OPINIÃO

Crivella e o projeto de esvaziamento social e cultural do RJ

Ao sabotar o Carnaval, o prefeito visa a iniciar o seu projeto de evangelizar uma cidade que, aos olhos de sua doutrina, pulsa em pecados.

16/06/2017 22:22 -03 | Atualizado 16/06/2017 22:22 -03
AFP/Getty Images
Marcelo Crivella é engenheiro, político, cantor, compositor, escritor, bispo da Igreja Universal e prefeito do Rio de Janeiro – eleito em segundo turno com 59% dos votos.

O prefeito do Rio, Marcelo Crivella, resolveu cortar pela metade o subsídio dado às escolas de samba do grupo especial carioca. Em vez de R$ 2 milhões, cada agremiação receberá da Prefeitura R$ 1 milhão para a realização do desfile na passarela do samba, no próximo Carnaval.

A justificativa? O prefeito diz que precisa realocar a verba para a educação infantil, dobrando o valor da diária paga às creches conveniadas com a prefeitura.

Para quem não conhece, Marcelo Crivella é engenheiro, político, cantor, compositor, escritor, bispo da Igreja Universal e prefeito do Rio de Janeiro – eleito em segundo turno com 59% dos votos. Muitas titulações e muita astúcia para conseguir o que deseja.

Em seis meses de governo, ele trabalhou muito – não para mitigar os problemas de educação, saúde, transporte e infraestrutura do Rio, mas para iniciar o seu projeto de evangelizar uma cidade, que, aos olhos de sua doutrina, pulsa em pecados. E qual é a melhor maneira de fazer isso? Utilizando a máquina pública.

Após o anúncio do corte de verba, as agremiações cariocas divulgaram uma nota dizendo que, com a decisão da prefeitura, os desfiles de 2018 ficam inviabilizados.

Separando os assuntos

Todos sabem que as agremiações são presididas por famílias envolvidas no jogo do bicho, e que boa parte dessa festa colossal é bancada com dinheiro do jogo. E são válidos os questionamentos sobre o aporte de dinheiro público nas escolas de samba e de que forma ele deve ser aplicado. No entanto, essa é uma outra discussão.

Fato é que o carnaval carioca se apresenta como um motor indispensável para a economia local e do País. Só neste ano, mais de um milhão de turistas curtiram a festa na cidade, segundo dados da RioTur, movimentando cerca de R$ 3 bilhões na economia, em meio a um período de recessão.

Mais que isso, a festa representa principalmente um resgaste histórico e um ganho social e cultural imensurável para a população do Rio e para o Brasil.

Claro, não só de samba-enredo e carro alegórico vive o carnaval carioca. A folia de rua e os incontáveis blocos também atraem e compõem esta festa magnífica. Mas hoje, o subsídio municipal representa cerca de 20% do orçamento das escolas para a realização dos desfiles no Sambódromo – parte importante do festejo.

Manipulação barata

Ao criar a oposição educação infantil versus Carnaval, Crivella espertamente aflorou a sensibilidade das pessoas (quem vai preterir a educação de crianças?) e ganhou o apoio de boa parte da população carioca que adora uma polarização.

Contudo, não se enganem: não é educação ou saúde, educação ou cultura, educação ou Carnaval. Uma gestão pública eficiente entende que é preciso fazer investimentos nas mais variadas áreas para que se alcance sucesso econômico e um Estado de bem-estar social, apesar de ajustes financeiros.

E Crivella sabia que, ao cortar pela metade a verba das escolas de samba, abalaria a organização e a viabilidade dos desfiles. Assim como a realização da Parada LGBT deste ano, que, por enquanto, não receberá nem um centavo de apoio municipal. Mais um belo trabalho do prefeito em direção a um esvaziamento social e cultural da cidade.

A quem Crivella atende com essas ações? Não são as crianças, os jovens, os LGBTs, as minorias, os profissionais e artistas que trabalham o ano todo para colocar um Carnaval de qualidade em pé. Não é o povo. Atende a si mesmo, às suas ideologias e ao seu clã que pretende deixar o Rio mais intolerante e sem graça.

De Eduardo Paes – um prefeito fanfarrão, que aparecia em rede nacional como malandro, mandava as pessoas transarem e não arredava o pé da Sapucaí – a Marcelo Crivella – conservador, manipulador e sem interlocução. É o Rio provando, mais uma vez, que é uma cidade de extremos.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

LEIA MAIS:

- Não se enganem com o discurso vitimista dos empresários corruptores

- Eike Batista: O mártir do capitalismo corrupto

Rio de Janeiro: O carnaval da Sapucaí