OPINIÃO

O homem da era Temer não evoluiu

Endosso as críticas à proposta de "mulher brasileira" contida no discurso. E também me incomodo com o que o presidente não falou: como ele enxerga o homem brasileiro.

11/03/2017 10:43 -03 | Atualizado 12/03/2017 09:05 -03
Adriano Machado / Reuters
Colunista critica não só como Temer vê mulher, mas também homem brasileiro.

Passados alguns dias do lamentável discurso do presidente da República no 8 de Março, a questão ainda me incomoda, um incômodo suficiente para me fazer escrever sobre ele.

Nesses últimos dias jorraram duras críticas ao ponto de vista retrógrado e machista de Michel Temer sobre a "função" da mulher na sociedade brasileira, que automaticamente explicita o que ele pensa sobre as mulheres.

Mais brandas ou mais ácidas, endosso as críticas à proposta de "mulher brasileira" contida no discurso. Supondo que isso esteja superado (não está, não tem fim), dou-me o direito de me incomodar com o que o presidente não falou ao falar o que falou: como ele enxerga o homem brasileiro.

Ao normatizar o papel e a contribuição da mulher à sociedade brasileira como fez, Temer pressupõe a existência e a naturalidade também de determinado "tipo" de homem. Um tipo que espelha e se encaixa perfeitamente a essa mulher e que, pelo que "a rua" mostra, está em vias de extinção.

O homem da era Temer seguramente não é responsável pela educação dos seus filhos, seguramente não assume tarefas domésticas, nem faz compras no supermercado. Assim, presumivelmente trabalha fora de casa o dia inteiro, não tem tempo nem responsabilidades no âmbito da casa e, ao que parece, está confortável com isso, encarando com naturalidade o fato de ter uma mulher "recatada e do lar" a seu lado.

Pode não ser unanimidade, cada família tem sua realidade e em cada canto do Brasil a revolução comportamental caminha à sua marcha. Mas, francamente, está difícil encontrar homens que se sintam totalmente confortáveis nesse framework tão anos 50.

Vejo na porta da escola da minha filha um bando de pais absolutamente comprometidos com a educação dos filhos, vejo no supermercado homens comprando arroz e feijão e vejo ao meu lado uma mulher admirável, mãe, que trabalha pra cacete, prospera profissionalmente e – parafraseando às avessas o presidente – entende o quanto o homem faz pela casa, pelo lar, pelos filhos.

Negar aos homens – mesmo que indiretamente em um discurso com outro objeto –, a conquista da possibilidade de circular em uma casa que é sua, não só da "dona", e a oportunidade de ser flexível, amoroso e dedicado à família é um erro.

Pôr em dúvida a legitimidade da opção por estar ao lado de mulheres realizadoras, independentes e prósperas profissionalmente é uma afronta à capacidade do homem de evoluir junto com a sociedade. Eu não quero e nem estou vendo tantos caras querendo ser homens à la Temer.

Como a maioria dos textos que fazem análises sociais e circulam online, sei que este deve ser alvo de críticas como "mas você está falando do pessoal bem formado da zona sul de São Paulo, no interior de Goiás a coisa é diferente".

Eu não seria leviano em falar sobre isso tudo sem uma boa dose de evidências e, se não me engano, alertei para as diferenças inescapáveis em algum momento do texto. Vale dar uma olhada no vídeo abaixo, resultado de uma pesquisa comportamental feita pela Editora Abril e pela Vox Pesquisas, do qual eu participei. Homens de todo o Brasil mostrando como não são o tipão que Temer evoca.

ABRIL - ELES | UM ESTUDO SOBRE OS HOMENS from Base Livre Filmes on Vimeo.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública.