OPINIÃO

A perigosa censura disfarçada de 'defesa da moral'

O Santander Cultural cancelou uma mostra sobre diversidade após campanha negativa e acusação de incitação a pedofilia e zoofilia.

11/09/2017 19:31 -03 | Atualizado 11/09/2017 19:33 -03
MARCELO LIOTTI JUNIOR / DIVULGAÇÃO
A exposição intitulada "Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte" contava com de 270 obras de artistas como Alfredo Volpi, Adriana Varejão, Cândido Portinari e Lygia Clark.

Vamos deixar uma coisa bem clara: alguém achar uma obra de arte "repulsiva" não lhe dá o direito de querer que a mostra onde a obra é exposta seja fechada. Obviamente as pessoas podem fazer críticas morais, em seus círculos ou redes sociais, etc. Mas se alguém acha algo repulsivo, é simples: não vá ao local da exposição e não recomende aos amigos.

Agora concordar com a censura a uma mostra de arte a partir do seu senso moral é demais. É colocar o seu senso moral como parâmetro de (i)licitude, o que é intolerável num Estado Democrático de Direito pautado pelo pluralismo social e moral. Se seu senso moral foi afetado, o de outros e outras não foi.

E minorias ou mesmo artistas isolados têm o direito de expor sua arte. Não incitando ao ódio, ao preconceito, à discriminação, à violência e ao crime em geral, o trabalho artístico é lícito.

Acusaram quadros sobre crianças LGBT como incitando a pedofilia e a sexualização de crianças. Isto é pura e simples má-fé, ou, na melhor das hipóteses, indesculpável ignorância. Há crianças que querem namorar crianças do mesmo gênero, com o mesmo afeto lúdico que se acha perfeitamente normal os namoros entre crianças de gêneros opostos.

E há crianças transgênero também, diversas pesquisas e reportagens já o atestaram mundo afora. Age com "ideologia de gênero", cissexista, quem nega esses dados objetivos da realidade empírica.

Sobre a imagem da zoofilia - que também não me agradou -, ao que me consta não é ilícita essa representação. Então, se você acha isso repulsivo, faça as críticas morais que bem entender e estará em seu direito de crítica. Mas nada lhe dá o direito de querer censurar dita representação.

Representar não significa incitar a prática, significa retratar algo que acontece. Vão querer censurar a literatura de Jorge Amado, que retrata a pedofilia cultural de determinada região, como no livro Tocaia Grande?.

Sobre símbolos religiosos, eles não são merecedores de privilégios sociais frente a outros símbolos, podem ser usados em críticas e ironias. Haja hipocrisia em quem acusa pessoas LGBTs de quererem "privilégios" quando lutam apenas por igual respeito e consideração das leis, mas querem, aí sim, verdadeiros privilégios para as suas próprias crenças. Tudo pode ser objeto de crítica social, menos símbolos religiosos? Privilégio, algo obviamente inconstitucional, é o que vocês querem.

Em suma, arte não é só o que te agrada. Totalitárias são as pessoas que acham "tudo bem" censurar aquilo que as desagrada. Tristes e nefastos tempos estes.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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