OPINIÃO

Comodismo faz mal?

20/10/2015 11:10 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

Eu sou um cara institucionalmente preguiçoso. Defendo tanto essa "instituição" que já até escrevi uma ode à preguiça. Essa vontade de que o mundo acabe num morro me permite -- às vezes -- terminar coisas e conseguir pequenas conquistas: A Preguiça de Ocasião. Explico.

Quando mudei para Belo Horizonte meu irmão costumava reclamar sobre a quantidade de tempo que ficava em casa. Resolvi, então, sair um pouco mais, aceitar mais convites e resistir os deleites da vida gótica de janelas fechadas. Em algumas semanas, num almoço de domingo (temperado por uma ressaca de orgulhar meus tios mais beberrões) ouço o seguinte: "Cara, acho que você anda saindo demais, podia maneirar um pouco, você não para mais em casa... "I'm adaptable", diria Selina Kyle.

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Não gosto muito de mudanças. Mas, uma vez que essa porta foi atravessada, detesto, ainda mais, voltar para o ponto que estava antes.

Hoje em dia tem guru de tudo, principalmente Guru de Tomar Conta da Vida de Todo Mundo. Estamos cheio de exemplos, há vários textos que viralizam com títulos como: Não Namore Uma Pessoa Que Viaja, Namore Uma Pessoa Que dê Cambalhotas, Faça como eu: Nasce Numa Família Rica, "Abandone" Tudo e Vá em Busca dos Seus Sonhos, Sucesso Se Consegue Assim...

Esses caras costumam escrutinar o comodismo. Mas, alguém pode realmente culpar outra pessoa por ela lutar (às vezes com unhas e dentes) por uma situação cômoda para ela? Tudo o que nós queremos, no fim das contas, é uma situação assim, confortável, tranquila e sem preocupações a longo prazo. Nadando um pouco contra a corrente dos modernos gurus, eu acredito que isso deveria ser incentivado.

Há de se parar com essa besteira de querer felicidade. Felicidade é o horizonte. Dá para ter momentos incríveis com ele, mas é impossível alcançá-lo e fincar-lhe uma bandeira. Acho que a gente devia lutar e trabalhar (mesmo) para uma vida cômoda.

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Mas assim como uma cerveja pode ser sinal de vida social, bom gosto, e celebração, ela também pode ser sinal alcoolismo, violência doméstica e desperdício. Comodismo ganhou uma conotação ruim e algo a ser combatido, que virou sinônimo de estagnação, inércia e vida jogada fora. O que, na minha opinião é um erro, já que isso é um óbvio caso de gripe.

É comum tratar os sintomas com a crença de estar se combatendo a doença.

Spoiler: assim como o verdadeiro problema no caso do comodismo, gripe não tem cura. O grande culpado a meu ver, é a Satisfação. E da mesma forma que o "sereno" ou "beber gelado" não transmite o vírus H1, ficar na zona de conforto não é estar satisfeito. Por quê? Bem, pelo simples fato de que não há limites, nada é tão confortável que não possa ficar mais.

A diferença entre os dois pode ser entendida usando como exemplo uma fase de um jogo de videogame. Quando eu jogo, por mais difícil que seja a fase ou o desafio, eu vou aprender como chegar ao final com sucesso. É tudo uma questão de vontade, repetição e erros.

Comodismo é passar dessa mesma fase de olhos fechados após um tempo. Satisfação é achar que passando da primeira fase você irá zerar o jogo.

É um pouco a lógica de algo que a internet atribui ao Bill Gates, "eu sempre vou escolher uma pessoa preguiçosa para fazer um trabalho difícil, pois ela sempre irá encontrar a forma mais fácil e rápida de fazê-lo." A medida que o tempo passa pessoas criativas tendem, naturalmente, a fazer as coisas num ritmo mais cadenciado, tranquilo, mas muito mais eficaz e inteligente.

Ou seja, incentive o comodismo, para incentivar a produtividade inteligente.

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