OPINIÃO

Por que o papa Francisco quer a santificação de Oscar Romero

02/06/2015 14:58 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:19 -02
MARVIN RECINOS via Getty Images
Thousands of Catholic faithful from various nationalities participate in the ceremony celebrating the beatification of martyr archbishop Oscar Romero at San Salvador´s main square, on May 23, 2015. Thousands gathered in San Salvador Saturday to celebrate the beatification of archbishop Oscar Romero, a divisive figure whose defense of the poor and repressed split both El Salvador and the Church. AFP PHOTO/Marvin RECINOS (Photo credit should read Marvin RECINOS/AFP/Getty Images)

Um fio dourado une o papa Francisco a Oscar Romero, o arcebispo assassinado cuja beatificação foi ordenada pelo papa no último fim de semana, para aclamação extasiada da população de El Salvador e de todo o mundo.

O fio é a teologia da libertação, o movimento que varreu a América Latina, e depois outras partes do mundo, 40 anos atrás. Ela afirma que o Evangelho contém uma preferência pelos pobres - e insiste que a Igreja tem o dever de trabalhar por mudanças políticas e econômicas, além de espirituais.

Os conservadores da Igreja Católica não gostam disso. Eles afirmam que Romero não era um teólogo da libertação. Isso é irônico, pois eles passaram as três últimas décadas bloqueando o caminho da santificação de Romero argumentando justamente o contrário. Na época, eles diziam que canonizar o clérigo assassinado seria efetivamente endossar a teologia da libertação.

No auge da Guerra Fria, os conservadores consideravam esse movimento radical pró-pobres um cavalo-de-troia marxista que permitiria a entrada do comunismo pelas portas dos fundos da América do Sul. Os seguidores do movimento viam nele as palavras de Jesus em ação.

Nos anos que se seguiram, a tendência majoritária da Igreja Católica adotou vários dos insights da teologia da libertação. Mas conservadores no Vaticano e na hierarquia da América Latina trabalharam nos bastidores para contrabalançar sua influência - e bloquear quaisquer tentativas de colocar Romero no caminho da santificação.

Existe uma resposta efetiva para essas manobras e maquinações. É a dada pelo homem que é indiscutivelmente um dos fundadores da teologia da libertação, Leonardo Boff, um ex-frei franciscano que deixou o clero depois de o Vaticano lhe condenar a um período de "silêncio obsequioso" durante os papados conservadores de João Paulo 2º e Benedito 16º.

Quando questionado se o papa Francisco é um teólogo da libertação, Boff deu uma resposta que também serviria muito bem para o caso de Romero. "O importante não é se ele é a favor da teologia da libertação, mas [se ele é] a favor da libertação dos oprimidos, dos pobres e das vítimas da injustiça. E isso ele é, sem dúvida. O papa Francisco vive a teologia da libertação."

Oscar Romero também a viveu. Ele não era um teólogo teórico. Ele defendeu os pobres sem hesitação - e morreu por eles.

Romero começou como conservador, mas os eventos o mudaram. Tornou-se arcebispo de San Salvador em 1977, numa época em que líderes comunitários e padres que denunciavam a pobreza extrema do país eram assassinados por esquadrões da morte pagos pelos barões do café salvadorenhos. Camponeses e manifestantes urbanos eram massacrados nas ruas pelo Exército. Igrejas eram dessacralizadas, jornais e emissoras de rádios das dioceses, bombardeados.

Romero denunciou tudo isso. Para a elite, ele era um comunista de batina. Romero foi morto a tiros no altar.

As pessoas comuns rapidamente o aclamaram como santo, chamando-o de São Romero das Américas. Mas os conservadores do Vaticano e entre os bispos da América Latina paralisaram o processo de canonização de Romero por mais de três décadas. No fim das contas, eles não tinham mais desculpas para continuar bloqueando o reconhecimento de seu martírio. Começaram, então, a insistir que ele não era na realidade um teólogo da libertação. Foi uma tentativa descarada de separar o mártir do movimento teológico que ele incorporava.

Tudo isso tocou fundo o papa Francisco, que viu em Romero um modelo para sua própria jornada espiritual. Como Romero, ele também começou como conservador. Líder dos jesuítas da Argentina nos anos 1970, Francisco acreditava que sua função era acabar com a teologia da libertação. Mas os eventos também o transformaram.

Sua liderança autoritária dos Jesuítas acabou por lhe enviar ao exílio, depois de presidir uma divisão amarga e profunda dentro da ordem. Naqueles dois anos de exílio, ele passou pelo que viria a chamar de "época de profunda crise interior" e emergiu com um estilo de liderança mais consultivo.

Como bispo das favelas de Buenos Aires, seu contato com os pobres provocou mudanças. Antes, ele os enxergava como vítimas que precisam de caridade. Depois, passou a ver os pobres como pessoas que precisavam de ajuda para assumir o controle de suas próprias vidas. Ele começou a apoiar grupos de autoajuda, cooperativas e sindicatos - exatamente o tipo de trabalho que havia proibido entre os teólogos da libertação jesuítas, 20 anos antes. "A experiência dos valores de vida dos pobres transformou seu coração", como disse um de seus padres das favelas, José María di Paola.

Quando a Argentina mergulhou numa enorme crise financeira em 2001, com o maior calote da história, metade da população do país ficou abaixo da linha de pobreza. As dificuldades fizeram Francis enxergar como os sistemas econômicos, e não só os indivíduos, podem ser pecadores. Ele começou a usar a linguagem da teologia da libertação em suas condenações do governo e da comunidade financeira internacional, com seus "remédios" de austeridade e cortes de serviços dos quais os pobres dependiam.

Francisco continuou a usar essa linguagem como papa, com duras críticas ao capitalismo global nos dois anos desde assumir o comando da igreja. E ele reabilitou a teologia da libertação, convidando alguns de seus maiores expoentes para dialogar sobre seu importante documento sobre o meio ambiente, que será publicado em breve. O guardião-chave da doutrina de Roma declarou que a teologia da libertação deveria "ser incluída entre as mais importantes tendências da teologia católica do século 20".

Portanto, Oscar Romero não é simplesmente, para o papa Francisco, um homem cuja morte corajosa deve ser honrada. Ele é um padre cuja vida é testamento do tipo de catolicismo preferido por um papa que declarou, dias depois de eleito, querer "uma igreja pobre para os pobres".

Romero é um exemplo para Francisco, quando o papa entra no que pode ser o período definidor de seu pontificado. Há três eventos-chave nos próximos seis meses. A aguardada encíclica sobre o meio ambiente e a mudança climática deve ser publicada no mês que vem. Depois, vêm visitas à América do Sul e à América do Norte. E, então, um sínodo em Roma que pode trazer mudanças na abordagem da igreja com relação a questões como divórcio e homossexualidade.

Romero foi um homem ao mesmo tempo completamente ortodoxo e completamente radical. Esse é o modelo que o papa Francisco parece estar adotando para si mesmo.

Paul Vallely é autor de Pope Francis - The Struggle for the Soul of Catholicism (papa Francisco - a luta pela alma do catolicismo, em tradução livre), a ser publicado pela Bloomsbury em setembro.

Este artigo foi originalmente publicado pelo The World Post e traduzido do inglês.

VEJA TAMBÉM:

7 frases do papa Francisco que incomodam as mulheres