OPINIÃO

Irmãos Batista: Empreendedores e corruptores

Não se enganem: a JBS aumentou em mais de 40 vezes o seu faturamento em 10 anos, chegando a R$ 170 bilhões.

19/05/2017 20:11 -03 | Atualizado 19/05/2017 20:34 -03
Brazil Photo Press/CON via Getty Images
A JBS aumentou em mais de 40 vezes o seu faturamento em 10 anos, chegando a R$ 170 bilhões.

Erramos e pedimos desculpas. (...) Nosso espírito empreendedor e a imensa vontade de realizar, quando deparados com um sistema brasileiro que muitas vezes cria dificuldades para vender facilidades nos levaram a optar por pagamentos indevidos a agentes públicos. (...) Enfrentaremos esse difícil momento com humildade e o superaremos acordando cedo e trabalhando muito.

O dono do grupo JBS, Joesley Batista, divulgou uma carta, na noite desta quinta-feira (18), pedindo desculpas aos brasileiros e admitindo o pagamento de propina a políticos. Tudo em nome do empreendedorismo e da vontade de realizar.

O trecho destacado acima merece atenção pois Joesley se coloca no grupo de empresários corruptores (que precisam oferecer propina para que seus negócios prosperem) vítimas de agentes públicos corruptos (que aceitam a propina em troca de vantagens). Como se o único caminho para se empreender, consolidar e fortalecer uma empresa no Brasil fosse ceder – quase que obrigatoriamente – às garras de políticos gananciosos.

Ora, ambientes propícios à corrupção existem em diferentes âmbitos da vida cotidiana, pessoal e profissional. O que faz que uma pessoa se deixe "levar" – ou se torne uma corruptora ou corrupta – é a vantagem que receberá em troca. Financiamento de campanha, por exemplo, nada mais é do que a oferta de uma vantagem a um partido político em troca de favores futuros.

Não se enganem. A JBS aumentou em mais de 40 vezes o seu faturamento em 10 anos, chegando a R$ 170 bilhões. Os irmãos Batista tinham consciência de que não alcançariam tamanha proeza, em tão pouco tempo, somente "acordando cedo e trabalhando muito". Eles tinham um objetivo. E sabiam que para alcançá-lo precisariam se apropriar do Estado. Assim o fizeram, sem hesitar, com conhecimento e maestria.

Há poucos meses, outro Batista conhecido, o Eike, seguiu a mesma linha ao ter a prisão decretada: um discurso entre o vitimismo e o arrependimento. Eike também se posicionou como um entusiasta da Lava Jato, dizendo que o Brasil seria diferente a partir de agora, com empresas se submetendo a processos transparentes. Ganhou crônicas, selfies, hashtags, textos emocionados e a complacência de muitos brasileiros. Mas os danos econômicos e sociais causados ao País, principalmente ao Rio de Janeiro, permanecerão.

Não tem saída: mercado e política flertam e trocam favores aqui e em qualquer outro país, de forma institucionalizada ou não. Portanto, não há vítimas. E, em qualquer parte do mundo, o combate à corrupção, em todos os níveis e setores, só é alcançado com melhores e inabaláveis mecanismos de controle.

Por isso, aproveitemos que ainda nos resta a democracia e brademos não por um ou outro político, por um ou outro partido, mas sim por um sistema reformado, isonômico e com representatividade popular. E desconfiemos dos "empreendedores" vaidosos e megalomaníacos.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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