OPINIÃO

O status de cartão-postal não reflete a realidade diária do Rio de Janeiro

25/05/2015 17:52 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02
theverb.org/Flickr
Photo Credit: Speak Your Mind // Sam Bowstead As the slope increases, so does the informality of the Favela.

O saldo da violência na última semana, no Rio de Janeiro, deixou até mesmo os mais apaixonados pela cidade assustados. Chegamos ao domingo com nove pessoas vítimas de assaltos com facas em diferentes bairros, da Zona Norte à Zona Sul, passando por pontos turísticos, como a Lagoa Rodrigo de Freitas e a Praça Paris, na Glória, próximo ao Aterro do Flamengo. O caso mais grave foi registrado na Lagoa, com a morte do médico Jaime Gold, de 57 anos. A estatística semanal também inclui dois jovens mortos no morro do Dendê, na Ilha do Governador, durante uma operação policial. Na semana anterior, 12 pessoas já haviam morrido vítimas de arbitrariedades de policiais e também de confrontos entre os agentes e traficantes no morro de São Carlos, no Estácio. Em sinal de protesto pela violência crescente nas favelas, moradores de São Carlos atearam fogo em dois ônibus nas ruas do Centro.

Quando eu cheguei ao Rio para estudar e trabalhar, no final de 2010, a cidade começara a experimentar a boa sensação de segurança - porém mentirosa - proporcionada pelo projeto da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), inaugurado dois anos antes na favela Santa Marta, na Zona Sul. O momento era de visibilidade internacional e enaltecimento da Cidade Maravilhosa. A especulação imobiliária colocou o Rio no mesmo patamar de grandes metrópoles mundiais. Aluguéis comerciais em Ipanema, por exemplo, alcançaram valores superiores aos praticados em Nova Iorque e Paris. Já um conjugado de 25 metros quadrados valendo R$2 mil por mês era considerado um achado por quem buscava um canto para morar perto do trabalho. Até o tradicional pão na chapa com cafezinho fora de casa começou a pesar no orçamento.

No quesito segurança, se por um lado sair às ruas e retornar para casa ileso é, cada vez mais, motivo de comemoração e alívio, por outro denuncia a vulnerabilidade na qual todos se encontram, em todas as partes da cidade. Há cerca de um mês, estive no Complexo da Maré para uma reportagem. A região está ocupada pelas Forças Armadas desde o ano passado para a instalação de uma UPP. Mesmo com a presença dos militares a uma distância de 100 metros, não foi difícil esbarrar com traficantes fortemente armados em becos do conjunto de favelas, com crianças brincando e convivendo normalmente ao redor.

Na favela Santa Marta, em Botafogo - considerada pelo governo como exemplo de sucesso da política de aproximação entre polícia e comunidade - colegas jornalistas foram expulsos, recentemente, por bandidos que jamais deixaram a região. É possível explicar a manutenção de uma política que nasceu para resolver um problema o qual ela não consegue combater? Enquanto isso, já faz quase 10 anos que o dinheiro público financia essa guerra que cria uma falsa realidade de segurança, além de levar opressão e medo aos moradores das favelas cariocas, em vez de educação, cultura e qualidade de vida.

O secretário de Estado de segurança, José Mariano Beltrame, afirmou, na semana passada, que um lugar como a Lagoa Rodrigo de Freitas não pode de maneira nenhuma ser alvo desse tipo de atitude, se referindo à morte do médico Jaime Gold, de 57 anos, assaltado e esfaqueado por um menor de idade, na última terça-feira. Segundo Beltrame, a Lagoa "é um lugar onde nós frequentamos, onde nós gostamos de ir, de frequentar. Não podemos admitir que ações dessa natureza aconteçam".

Até quando será admissível que o governo não olhe para todos os bairros e favelas do Rio de maneira isonômica, pensando em um planejamento de cidade inclusiva e com bem-estar social para todos? Até quando uma vida será medida pelo valor de um IPTU? E até quando a população irá desprezar a urgência do engajamento na luta por uma cidade mais justa? A displicência das políticas públicas que integram a sociedade e a indignação seletiva diante de acontecimentos trágicos atingem todo o país, mas encontram no Rio de Janeiro exemplos acentuados e caóticos.

É comum ouvir de quem escolheu o Rio para viver o discurso de que o pé na areia, a paisagem deslumbrante, o estilo de vida informal do carioca e o pôr do sol visto do Arpoador compensam todas as mazelas que assolam moradores e turistas. O status de cartão-postal sempre permitiu ao Rio de Janeiro ser uma cidade perniciosa e desfrutar de uma complacência pela falta de zelo com os seus cidadãos, pelo sistema de transporte precário, pela falta de limpeza e conservação dos espaços públicos e históricos, pelos preços surreais e pela banalização da vida no asfalto e na favela. Há muito tempo, a realidade carioca já não corresponde às letras cantadas por Tom e Vinícius, às crônicas escritas por Clarice e nem à exuberância evidenciada nas fotografias.

O fator social da criminalidade

Também na última semana, o prefeito do Rio, Eduardo Paes, fez questão de ressaltar que "criança, menor, praticando crime é um problema de polícia, não é um problema social". Pois bem, vamos analisar, então, alguns números: cerca de 1,9 mil jovens cumprem, hoje, medidas socioeducativas no Departamento Geral de Ações Socioeducativas do Rio (Degase). Desses, 41% foram detidos por envolvimento com o tráfico de drogas, 27% por roubo e 13% por furto. Apenas 1,24% foi detido por participação em homicídios. Entre os internos, 95% têm o ensino fundamental incompleto e mais de 80% apresentam uma defasagem entre a idade e o ano escolar adequado.

A história desses adolescentes não justifica o fato de eles matarem uma pessoa. No entanto, a história deles mostra que o problema da violência vem da base e da inacessibilidade às estruturas básicas de cidadania. Bradar pela maioridade penal sem aprofundar a discussão sobre a origem da criminalidade empurra para o limbo político a restruturação social da qual o país necessita.

Em reportagem publicada nesse domingo pelo jornal O Globo, a professora Isabella Souza, do Instituto de Psiquiatria da UFRJ, explicou que esses jovens crescem abandonados pelos pais, que têm muito pouca projeção de melhora e, muitas vezes, sofrem abuso sexual: "Com o tempo, eles passam a ter pouco apreço pela vida deles. E, por isso, não valorizam a vida alheia também. Vão crescendo com raiva pelo abandono, com ódio pelo outro, pelo grupo ao qual eles não pertencem".

Já a psicóloga Andreia Calçada diz que eles têm dificuldade de se colocar no lugar do outro, de se identificar com a dor alheia: "É um raciocínio 'eu não sou valorizado, dane-se o outro'. Se eu sofro violência, por que o outro não pode sentir?". O psiquiatra Fábio Nascimento Silva completa: "se ele cresceu num ambiente onde é com a violência que se consegue as coisas, o jovem vai ser violento. Esfaquear alguém é um desvio de comportamento para quem mora no asfalto, mas para quem convive com a agressividade será que é também? É uma questão de valores diferentes dos nossos".