OPINIÃO

O fim do bebê

22/01/2016 17:58 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Nadezhda1906 via Getty Images
father and little son silhouettes play at sunset sky

Quatro meses atrás, amiga minha se mostrava aliviada com a chegada da caçula (são três, ela vive a vida no hard) aos três anos. Dizia que agora já não tinha mais neném em casa, tinha descoberto que preferia lidar com crianças: são mais independentes, expressam melhor os desejos, angústias e tudo mais.

Achei que fazia sentido. Com uma filha de um ano e meio em casa, que falava bastante, mas basicamente repetindo os estímulos que recebia, sentia um pouco da angústia de ainda não poder estabelecer diálogos mais complexos com ela. Relativizava, compreendia que não é preciso ter pressa e curtia muito a fase papagaio da Bia.

Dias depois, a Bia tentava encaixar peças de um brinquedo sentada na sala, eu observava. Sem conseguir, ela ficou nervosa, jogou as peças e reclamou. Agachei e ofereci ajuda, recusada de pronto, com a ordem meio desconexa mas muito clara: "quer levantar, papai!". Ou seja, levanta e vaza, que eu é quem vou montar essa coisa.

Encuquei. Deixou de ser um papagaio e passou a usar as palavras com a finalidade que deveriam ter. Entendi que isso deveria mudar tudo, desde o modo de estimular até o tipo de reação que pai e mãe deveriam ter à fala: uma reação que faça sentido, que respeite e dê continuidade à expressão dela - no meu caso, levantar e deixar que ela montasse sozinha.

Vieram então as reflexões e mudanças enfrentadas por ela, por mim e pelo nosso convívio - agora mais franco - e ressurgiu com força a questão: quando podemos dizer que não temos mais um bebê em casa? Cheguei discordar da minha amiga, que só se viu livre dos bebês depois de três anos, e determinar que a transição se dá a um ano e meio

No entanto, me flagrei revogando e renovando dia após dia o meu decreto do fim do bebê. Sempre parece que, agora sim, ela passou de fase, de tão rápido que as habilidades dela e nosso relacionamento são impelidos a evoluir. Um dia me cansei de renovar o decreto e deixei de procurar um marco histórico.

Mas nem por isso a história deixou de ser marcada por fatos que acendem de novo a questão. Ultimamente, beirando os dois anos, a Bia tem pedido para assistir "só mais um pouquinho de Minions", esboçando uma atitude temperada de jeitinho brasileiro, que a permite desrespeitar a regra sem ser punida por isso. Bebês já tramam assim? Socorro. Imagina um bebê de três anos.

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