OPINIÃO

Como Pabllo Vittar nos ajuda a entender o comportamento de uma nova geração

Para quem ainda tinha dúvidas se estávamos falando de uma artista de nicho, os números só reforçam a força de Pabllo Vittar no cenário artístico nacional.

07/07/2017 13:18 -03 | Atualizado 07/07/2017 13:26 -03
Divulgação/ Leocadio Rezende
A drag queen Pabllo Vittar ganhou um perfil Billboard, uma das publicações sobre música mais respeitadas dos EUA.

Lançada em 2015, Pabllo Vittar é a drag queen mais ouvida no Spotify e com mais visualizações em clipe original no YouTube. Todo dia - eleito hino do Carnaval 2017 - e K.O somam mais de 78 milhões de views. K.O. também atingiu 17 milhões de streams. Antes, o single mais executado de uma drag queen no Spotify era Sissy That Walk de RuPaul, cantora e apresentadora de um dos seriados mais consolidados da TV americana. Para efeitos de comparação, Sissy That Walk tem 9,6 milhões de views no YouTube e 15 milhões de streams no Spotify.

Na semana de estreia, seu álbum 'Vai passar mal' foi o segundo mais baixado no iTunes. Pabllo tem duas músicas no top 5 do Spotify brasileiro, uma delas é Sua cara, fruto da parceria com Anitta e o trio americano de música eletrônica Major Lazer. Garota propaganda da Avon, Adidas, Apple Music, Chilli Beans e cantora da banda do programa Amor & Sexo da Globo são feitos que complementam sua trajetória.

Para quem ainda tinha dúvidas se estávamos falando de uma artista de nicho, os números só reforçam a força de Pabllo Vittar no cenário artístico nacional. E, analisando a base de seguidores da cantora no Facebook e no Spotify, notamos uma maior concentração dos jovens entre 18 e 24 anos, os quais podemos classificar como geração Z. Identificação ou idealização? Talvez os dois.

Entender Pabllo Vittar é entender o comportamento, os pensamentos e o som dos brasileiros que fazem parte da geração Z.

Nativos digitais

Phabullo, como foi batizada, é maranhense e tem 22 anos. Assim como os outros nascidos nos meados dos anos 90 até 2010, usa a internet como principal plataforma para se conectar, se relacionar e se promover.

Pabllo é um produto da internet tal como Justin Bieber, The Weekend, Luan Santana e Lana Del Rey. Lançado por meio do YouTube, com os vídeos Open bar - versão de Lean On de Major Lazer - e 'Minaj' - inspirado em Partition de Beyoncé - rompe com a lógica de uma indústria que havia se acostumado a fazer decolar artistas no rádio e na televisão.

Autenticidade, transparência e gender neutral: três valores essenciais

Haters gonna hate, mas o que importa é ser livre de rótulos para poder ser o que quiser. Estamos tratando de um grupo bem mais resolvido e aberto em relação à identidade de gênero, vide o exemplo da nossa cantora.

Ao contrário de outras drag queens, a escolha de um nome artístico masculino é uma forma de expressar sua identidade. Pabllo é gay, afeminado, segue uma moda e estilo mais gender neutral no seu dia a dia, quando não está realizando a arte drag. Basta acompanhá-lo em suas redes sociais para conferir.

Inclusão e tolerância em relação às diferenças

Pabllo também nasceu em uma época em que mulheres, negros e LGBTs se orgulham de sua identidade e reivindicam seu próprio protagonismo, com maior abertura para as questões envolvendo sexualidade e diversidade.

Utiliza suas músicas e o alcance nas redes sociais como forma de transmitir mensagens de empoderamento. "As vadias são as pessoas que se empoderam, vão atrás dos seus direitos. Se ser vadia é lutar por uma coisa que você acredita, usar a roupa que você quer porque você quer, ser do jeito que você quer ser porque você nasceu assim, então eu sou vadia. Sou vadia todo dia!", completa a cantora em entrevista para o portal Lado Bi.

Fazer > falar

Estamos falando de um grupo extremamente crítico e atento, que assume, lidera e dá forma para diversas causas. De pessoas que acompanham e cobram que discursos realmente se transformem em ação. Não vale ficar em cima do muro. Não vale se aproveitar de tendências e movimentos para se aproximar do consumidor. Se você levanta uma causa, contribua efetivamente para fazer a diferença.

Pabllo não só fala, mas faz muito para empoderar o movimento LGBT e combater o preconceito. Participa de encontros militantes, utiliza seus shows e redes sociais como espaço de conscientização e acolhimento.

"Através da minha música, eles conseguiram se aceitar, são mais felizes com a família e correm atrás de sonhos que tinham deixado para trás", diz sobre como tem transformado a vida de muitos jovens, em entrevista para a Revista Quem. Um bom exemplo é o caso do piauiense de 24 anos, Abraão Vasconcelos, que decidiu finalmente lançar o clipe de sua música Hotline Queen após conversar com a cantora.

Globais sim, porém patriotas e defensores da própria cultura

A internet transformou os jovens de 18 a 24 anos em filhos do mundo e também permitiu que as suas raízes e tradições ganhassem o mundo. Diferentemente dos Millennials, é mais recorrente entre a geração Z uma maior valorização das identidades, origens e particularidades regionais, como forma de exaltar quem realmente são.

Pabllo vem do Nordeste e traz em sua música diversas influências que vão de tecnobrega, arrocha e forró, até pop, eletrônico e samba. Junto com nomes como Jaloo, Liniker, Rico Dalasam, Lia Clark e MC Linn da Quebrada, revela uma música brasileira cada vez mais diversa, autoral e inclusiva.

Todas as mudanças que temos vivenciado, e das quais Pabllo é um dos expoentes de maior visibilidade, contribuíram e têm contribuído para moldar o comportamento das próximas gerações. Os jovens de 18 a 24 anos estão aí. Cabe saber quais marcas conseguirão se conectar com eles de forma relevante, genuína e próxima.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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