OPINIÃO

Segurança na Venezuela: um espaço para o diálogo?

06/02/2014 09:52 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

Um venezuelano me contou que, após pegar um avião até a Amazônia venezuelana, andar horas de barco e chegar em uma aldeia yanomami bastante isolada, notou que a tribo vivia completamente dividida em dois grupos: chavistas e de oposição.

Essa história, real, ajuda a ilustrar o nível de polarização em que vive o país. Uma polarização que, ao contrário do que poderia se imaginar, não gerou uma desilusão completa com relação à importância da atividade política. Uma pesquisa feita com jovens de 15 a 29 anos mostra que apenas 5% dos jovens venezuelanos não acham que o seu voto para presidente seja importante ou ajude a mudar a Venezuela.

Neste contexto de polarização em uma sociedade extremamente politizada, é difícil imaginar que haja espaços possíveis para diálogos. Mas acontecimentos recentes podem mudar esta perspectiva.

O tema da violência é um tema central de preocupação para os venezuelanos atualmente. Chavistas ou de oposição. O tema ganhou nova importância política no início deste ano, quando a ex-miss Venezuela, Monica Spears, uma personalidade importante no país, foi assassinada.

O Presidente Maduro, em um gesto inédito, convocou prefeitos e governadores -- inclusive de oposição -- para um grande diálogo sobre segurança pública. A foto do aperto de mão entre Maduro e seu opositor Henrique Capriles nas eleições de 2013 teve, internamente, efeito próximo ao da imagem do cumprimento entre Obama e Raul Castro no funeral de Mandela.

Há notícias de um início de cooperação concreta entre ministros chavistas e governadores de oposição. Isso é realmente um elemento novo e positivo na política venezuelana.

A grande incógnita é qual será o conteúdo deste pacto que se anuncia entre governo e oposição. O Brasil teve péssimas experiências de produzir legislação de pânico após mortes violentas de celebridades. Os atos acalmam as massas amedrontadas e raivosas, mas não produzem mais segurança. Ao contrário, costumam produzir um aumento irracional da população carcerária que só faz fortalecer, a médio prazo, o crime organizado.

O risco de uma política de "mano dura" que aumente a presença militar na segurança, aumente a repressão nas ruas, e intensifique um processo de superlotar presídios com pessoas que praticaram pequenos delitos e que não são responsáveis pela violência é enorme.

Estas políticas foram testadas em vários países da América Latina e resultaram em fracassos retumbantes.

Há um caminho possível para um pacto que produza políticas de segurança pública eficientes na Venezuelana. A implementação da recente lei de desarmamento (que aumenta o controle sobre as armas, promove a marcação de munições, entre outras medidas), o avanço da reforma policial que o governo discutiu amplamente com a sociedade, o investimento na melhora das investigações e a coordenação dos diversos níveis de governo são passos óbvios, mas que trariam resultados positivos para a preocupante situação da violência no país.

A escolha sobre qual caminho seguir depende dos políticos. Mas depende também da sociedade civil venezuelana. Talvez fosse o momento de, inspirados no gesto entre seus líderes, movimentos e especialistas chavistas e de oposição sentarem à mesma mesa para produzir um programa da sociedade venezuelana para lidar com a segurança pública. O país só tem a ganhar.