OPINIÃO

Eike Batista: O mártir do capitalismo corrupto

Não podemos negar, Eike Batista era um homem com fortes convicções. Vangloriava a si mesmo.

02/02/2017 19:57 -02 | Atualizado 03/02/2017 12:23 -02
Ricardo Moraes / Reuters
Eike Batista faz o sinal de "x" em uma apresentação de uma de suas empresas no Brasil

Mártir significa uma pessoa que foi submetida a sacrifícios por um ideal, que se sacrificou em nome de suas convicções.

Não podemos negar, Eike Batista era um homem com fortes convicções. Vangloriava a si mesmo. Sua meta era chegar ao topo da lista da Forbes entre os anos de 2015 e 2016. Almejava, com isso, carregar o Brasil consigo. Um visionário, desenvolvimentista. Ou um megalomaníaco, vaidoso, ostentador. Ou todos os adjetivos juntos.

Desde o fim da semana passada, o país acompanha a sua saga com a justiça, com direito a crônicas, selfies, hashtags, textos emocionados sobre aquele que já foi o maior empresário brasileiro e inspiração para uma legião de empreendedores. Em meio a essa novela, aflorou, mais uma vez, o lado "complacente seletivo" de parte da sociedade brasileira.

Eike virou um mártir!

Em outras palavras, o empresário sempre convicto e altivo se transformou em vítima de um Estado corrupto e ineficiente. Sem ter para onde fugir, precisou se submeter às garras de políticos gananciosos para atingir o seu ideal de um país mais rico e desenvolvido.

Parece que as pessoas descobriram, enfim, que o capitalismo é um sistema altamente corruptível - no Brasil ou em qualquer outro país do mundo -, mas está tudo bem. O real problema está no Estado que condena seus grandes empresários a tortuosos esquemas de propinas, como se para essas empresas não fosse conveniente a relação escusa de troca de favores.

O vitimismo bem aplicado

Ao dizer, em entrevista à TV Globo, que é um entusiasta da Lava Jato, que contribuiu para o país e que o Brasil será diferente a partir de agora, com empresas se submetendo a processos transparentes, Eike toca afetivamente no desejo popular e cria uma relação de proximidade e igualdade com a população.

Assim, deixa desaparecer o fato de que ele também motivou e se beneficiou de suas relações corruptas. Só assim ele conseguiria ostentar, de maneira meteórica, sua colocação como um dos homens mais ricos do mundo.

Peço licença ao professor Jessé Souza, doutor em sociologia pela Universidade de Heidelberg, na Alemanha, e autor do livro A tolice da inteligência brasileira, para citar alguns trechos de sua obra:

"Qual é a ideia-força que domina a vida política brasileira contemporânea? Minha tese é a de que essa ideia-força é uma espécie muito peculiar de percepção da relação entre mercado, Estado e sociedade, onde o Estado é visto, a priori, como incompetente e inconfiável e o mercado como local da racionalidade e da virtude."

"Mas o 'toque de Midas' dessa ideologia, que explicará sua adesão popular, é a associação, efetuada 'por baixo do pano' e sem alarde, entre mercado e sociedade como um todo, nos 'convidando' a nos sentir tão virtuosos, puros e imaculados como o mercado. A partir daí, como a 'recompensa narcísica' é o aspecto decisivo, a associação é tornada 'afetiva' e, em grande medida, infensa à crítica racional. É precisamente este aspecto que permite a 'adesão popular' de setores que não têm nada a ganhar com a 'mercantilização' da sociedade como um todo."

"Na verdade, o que mantém a aparência de validade desta tese é a crença infantil de que existem Estados que não seriam 'apropriados privadamente' em qualquer lugar do planeta. Quando a única questão razoável é saber se o Estado é apropriado por uma pequena minoria privilegiada ou se pelo interesse da maioria."

Rico, exibido e mal compreendido

Nessa terça-feira (31), circulou pelas redes sociais um texto, supostamente escrito por uma renomada médica carioca, diretora de um hospital no Rio, no qual são destacados os grandes feitos sociais de Eike.

Ali, o empresário foi descrito como um homem que sempre despertou ódio e inveja, e que "o povo não perdoa um rico exibido", o qual nunca poupou esforços para ajudar o próximo. Eike fez Madonnachorar ao doar US$ 12 milhões para a Fundação SFK, assinala o texto. Investiu em UPP, em infraestrutura nas favelas, patrocinou produções cinematográficas, fez doações a hospitais, despoluiu a Lagoa Rodrigo de Freitas - ou tentou. "Por que não somam tudo que o Eike doou e descontam na dívida das empresas?", questiona o texto.

O texto só não diz que não há contribuição social que supra os danos econômicos e, consequentemente, sociais causados ao país, principalmente ao Rio de Janeiro, devido aos ideais megalomaníacos do empresário e de seu principal parceiro político, Sérgio Cabral.

Obviamente, o mercado barganha quando encontra um lado político igualmente ganancioso. Não há vítimas. Mercado e política flertam e trocam favores aqui e em qualquer outro país, de forma institucionalizada ou não. E, em qualquer parte do mundo, o combate à corrupção, em todos os níveis e setores, só é alcançado com melhores e inabaláveis mecanismos de controle.

No texto que circulou pelas redes sociais, há antigos depoimentos de amigos sobre o "legado" de Eike. Um deles dizia que um dia teriam de construir uma estátua do empresário, de braços abertos, no alto de um morro, assim como a do Cristo. Quanta blasfêmia. Agora, chegou a hora de desconstruir a imagem de um Eike Redentor que surgiu para nos salvar. Eike surgiu para salvar a si mesmo. E não conseguiu.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representam as ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública. Se você deseja fazer parte dos blogueiros, entre em contato por meio de editor@brasilpost.com.br.

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