OPINIÃO

Uma mulher na Arábia Saudita (usando hijab, claro)

07/03/2014 18:30 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

Um dos países mais ricos do Oriente Médio devido à exploração do petróleo, a Arábia Saudita é regida pela doutrina islâmica, mais precisamente pelas leis ultraconservadoras do regime do Wahabismo. Nele, é exaltada a segregação de gêneros em espaços públicos, que predomina em todo o território nacional. A constituição oficial do país e a fonte do direito civil é o Alcorão que torna a região uma monarquia absolutista teocrática, a única do mundo a transformar um texto religioso em político. As mulheres sauditas são reféns das vontades de seus familiares homens e são incentivadas a se concentrar em casar e ter filhos.

No sul do país, cidade de Jazan, é onde nasceu e vive até hoje Aeshah Ali Awadh, de 25 anos. Formada em biologia pela universidade local, realiza trabalhos sociais no Hospital Geral da região. Solteira, mora com sua família que possui uma boa condição financeira capaz de pagar seus estudos em Vancouver, no Canadá, por um ano e meio. Durante a entrevista, Aeshah alterou declarações conservadoras vinda de uma criação sob o olhar das tradições religiosas do Islã e argumentos de uma nova geração de mulheres árabes que surge no Oriente Médio em busca de mais direitos e igualdade.

A sociedade saudita está repleta de privações de direitos básicos para as mulheres. As inúmeras restrições para as muçulmanas vão desde a obrigação do uso do véu ao sair de casa até não poder viajar, trabalhar, estudar e até se casar ao menos que tenha a permissão dos homens de sua família. Nas universidades destinadas para as mulheres, a variedade de cursos é extremamente limitada às áreas historicamente tradicionais como enfermagem e pedagogia.

mulher arabia saudita

Aeshah durante sua viagem à Vancouver vestindo o hijab

Alhijab

"Vestindo o hijab eu me sinto como uma rainha que não exibe a sua beleza para o público a não ser que seja para homens de sua família ou seu marido".

Todas as mulheres do país são obrigadas a vestir o hijab quando não estão em casa. O pano que cobre quase toda a cabeça, representa o código de vestimenta muçulmano baseado na intenção de preservar a dignidade das mulheres e recusar que elas sejam desejadas ou possuídas por estranhos. O olhar de Aeshah romantiza a utilização do manto islã embasado nas questões religiosas e também na condição de vida que leva, muito diferente da maioria das outras sauditas. Na perspectiva estrangeira, o véu é visto como uma ferramenta para isolar e silenciar as muçulmanas da vida pública.

"Existem algumas mulheres muçulmanas em diferentes países árabes que não concordam com usar o véu, mas, isso é problema delas com o nosso Deus. Eu não digo que elas estejam certas ou erradas mas se elas não forem seguir as regras do Islã, o jeito do Islã é muito claro com elas".

Existem diversos graus de conservadorismo do véu. No Afeganistão e no Paquistão por exemplo, são usadas as conhecidas burcas. A foto acima foi tirada durante a viagem de Aeshah ao Canadá e somente por isso ela veste um hijab menos conservador, como apenas um cachecol enrolado na cabeça. Quando viajam, a utilização da vestimenta completa é opcional para as sauditas. Caso estivesse em seu país, ela estaria vestindo o véu de tecido preto tradicional. Atualmente, além da Arábia Saudita, a vestimenta é obrigatória somente no Irã e na província de Achém, na Indonésia.

Direito à dirigir

"Para que as mulheres pudessem começar a dirigir e houvesse uma aceitação, eu acho que toda a sociedade saudita precisaria ter mais cultura e ser mais educada. Sem poder dirigir, a locomoção e a vida das mulheres se torna bem mais difícil".

Outra questão bastante polêmica que gera revoltas no país e no cenário internacional é a lei que impede as mulheres sauditas de possuírem uma carteira de motorista e consequentemente de conduzir. Ainda hoje, a Arábia Saudita permanece como o único país do mundo em que não é permitido que mulheres dirijam. Além disso, segue como uma das poucas nações que não aceitam a Declaração Internacional dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU).

No dia 26 de outubro de 2011, 15 sauditas foram às ruas dirigindo para reivindicar o direito de conduzir no país. Condenadas e presas, foram liberadas apenas dias depois sob pagamento de fiança.

Futuro

"Agora o governo saudita esta realmente preocupado com o direito das mulheres. Eu acho que passo a passo nós iremos conseguir cada vez mais direitos iguais aos homes. Eu me sinto muito sortuda por ser saudita e ser muçulmana".

Apesar da vida com restrições e desigualdade, Aeshah Ali Awadh é otimista e vê um futuro mais igual entre homens e mulheres. O rei Abdullah, líder do Reino da Arábia Saudita, já realizou ações que reduziram a segregação de gêneros no país. A mais importante delas foi o anúncio de que a partir de 2015 as sauditas poderão se candidatar e votar nas eleições locais para o conselho que supervisiona o legislativo das regiões. A decisão deve ser considerada como um grande passo já que aumentará substancialmente a participação política feminina que poderá contar com alguém para defender os interesses das mulheres no país.

A preocupação do líder local com o direito das mulheres, contrariando os extremistas religiosos locais, já é um bom sinal para o avanço dos direitos humanos na região. No Dia Internacional da Mulher fica a esperança de uma Arábia Saudita com mais igualdade entre gêneros mas a consciência de que ainda há muito para ser feito.