. Gosto de subverter essa ferramenta e usá-la para desmistificar o corpo gordo.”
  • Substantia Jones of The Adipositivity Project
  • Substantia Jones of The Adipositivity Project
    “Eu vou ter de parafrasear, mas o escritor Junot Diaz disse: ‘Se quiser transformar um ser humano em monstro, negue-lhe qualquer representação de si mesmo em nível cultural.’ Isso é um olhar realmente bom, porque a visibilidade é tão importante. E, infelizmente, ela costuma ser negada pelos meios de comunicação, negada às pessoas gordas pela mídia e pela cultura popular. Então, tento ajudar as pessoas a amar seus corpos.”
  • Substantia Jones of The Adipositivity Project
  • Substantia Jones of The Adipositivity Project
    “Ao descrever o projeto, costumo dizer que ele é parte gordura, parte feminismo e parte foda-se... As pessoas ainda ficam ofendidas com a nudez. Digo que a nudez não é o sexo, o sexo não é pornografia, e pornô não é mau. E acho que um monte de gente não consegue entender isso. Se veem um corpo nu, acham que deve ser sexualizado ou está sendo sexualizado.”
  • Substantia Jones of The Adipositivity Project
    “Comecei a fazer essas fotos e publicá-las no site. Logo percebi que talvez não estivesse falando com o público em geral da forma que eu esperava. Mas estava falando com as pessoas gordas, e imediatamente comecei a ter respostas de gordos do mundo inteiro [me falando] de vergonha do corpo, a vergonha do corpo em um nível que eu nunca tinha experimentado ou sequer percebido que existia.”
  • Substantia Jones of The Adipositivity Project
    “[Ouvi] de uma mulher em particular que me disse que o dia em que ela descobriu o site foi o primeiro dia que ela se lembrava de não ter chorado por causa do próprio corpo. Isso vai ficar comigo para sempre, e continuo a ouvir de pessoas que dizem me essas coisas todos os dias. Então foi aí que eu percebi que estou falando com os próprios sujeitos, e é com eles que tenho de falar.”
  • Substantia Jones of The Adipositivity Project
  • Substantia Jones of The Adipositivity Project
    “A regra é: se você me prometer que é gordo e puder chegar até mim e minha câmera, vou fotografá-lo para o Projeto AdiPositivity.”
  • Substantia Jones of The Adipositivity Project