OPINIÃO

Museu da Cannabis Montevidéu: Um oásis que pode virar hostel

Espaço conta a história, variedades, utilidades e informações sobre a regulamentação da maconha no Uruguai.

08/05/2017 19:45 -03 | Atualizado 08/05/2017 19:48 -03
PA Archive/PA Images
Governo do Uruguai iniciou o registro oficial de cidadãos interessados na compra da maconha na semana passada.

Calma, não se trata de um antro maconheiro com cores da Jamaica, ao som de reggae e marola abundante. Como todo museu, é um lugar para arquivar e reproduzir conhecimento. Porém, nunca imaginei encontrar quase um bosque (não necessariamente de maconha) escondido no meio da cidade.

Pra começar, diferentemente do museu da maconha de Amsterdã, não havia nenhuma indicação evidente de que ali, naquela casinha, camuflada entre outras da rua Durazno, estivesse uma atração turística da capital do Uruguai.

Olhando melhor, conferindo a numeração, encontrei uma plaquinha discreta com a sigla MCM. Fiz o cálculo das letras e entrei.

"É discreto a propósito. Gostamos justamente desse impacto, que o lugar supere as expectativas, que as pessoas entrem e se surpreendam. Hoje mesmo, várias pessoas me disseram que aqui parecia um oásis", contou, a este blog, Eduardo Blasina, engenheiro agrônomo e proprietário do local.

Assim é que o silvestre contrasta com o urbano, nas palavras do próprio Blasina. Primeiramente, você encontra uma sala ampla com várias estantes de vidro que expõem e explicam a história dessa planta tão diversa e controversa.

Aprende sobre as variedades, as utilidades e se familiariza também com a campanha política que resultou na aprovação de uma lei inédita no mundo, regulamentando plantio, comércio, consumo, estudo e industrialização da cannabis.

Atravessando o hall de exposição de informações sobre a planta há uma saída para o pátio. E aí a surpresa: uma área chill out, com um pequeno bar, um jardim com árvores e uma variada vegetação.

Somente bem ao fundo é que se pode vislumbrar, finalmente, um par de pés de maconha, separados do no miniparque. E sem flores. Ou seja, não dá pra fumar. O museu conta com o aval do Ministério do Turismo e oferece também atividades culturais variadas, como oficinas artísticas e culinárias, por exemplo.

No pátio, um segundo andar oferece mesas mais baixas com confortáveis e convidativos sofás em uma espaçosa varanda. Nas noites de quinta a sábado, o museu se dedica ao bar, um sucesso graças à parte aberta e o ambiente aconchegante. Tem DJ, música ao vivo, cerveja artesanal e gente descolada. E na parte fechada do segundo piso é onde mora o idealizador de tudo isso.

"Foi algo muito sonhado. Vejo que as pessoas estão desfrutando, criou-se um ambiente cosmopolita. Gosto que o Uruguai receba gente de todos os lugares", ressaltou Blasina, no melhor tom "mi casa, tu casa" e sem se incomodar com o barulho ou o movimento noturno dos visitantes.

Tamanho é seu talento de anfitrião que o engenheiro pensa em ampliar o negócio para que o museu se converta também em um hostel, no próximo verão – em dezembro deste ano. "Seria um hostel pequeno, com capacidade para 20 pessoas", explicou, com um esclarecimento mais do que necessário: a ideia não é oferecer um lugar onde "as pessoas estejam simplesmente fumando maconha o dia inteiro".

O consumo de drogas nunca esteve criminalizado no Uruguai. Esta, aliás, foi uma grande surpresa que tive quando migrei para este país, em 2011. A lei da maconha estava longe de ser debatida, mas era comum ver as pessoas apertando e fumando um baseado naturalmente, inclusive nas mesas de bar. Algo impensável no Brasil, ainda que muita gente se atreva a fumar na rua.

Cabe lembrar que apenas residentes legalizados no país, com documento uruguaio emitido há pelo menos um ano, estão autorizados a usufruir da lei que regulamentou a maconha. Turistas não são contemplados. Mas como fumar nunca foi crime...

O cadastro para usuários interessados em comprar cannabis nas farmácias habilitadas teve início na semana passada. Cadastrar os consumidores da planta, seja para o cultivo doméstico ou para a aquisição de forma comercial, é o que marca uma diferença substancial entre legalização e regulamentação.

A legislação promovida pelo ex-presidente José Mujica é taxativa quanto ao controle do Estado na matéria. E os responsáveis pela implementação da lei insistem que o Uruguai não será Amsterdã e não haverá "turismo cannábico".

De acordo com o Instituto de Regulação e Controle da Cannabis (Ircca), um órgão público criado a partir da lei para assegurar seu cumprimento, as plantas comercializadas pelo Estado possuem uma tecnologia que permite rastrear e identificar sua origem. Dessa forma, usuários que utilizem a maconha para outros fins além do consumo própio poderão ser penalizados.

Por enquanto, somente o cultivo doméstico individual ou coletivo por meio das chamadas "cooperativas cannábicas" está em pleno funcionamento. Ainda assim, a lei esbarra na desconfiança de muitos uruguaios que continuam plantando na clandestinidade. "Não gosto da ideia de estar registrado em uma base de dados do Estado como cultivador da minha ervinha", declarou um usuário que preferiu não se identificar.

Em três anos o Ircca registrou apenas 6.235 residências com o cultivo autorizado e outras 38 cooperativas. Trata-se de um número inferior ao estimado e argumentado para aprovar a lei ao princípio do debate parlamentar: pelo menos 10.000.

Por outro lado, o procedimento determinado pelo Ircca para efetuar o registro, a ser feito em agências do Correio, chega a ser constrangedor. Como também relatei em um post anterior deste blog, me senti exposta pela falta de privacidade na hora do cadastro. Por ironia do destino, minha tentativa terminou não se concretizando. E eu nunca mais voltei. No entanto, que fique claro: tampouco comecei a plantar!

Eduardo Blasina também é um dos responsáveis por uma das empresas licitadas para plantar maconha para o Estado. Paciente, ele mantém o otimismo pelo passo adiante que o país deu. Defensor da lei e pai de um adolescente de 13 anos, acredita que está contribuindo para um mundo em que o filho possa "escolher buscar a felicidade sem incomodar ninguém".

Para o engenheiro, a ideia de que as autoridades pudessem interferir sobre o que ele queria plantar no jardim de casa "era como se dissessem quais livros você pode ter na sua biblioteca". "O Uruguai já resolveu essa parte", arrematou.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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