OPINIÃO

No fantástico mundo da Cidade Olímpica, bloco de carnaval é repreendido

05/01/2016 11:32 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
Reprodução/Facebook

Não é a primeira vez que abordo neste espaço o fato de o status de cartão-postal não refletir a realidade diária do Rio de Janeiro. Amor e ódio, complacência e revolta são sentimentos que oscilam cotidianamente na cabeça de quem acompanha e vive os acontecimentos sociais e políticos de uma cidade que promete inclusão e liberdade, mas entrega tiro, bomba e repressão.

E o primeiro domingo do ano, na cidade olímpica, terminou com cenas difíceis de entender: guardas municipais com bombas, cassetetes e escudos de proteção lutando contra foliões, alguns fantasiados, portando instrumentos musicais perigosíssimos, seguindo em bando, dançando, cantando e confraternizando. De fato, um comportamento ofensivo para um governo municipal que não tolera manifestações culturais espontâneas e questionadoras, principalmente quando não existem ganhos políticos envolvidos.

Vale lembrar que, há alguns meses, a terceira edição da Roda Cultural Catete, Glória e Lapa foi censurada pela Guarda Municipal e pela Polícia Militar, apesar de a organização possuir todas as autorizações dos órgãos públicos que garantiam a realização do evento no bairro da Glória.

Um dos representantes da Roda Cultural ao ser obrigado a interromper a roda de rima e a seguir para a 9ª DP, delegacia do bairro Catete, declarou:

"Fazemos ocupação de espaço público e levamos a cultura hip hop para rua, para todos, de graça, sem cobrar ingressos e dentro da lei, amparados por lei e decreto. Gostaríamos de saber do poder público onde estamos errados"

Contra a farra, bomba!

Durante as festas de fim de ano, passearam pelas ruas do Rio mais de 800 mil turistas - desses, 30% estrangeiros -, de acordo com números prévios da RioTur (Empresa de Turismo do Município do Rio de Janeiro). Sol, praia, visita ao Corcovado e - por que não? - Carnaval.

Já é tradição: os festejos do Carnaval de rua carioca começam um mês antes do início oficial da festa. São dezenas de blocos que, com os seus cortejos, transformam as ruas do Rio em um ambiente irreverente, democrático e pacífico. Um clima único e mágico. Não à toa, o Carnaval de rua carioca é um dos mais cobiçados por turistas de todo o país.

Segundo o jornalista Gabriel Barreira, do G1, "o clima hostil, que começara desde o momento em que os agentes iniciaram o acompanhamento do desfile, tomou corpo na chegada à Câmara dos Vereadores. Guardas municipais hostilizavam quem filmasse o desentendimento, inclusive a reportagem do G1. Em redes sociais, os organizadores do bloco criticavam o 'autoritarismo municipal'. A Guarda Municipal usou bombas de efeito moral contra o grupo após discussões entre os agentes e os foliões".

2016-01-05-1451958985-5274078-giphy.gif

Ainda segundo a reportagem do G1, a Guarda Municipal informou que atuou no balizamento de trânsito e na realização de bloqueios em função do bloco que desfilava sem autorização. "Ao fazer retenções de ambulantes não autorizados que comercializavam produtos irregulares no local", os agentes foram atacados com garrafas atiradas pelos manifestantes.

E, assim, iniciamos 2016, o ano Olímpico, com jovens, crianças e adultos - foliões - sendo tratados como indesejados manifestantes. Nas redes sociais, houve relatos de pessoas que ficaram feridas durante a ação da Guarda Municipal:

"Lamentável saber que um pai de família em pleno domingo, numa praça pública, tenha que ser levado para o hospital para tomar dois pontos na cabeça por conta de uma bomba de gás e ter sua mão engessada por ter tomado uma pancada de cassetete de uma guarda municipal despreparada para entender que uma festa espontânea feita pelo povo não era para terminar sob pancadaria. Espero que todos entendam a gravidade do ocorrido. Precisamos que o poder público entenda que o cidadão não produz riqueza para receber pão e porrada"

As propagandas na TV e nos jornais, além dos discursos inflamados sobre uma cidade cada vez mais integrada, fazem parte apenas do conto de fadas criado por Eduardo Paes e sua trupe. O que se vê diariamente nas ruas do Rio revela a falta de zelo com os cidadãos e a banalização da vida no asfalto e na favela. Nas Olimpíadas da vida real, vencer as inúmeras provas às quais somos submetidos em cada esquina não transforma o carioca num atleta, mas, sim, num sobrevivente.

Contra a repressão, que a resposta venha com mais música, com mais ocupação do espaço público, seja para fazer farra e brincar a folia ou para bradar contra as arbitrariedades dos governos municipal e estadual. No mais, temos apenas uma certeza: no que depender das mais variadas formas de manifestação cultural e política, o último ano de mandato de Eduardo Paes não será nada fácil.

VEJA MAIS SOBRE RIO DE JANEIRO NO HUFFPOST BRASIL:

Violência no Complexo do Alemão

SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS: