OPINIÃO

O linchamento seletivo contra o Catraca Livre e futuro do jornalismo

02/12/2016 13:57 -02 | Atualizado 02/12/2016 13:57 -02
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"A gente não pode ser hipócrita em deixar de lado o fato de que o jornalismo depende de audiência, pois a audiência, consequentemente, será o seu produto para você vender para os anunciantes e, automaticamente, o seu programa ser sustentável (...). Então, eu acho que, às vezes, olhar para as televisões e falar assim: 'vocês são muito sensacionalistas' ou 'programa tal é sensacionalista' ou 'programa tal vive muito de imagem', eu concordo por um lado, acho que nunca podemos deixar de lado a responsabilidade que temos de formar opiniões (...). Mas, por outro lado, a gente tem que olhar também que isso é um reflexo da nossa sociedade. A partir do momento que aquilo está dando audiência é porque, muitas vezes, as pessoas e a sociedade que, hoje, a gente tem, composta da forma que a gente tem, querem aquilo ou, pelo menos, dão mais audiência com aquilo."

A opinião declarada acima é de um diretor de jornalismo de uma grande emissora brasileira de televisão. Há exatamente dois anos, percorri algumas redações para entrevistar nomes do jornalismo brasileiro, com o objetivo de compor uma pesquisa que fazia na época sobre o futuro da comunicação audiovisual. E, certa vez, durante uma dessas conversas, acabei entrando na polêmica sobre a produção do conteúdo jornalístico e seus reais objetivos.

Tal declaração não saiu da minha cabeça ao acompanhar, ao longo de todo o dia de ontem, as acusações ferozes contra o site Catraca Livre e sua insensibilidade em pegar carona em uma tragédia, como a do acidente aéreo que matou 71 pessoas em Medellín, incluindo atletas do time Chapecoense e jornalistas, para divulgar conteúdos relacionados: "Medo de voar? Saiba como lidar com isso!" ou "Passageiros que filmam pânico em avião", esta última acompanhada por uma selfie tirada pelos jogadores da Chapecoense pouco antes da decolagem.

É importante ressaltar que o Catraca Livre surgiu há poucos anos com uma proposta diferente de se fazer jornalismo e com uma linha editorial muito bem definida e claramente explícita. Meteoricamente, o Catraca se posicionou como um dos sites mais acessados na internet, com mais de oito milhões de seguidores nas redes sociais, ganhador de prêmios e como um dos sites mais caros para Branded Content - conteúdos informativos patrocinados por marcas.

Pasmem! É assim que o virtuoso mercado funciona

Está claro que o site errou ao disseminar conteúdos relacionados a mortes em aviões sob o respaldo do compromisso com a informação. Mais que isso, errou ao insistir na divulgação dos conteúdos, apesar das críticas negativas iniciais.

Um dos julgamentos contra o site dizia o seguinte:

"Não erraram. Errar é quando você quer fazer uma coisa e faz outra sem querer. Eles optaram por essa abordagem porque atrai cliques no site, que geram dinheiro e inflam o media kit. Tanto que só começaram a abaixar a cabeça depois de perderem centenas de milhares de fãs e de os patrocinadores os abandonarem".

Ninguém perdoou e, rapidamente, a internet foi tomada por uma revolta coletiva, motivada pelo absurdo que é a "busca a todo custo por cliques". Parece que, por um dia, o público, incluindo jornalistas, resolveu insurgir contra uma lógica de mercado predominante desde a era de ouro do rádio e que ganhou na internet um terreno fértil e, ao mesmo tempo, minado.

Para pensar um pouco mais sobre o assunto, sugiro o documentário "Quem matou Eloá?", da diretora Lívia Perez, e que traz uma reflexão em torno do papel da cobertura midiática no caso da jovem Eloá Pimental, de 15 anos, sequestrada pelo ex-namorado, em Santo André, na Grande São Paulo, em 2009. Em uma das coberturas da época, o sequestrador chegou a conceder uma entrevista ao vivo a um programa de TV durante o sequestro. Parece surreal? E é!

Linha editorial: como usá-la?

Em meados da década de 90, o sociólogo Pierre Bourdieu já apontava sua crítica para um jornalismo que rotineiramente dava ênfase a assuntos anedóticos, que impactavam pelo seu teor incomum, pela imagem curiosa, sensacionalista, mas que não representavam nenhum valor ou importância social e política. Assuntos esses que se esgotavam em si mesmos e, desse modo, não seguiam critérios de relevância e serviam, primordialmente, para prender a atenção do público, baseando-se exclusivamente nos índices de audiência.

Seria o público, portanto, causador e motivador do tipo de cobertura feito pela imprensa - segundo o diretor de jornalismo citado acima - ou vítima de veículos que, historicamente, condicionaram o público a consumir, e a pedir mais, determinadas linhas editoriais em prol de seus objetivos de negócio - conforme a crítica de Bourdieu em seu livro Sobre a televisão?

Assim, a busca por audiência, ou cliques, não é objetivo exclusivo do Catraca Livre. A discussão central é como o veículo define e utiliza a sua linha editorial para atender a seus objetivos comerciais ou ideológicos. Erros editoriais, alguns mais ou menos graves, acontecem com todos os veículos. Aliás, sempre aconteceram ao longo da história. Debatê-los e criticá-los não é somente um direito, mas também um exercício necessário numa democracia. Apenas dessa forma, vamos conseguir construir um jornalismo cada vez mais responsável.

Jornalistas contra si mesmos

O jornalista Gilberto Dimenstein, responsável pelo Catraca Livre, fez um pedido público de desculpas:

"Ninguém participou da decisão, exceto eu. Ganhei muitos prêmios como escritor e jornalista - e aprendi que pior do que errar é não reconhecer o erro. Aliás, toda a redação foi contra e, numa conversa franca, expuseram suas discordâncias. Aprendi que errar é uma fonte de aprendizado enorme. Portanto, peço desculpas se as reportagens feriram as pessoas. E se tiverem que culpar alguém, apontem apenas para mim. Espero, assim, ser melhor do que fui".

Mesmo assim, as críticas não cessaram. E, espantosamente, muitos profissionais de comunicação também resolveram aderir ao boicote ao Catraca Livre. Uma classe, historicamente desunida, parece não perceber que não precisamos afundar mais um veículo por um erro reconhecido e explicado. Ou o senso de justiça do bom jornalismo aflorou definitivamente e vamos também perseguir os demais veículos que cometem erros editoriais tão graves ou piores, diariamente?

É importante dizer que as argumentações postas aqui não pretendem, como afirma Bourdieu, condenar nem combater os jornalistas, mas, sim, associá-los a uma reflexão destinada a buscar meios de superar em comum as ameaças de tal instrumentalização.

Por trás de um site, de um jornal, de uma TV ou de uma rádio estão profissionais como você, como seu filho ou amigo, que enfrentam pressões de todos os lados, sujeitos a uma série de incômodos, e que não necessariamente agem de maneira mal-intencionada. Num passado não muito distante, talvez eu tivesse a mesma reação agressiva, pouco reflexiva e analítica em relação ao caso Catraca. Até que, nos últimos anos, passei por dois grandes veículos da imprensa. E só quando se é uma peça do jogo é que se entendem as regras.

Ao contrário do que dizem, não acho que o jornalismo morreu. Mas ele terá que se adaptar, o mais rápido possível, ao novo contexto da sociedade hiperconectada. Sairá na frente aquele veículo que tiver a ousadia de quebrar os paradigmas impostos pelos manuais, assim como pelas influências e rotinas do trabalho diário, e conseguir atuar de maneira mais orgânica, mais representativa e informativa com o público. Essa deve ser a nossa luta. Logo, o tão buscado like, caro leitor, virá como consequência. Por enquanto, eu sigo acreditando.

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