OPINIÃO

Vai, Anitta: O ativismo político por trás de uma popstar

'Vai, Malandra' é uma resposta ao projeto de lei que está em votação na Câmara e criminaliza o funk.

01/09/2017 15:33 -03 | Atualizado 11/09/2017 11:03 -03
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O clipe de 'Vai, Malandra' se passa no Morro do Vidigal, na zona sul do Rio de janeiro.

Quatro meses após o lançamento de Paradinha e Sua cara, Anitta apresenta Vai, Malandra, o primeiro dos cinco singlesque a cantora irá lançar até o final do ano. E um verdadeiro manifesto em prol do funk brasileiro. O ritmo movimenta um mercado de dez mil empregos e arrecada R$ 1 milhão por mês só no Rio de Janeiro, segundo a FGV.

Vai, Malandra é uma resposta ao projeto de lei que está em votação na Câmara e condena o funk como "crime de saúde pública a criança, aos adolescentes e a família". O projeto classifica o funk como uma "falsa cultura" e ainda descreve:

"Os chamados bailes de 'pancadões' são somente um recrutamento organizado nas redes sociais por e para atender criminosos, estupradores e pedófilos a prática de crime contra a criança e o menor adolescentes ao uso, venda e consumo de álcool e drogas, agenciamento, orgia e exploração sexual, estupro e sexo grupal entre crianças e adolescente, pornografia, pedofilia, arruaça, sequestro, roubo."

Nas palavras do antropólogo Edward B. Tylor, cultura é"todo aquele complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e capacidades adquiridos pelo homem como membro da sociedade". E são justamente esses elementos que Anitta utiliza para traduzir o funk como um produto relevante da cultura brasileira, que merece ser valorizado e respeitado.

A cantora tem propriedade para falar do assunto. Foi criada no Morro do Brinquedo em Honório Gurgel, no Rio de Janeiro, e começou a carreira em bailes. "As pessoas não têm ideia de quanto o funk ajuda uma parte da sociedade que não tem oportunidade de nada", revelou no programa Conversa com Bial.

"Um funkeiro que canta em baile de favela gera, no mínimo, sete empregos. (...) Eu não estou dizendo que não existe letra ruim, que fala de usar droga e dar tiro pro alto. Eu não acho isso legal, mas eu estou falando que é preciso entender por que aquelas pessoas estão dizendo aquilo. É preciso ir na raiz do problema e encontrar uma solução para curá-lo", completa Anitta.

O clipe de Vai, Malandra se passa no Morro do Vidigal, na zona sul do Rio de janeiro, e utiliza de vários elementos cuidadosamente selecionados para mostrar para todo o mundo - tendo em vista que a música é cantada em inglês e português - o berço e a cultura funk como eles realmente são.

As locações retratam uma rotina típica dos moradores de comunidades cariocas. Os banhos de sol na laje com direito a piscinas infláveis e biquíni de fita isolante (uma estratégia para conseguir a marca de sol perfeita criada por Érika Bronze); o transporte por meio de motoboys, forma mais rápida e acessível de subir morros tão íngremes; os tradicionais botecos que misturam jogos, música, cerveja e que, de tão pequenos, expandem a festa para a rua toda.

Vai, Malandra também é fruto de um trabalho coletivo com outras personalidades do movimento, como Mc Zaac (do hit Vai embrazando), DJ Yuri, a youtuber Jojo Toddynho, além dos DJs do Tropkillaz e do rapper e produtor americano Maejor, que já trabalhou com Justin Bieber e Tiesto.

Com isso, não só se torna um projeto relevante de quem trabalha (e muito) para o funk acontecer, mas também eleva o nível da produção musical, fortalecendo o ritmo brasileiro na indústria fonográfica mundial - pelas lentes do fotógrafo americano Terry Richardson, que já assinou clipes das cantoras Beyoncé e Miley Cyrus.

A produção de moda do clipe foi patrocinada pela C&A, estrategicamente escolhida para traduzir o conceito de moda acessível e por ser uma das mais desejadas pela classe C, de acordo com pesquisa do Ibope. Entre os looks, roupas curtas e justas que mesclam estampas, cores chamativas, muitos acessórios e unhas postiças com piercings, uma clara representação do estilo que predomina nos bailes funk.

À medida que algumas fotos da produção vazaram na internet, haters iniciaram uma discussão acusando Anitta de apropriação cultural, tendo em vista os penteados (que mesclam tranças e cabelos crespos) utilizados pela cantora no clipe.

Em contraponto às críticas, o youtuber Spartakus Santiago fez a melhor análise da situação:

"Quem quer falar sobre isso, tem que ler um pouco sobre Colorismo e Apropriação Cultural. Antes de tudo: eu não considero Anitta branca. Ela é filha de um pai negro e uma mãe branca, a cor dela é negra clara. (...) O que o Colorismo fala é que as pessoas negras claras não são tratadas da mesma forma que as negras escuras. Elas são percebidas como se fossem menos negras, sofrem menos os efeitos do racismo e são menos vistas como pessoas dessa raça. E Anitta é um claro exemplo disso. Tem gente que acha que por ela ser um pouco mais clara, ela deixa de ter sua herança africana no seu sangue. E esse é o primeiro erro, que já anularia a acusação de apropriação cultural."

Vai Malandra é um manifesto político, um retrato afetivo e embasado do movimento funk porque é narrado por quem veio dali, se projetou dali e tem muita bagagem para falar do assunto. Poderoso, porque foi criado de forma colaborativa, com grandes personagens e artistas dessa cena, valorizando os detalhes e as particularidades culturais de quem faz esse estilo acontecer. E também poderoso por estar sendo lançado em um momento chave: das 50 músicas mais ouvidas no Spotify Brasil, 12 são funk.

Estratégia ou não da nossa marketeira Anitta?

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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