OPINIÃO

O nacionalismo é somente uma máscara para a culpa coletiva abstrata

08/04/2015 16:56 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:45 -02
reprodução/facebook

O nacionalismo é um tipo de insanidade no qual fronteiras artificiais substituem compaixão e bom senso.

Minha vida inteira, em todas as campanhas que organizei, fui chamado de racista ou intolerante por me opor a todas as atrocidades com as quais deparei. Nossas campanhas contra a caça às baleias se dirigiram contra pescadores de Japão, Noruega, Islândia, Espanha, Austrália, Dinamarca, Canadá, África do Sul, Rússia e Estados Unidos. Nossas campanhas contra a caça às focas se dirigiram contra predadores de Canadá, Rússia, Noruega e Namíbia. Nossas campanhas contra a caça de tubarões se concentraram em Costa Rica, Austrália, China, Espanha, Brasil e vários outros países. Nossas campanhas contra a pesca ilegal de atum aconteceram em Malta, Espanha, França e Japão. Nossas campanhas contra a matança de golfinhos ocorreram em Japão, Ilhas Faroe, Canadá, Peru, Venezuela, México e vários outros países.

Diga um país e lá acontece alguma atrocidade contra algum animal (ou animais).

E muitas dessas atrocidades são justificadas em nome de alguma cultura nacional - seja o foie gras na França, as touradas na Espanha, a caça à raposa na Inglaterra e ao canguru na Austrália, a matança de golfinhos no Japão e a de focas no Canadá, a de lobos na Noruega ou nos Estados Unidos, e assim por diante.

Nunca me opus a uma atrocidade com base na nacionalidade da pessoa ou das pessoas que a cometem. Só que, quando me oponho a alguma atrocidade em qualquer lugar, costuma ocorrer uma reação das pessoas ofendidas, baseada em sua nacionalidade. Ocorre uma divisão entre aqueles que defendem a atrocidades por razões culturais e aqueles que defendem seu país e se opõem à atrocidade, mas se sentem ofendidos porque seu país é incluído nas críticas.

Eis o problema com a identificação nacional. As pessoas que se orgulham de sua bandeira e de seu país tendem a ficar na defensiva quando uma atrocidade é mencionada dentro das fronteiras de seu país. Isso muitas vezes leva a uma defesa da atrocidade meramente por orgulho nacional.

Nasci no Canadá e sou cidadão canadense e americano. Minha vida toda me opus à matança cruel e detestável das focas no Canadá. Também defendi lobos, caribus, salmões e outras espécies abusadas de forma inclemente no Canadá. Defendi baleias, focas, lobos, ursos, leões marinhos e muitas outras espécies nos Estados Unidos. Não me ofendo quando europeus condenam a matança de focas no Canadá. Na verdade, aprecio que eles o façam.

Veja, as focas do Canadá representam o país mais que o pedaço de pano vermelho e branco que é usado como justificativa quando o governo canadense condena quem as defende e elogia os matadores de focas como canadenses "reais", que defendem uma prática cultural do país.

Meu "canadismo" são as florestas, as montanhas, os rios e todas as espécies nativas que vivem no mar ou na terra. O mesmo vale para o meu "americanismo". É a terra e o mar, as florestas e os vales que eu amo e respeito.

Alguns japoneses reclamam de racismo quando nos opomos à matança de baleias e golfinhos. Na Espanha, gritam intolerância quando nos opomos às touradas ou à matança de galgos. Alguns australianos se ofendem quando nos opomos a atirar em cangurus, e alguns namíbios ficam irritados porque defender as focas é, a seus olhos, uma forma de racismo.

Não acredito em nacionalismo. Quando vejo uma imagem da Terra do espaço, não enxergo bandeiras ou fronteiras. Bandeiras significam pouca coisa para mim, além de pedaços de tecido que unem as pessoas em jogos de futebol, como forma de uma certa identificação tribal.

Não enxergo nacionalidades. Vejo uma espécie de primatas hominídeos chamada Homo sapiens. E o que vejo é uma espécie que tem as mesmas virtudes e os mesmos vícios.

Não existe uma única nação neste planeta na qual não se encontre crueldade e violência. Não existe uma única nação neste planeta na qual um grupo de pessoas seja diferente de outro grupo de qualquer outro país.

Reconheço que cultura e tradição sejam importantes para diferentes grupos e respeito esse fato, mas não respeito uma cultura ou tradição que pratique crueldade ou matanças.

Os canadenses são sádicos por causa da matança de focas? Os espanhóis são bárbaros por causa das touradas? Os faroeses são monstros por matar baleias-piloto?

A resposta é: claro que não. Um povo não pode ser julgado pela crueldade de um grupo dentro de um grupo maior. A menos, é claro, que eles apoiem abertamente tal matança e justifiquem crueldade, miséria e morte em nome de suas culturas.

Existe só uma raça, e ela é a raça humana. As evidências são claras de que a humanidade, como raça, é ecologicamente ignorante. No geral, somos extremamente arrogantes em nossa visão coletiva das outras espécies - tanto que praticamente todas as religiões antropocêntricas colocam os humanos no centro da criação.

As pessoas às vezes se confundem quando perguntam minha cidadania e eu respondo: "Sou terráqueo".

Minha família imediata é meio que uma ONU e inclui as seguintes nacionalidades: canadense (ingleses e franceses), americana, russa, cazaque, turca, francesa, dinamarquesa, escocesa, irlandesa, alemã, iraniana, holandesa e chinesa. Meus navios tiveram tripulações de pelo menos 50 países. E há muito tempo percebi que dentro de qualquer grupo ou nacionalidade podem-se encontrar várias opiniões, preconceitos, vícios, virtudes e crenças.

Acredito firmemente que nenhum grupo seja superior a outro. Acredito, entretanto, que uma coisa não deve ser tolerada, e ela é sujeitar deliberadamente qualquer humano ou outro animal a dor, sofrimento, morte e desigualdade em nome de patriotismo, cultura ou tradição.

O toureiro espanhol que mata o touro, o caçador americano que mata o elefante, o africano que mata o rinoceronte, o faroês que caça baleias, o canadense que mata focas: todos são o mesmo, unidos em sua perversidade comum de infligir dor, sofrimento e morte.

Ao mesmo tempo, os cidadãos espanhois que se opõem às touradas, os australianos contrários à morte dos cangurus, os africanos contra a matança de rinocerontes e assim por diante também são unidos por um laço de compaixão.

Costumo receber mensagens como: "Apoio que você salve as baleias, mas as touradas são parte de nossa tradição", ou "Apoio seus esforços para salvar as focas, mas você não tem o direito de me criticar porque como foie gras". Todas as minhas posições são contrárias a uma atrocidade ou a uma ameaça a um ecossistema, e não contra a nacionalidade das populações envolvidas.

Todos faroeses são maus? Não, mas na minha opinião os faroeses que matam baleias são maus, porque a caça à baleia é má. Todos os espanhóis são mais por causa da pesca ilegal, das touradas e da matança de galgos? Não, mas aqueles envolvidos em pesca ilegal, touradas e matança de galgos estão envolvidos num mal que venho combatendo minha vida toda.

O dilema é: como você pode ser contra a matança de golfinhos no Japão, pelas mãos de seres humanos que são japoneses, sem dizer que os matadores são japoneses? Não tem como, mas tentamos mostrar que nem todos os japoneses estão envolvidos ou apoiam a matança. Mas isso tem um complicador extra: todos os japoneses votam e são responsáveis pelo governo eleito que os representa. Quando o governo apoia a matança de baleias e golfinhos, implica o país inteiro.

Não é fácil, para dizer o mínimo, e as pessoas vão acreditar no que quiserem acreditar e justificar o que quiserem justificar.

O que posso fazer é ser consistente em minha política de enxergar todos os humanos igualmente, julgando-os não por nacionalidade, mas por suas ações.

Se são faroeses que matam baleias-piloto e golfinhos, me oponho a eles e os condeno por essa ação. Se são faroeses que não matam baleias-piloto e golfinhos, mas apoiam a matança, discordo e me oponho a eles. Se são faroeses que se opões à matança de baleias-piloto e golfinhos, aplaudo e apoio.

É simples assim. Apoiamos ou condenamos ações, não a nacionalidade da pessoa envolvida.

Este artigo foi originalmente publicado pelo Huffington Post UK e traduzido do inglês.