OPINIÃO

Goleada fora dos gramados

28/05/2015 17:21 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:19 -02
YASUYOSHI CHIBA via Getty Images
A man reads front pages of newspapers at a kiosk showing FIFA officials arrests including former president of the Brazilian Football Confederation (CBF) and current member of the FIFA's organizing committee for the Olympic football tournaments, Jose Maria Marin, accused of corruption yesterday in Rio de Janeiro, Brazil, on May 28, 2015. AFP PHOTO / YASUYOSHI CHIBA (Photo credit should read YASUYOSHI CHIBA/AFP/Getty Images)

Em julho de 2014, o Brasil levou uma goleada de 7 a 1 da Alemanha. O resultado tirou a Seleção da CBF, e também do povo brasileiro, da Copa do Mundo de forma vexatória. Mais tarde, o time de Felipão ainda sofreu um 3 a 0 da Holanda, na disputa pelo terceiro lugar.

Mas, apesar da notícia não ser tão antiga, porquê estou relembrando esse episódio? A resposta é simples. Menos de um ano depois, no dia 27 de maio de 2015, o Brasil levou mais uma goleada. E, para piorar, foi fora de campo e dos Estados Unidos. Todos já estão cansados de ler da prisão de membros da Fifa, e principalmente de José Maria Marin, o presidente da CBF na época dos sete gols da Alemanha. Hoje, a entidade, ou máfia se preferir, é comandada por Marco Polo Del Nero.

E por que uma nova goleada?

São várias investigações acontecendo ao mesmo tempo e o documento dos processos é gigante. Mas, infelizmente para o Brasil, um dos principais alvos é a Traffic. A companhia comandada por José Hawilla tem sede em São Paulo e é a principal revendedora de direitos de imagem dos principais torneios brasileiros. E aí que o buraco fica mais sujo e mais fundo. Atualmente, o futebol brasileiro sofre com um gigante monopólio no direito de transmissão do Campeonato Brasileiro pela Rede Globo. O poder da emissora já dura anos e anos. Recentemente, Corinthians e Flamengo receberam uma fatia gigantesca e gerou a ira de vários outros clubes brasileiros. A discussão sobre isso simplesmente não acontece. Assim como o calendário do futebol brasileiro continua horrível e sem mexer.

Nunca, em momento algum, qualquer um desses crimes citados pelo FBI foi discutido ou investigado pelo Ministério Público ou pela Polícia Federal. Traduzindo, toda essa roubalheira descoberta pela polícia dos Estados Unidos foi realizada debaixo dos nossos narizes. Sim, se não fossem os estrangeiros, propina e outros crimes passariam em branco. Situação comum para nós brasileiros.

É uma vergonha para a Justiça brasileira ver tanto problema acontecendo e ver ao mesmo tempo que no Brasil o poder está acima da lei e da justiça. E o povo precisa ver isso, precisa colocar isso na cabeça e entender que não se trata apenas de um episódio do caderno de Esportes. Não! Esse ocorrido é uma amostra de como o Brasil está fracassando em defender quem não tem voz.

A primeira coisa que penso é se realmente a Operação Lava Jato é honesta e está prendendo TODOS os envolvidos e não só quem perdeu o poder de ficar escondido. Aliás, situação que pode até ser comparada com o caso da Fifa. Joseph Blatter é presidente de uma entidade cercada por corruptos. Se ele não é bandido, no mínimo é incompetente para selecionar empregados ao seu redor. Situação semelhante acontece na CBF e também no governo brasileiro. Exemplo? Quem precisou dar entrevista essa semana? O desconhecido e despreparado Ministro dos Esportes. George Hilton vai ficar em evidência nas próximas semanas, e também no próximo ano com as Olimpíadas. Será que o currículo dele demonstra qualquer preparo para assuntos tão importantes? Só mais uma prova de que poder no Brasil não está nas mãos dos competentes e sim dos já poderosos.

Uma dica? Ler a excelente coluna de João Estrella de Bettencourt.

Não concordo com quem chama de episódio mais vergonhoso do futebol mundial. Pelo contrário, a prisão é uma mostra de que coisas boas também acontecem no mundo. E esses poderosos, que quase sempre são intocáveis, também podem sofrer algumas consequências. Porém, tudo que ocorreu na quarta-feira é só uma favo de mel da colmeia inteira. É necessário que tudo seja apurado, que tudo seja transparente e que a Justiça realmente aconteça. E que o brasileiro veja isso acontecer também no Brasil. Ministério Público e Polícia Federal levaram uma goleada dos estrangeiros, mas ainda podem se recuperar. Só precisam mostrar serviço honesto e acabar com o "jeitinho brasileiro" de fazer negócios.