OPINIÃO

O golpe manchará nossa história

15/04/2016 19:32 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
EVARISTO SA via Getty Images
Brazilian General Attorney Jose Eduardo Cardozo speaks during the lower house session of the Congress in Brasilia on April 15, 2016. Brazil's lower house of Congress opened debate Friday on impeachment of President Dilma Rousseff ahead of a vote this weekend that could seal her fate. / AFP / EVARISTO SA (Photo credit should read EVARISTO SA/AFP/Getty Images)

Ao longo dos últimos meses, temos presenciado uma preocupante disseminação de ódio e intolerância no Brasil. O crescimento desse tipo de comportamento representa um risco enorme ao debate político, à saúde da democracia e, principalmente, ao convívio social.

Infelizmente, há uma ação de incentivo ao ódio articulada por instituições e federações ligadas ao empresariado, por grupos de parlamentares e pela grande mídia. É um vale-tudo que envolve uma retórica fantasiosa, disfarçada de combate à corrupção, usada para polarizar o país e incriminar uma presidenta eleita democraticamente com mais de 54 milhões de votos.

Na história mundial, temos exemplos clássicos do uso dos discursos de ódio em nome de um dito bem comum. Nós não podemos permitir que o mesmo ocorra no Brasil em pleno 2016.

A situação atual é tão grave que tivemos casos recentes de crianças sendo agredidas por colegas de escola. O motivo? Usar roupa vermelha. Jornais mostraram ainda um episódio de desenhos infantis com frases como "Morre Dilma" e "Morre Lula". Este é o resultado preocupante do ódio e da intolerância em um efeito dominó: dos movimentos reacionários e dos comentadores raivosos de portais online para dentro da casa das famílias.

Para sairmos desta situação e evitarmos que a disseminação do ódio tome proporções ainda maiores, é preciso que os debates sejam realizados com racionalidade.

É preciso reforçar com veemência que não há base legal para o impeachment da presidenta Dilma Rousseff.

No entanto, parece-me que a irracionalidade tomou conta de parte dos parlamentares que debatem o assunto em Brasília e também de uma parte das pessoas que acompanham o debate nas ruas.

Em matéria publicada na Folha de S. Paulo nesta semana, o juiz Márlon Reis, idealizador da Lei da Ficha Limpa, diz que não há fato concreto para o impeachment. Diz ainda que, se quiserem recorrer às pedaladas ou às questões administrativas, esse tipo de pedido não se sustenta.

Quem está falando isso não é um petista. Porém, essas palavras não serão levadas em conta por aqueles que desejam unicamente a queda da presidenta. O fato é que as pessoas que se mantêm de olhos abertos para quaisquer denúncias ou acusações infundadas que citem a presidenta Dilma ou o ex-presidente Lula são as mesmas que parecem fechar os olhos e os ouvidos para o antagonismo vilanesco de certos agentes políticos.

Qualquer um que acompanha o noticiário, por mais enviesado que seja o veículo, sabe da parcialidade na atuação de figuras como Michel Temer, Eduardo Cunha e Aécio Neves, assim como da quantidade de denúncias e acusações acumuladas contra essas mesmas figuras.

Estamos vendo uma disputa de torcidas, fomentada principalmente pelos estímulos emocionais da grande mídia e daqueles que estão interessados no poder. É um cenário planejado, que tem como resultado as mais variadas manifestações de ódio.

O fato é que se não há nada de concreto para a cassação do mandato da presidenta Dilma, por que cassar? Será que nós estamos retomando o debate de um terceiro ou de um quarto turno das eleições? Será que aqueles que queriam ganhar o pleito vão buscar o poder no chamado "tapetão"?

Outro fato inadmissível é o "vazamento" de um áudio, gravado por Temer, em que diz que estar preparado para assumir o poder. Quando, em um país democrático, temos uma posição como essa de um vice-presidente?

Estamos correndo o risco de carimbar nossa história com um golpe branco. Um golpe sem a baioneta empunhada, mas de forma tão suja e desrespeitosa quanto. É uma tentativa de destituir uma presidenta da República com fatos que não se sustentam. Este é o grande debate que, infelizmente, é suprimido diariamente da pauta golpista dos maiores veículos de mídia.

Para fortalecer o discurso, parece ser viável dizer que Dilma deve sair de seu cargo por perda de credibilidade ou por problemas com as chamadas pedaladas fiscais. No entanto, repito: não há fato concreto para que se faça a deposição da uma presidenta legitimamente eleita.

Nós não podemos permitir que a lei seja desrespeitada, em nenhum caso. É isso que garante o Estado Democrático de Direito. É isso que as pessoas precisam entender.

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