OPINIÃO

'Vivemos sob o poder de um Estado onde é errado ser correto', diz proprietária do 8 Bar Bistrô

05/08/2015 13:48 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
Reprodução/Facebook

Há mais de um mês os proprietários do 8 Bar Bistrô, estabelecimento comercial noturno de Belém do Pará, vivem um pesadelo muito comum sobretudo para os comerciantes e habitantes das regiões periféricas das grandes cidades. A paraense Karllana Cordovil e o português João Paupério foram injustamente presos por tráfico de drogas e soltos após a ação dos advogados para provar que o episódio se deu a partir de um protocolo ilegal de represália da polícia contra o casal de proprietários.

Ao longo de anos, Karllana e João se recusavam sistematicamente a fazer o pagamento da propina relativo à "segurança" do espaço oferecida pelos próprios policiais. O ciclo de corrupção é claro e a seguinte máxima já se tornou um clichê: a instituição que deveria salvaguardar o bem estar civil produz violência para ter o controle dela, utilizando-a como dispositivo ativador de coação, tornando-a moeda de troca para aquilo que deveria ser um direito básico da comunidade: a segurança pública.

O despacho do juiz Flávio Sanchez Leão demonstra com clareza os motivos da anulação do processo, cumprindo inclusive a função de denúncia fundamental para que se viabilize uma investigação mais apurada das milícias paraenses e dos inúmeros casos de corrupção em que estão envolvidas.

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No período de prisão e soltura de Karllana e João também houve intensa mobilização política organizada pelos frequentadores do 8, público relacionado a diversas lutas sociais como as frentes de afirmação racial na região norte, o combate às hidrelétricas, o debate feminista e LGBT, dentre outros. Esses aspectos políticos específicos viriam a ser uma justificativa para a investida ilegal da polícia contra o espaço no que diz respeito ao campo de disputa ideológica.

Os frequentadores do 8 Bar Bistrô se opõem declaradamente aos projetos de desmonte social do governo do estado e da prefeitura da capital comandados há muitos anos pelo PSDB (em uma relação estável e fantasmagórica com o coronelado do PMDB). Instâncias de poder essas institucionalmente relacionadas às facções militares responsáveis pela segurança pública na região norte e em todo o país.

O que se tem testemunhado em Belém e no restante do estado são políticas públicas (ou a ausência delas) que priorizam a vazia projeção do estado e da capital do Pará nas esferas nacionais e internacionais de modo fetichista e espetacularizado, mantendo a condição perene da pobreza, miséria e injustiça contextuais escondida sob o véu da propagandística "riqueza da flora e fauna amazônicas". Para inglês ver. A colônia sendo colônia. Nada mais.

Karllana respondeu à distância algumas questões enviadas por mim para que ela mesma pudesse dar sua versão dos fatos. Outros textos e registros audiovisuais do caso e seus desdobramentos podem ser encontrados aqui e aqui.

Karllana, vocês deram entrada em uma petição no Ministério Público pedindo a apuração do caso do 8 Bar Bistrô (onde foram plantadas 44 petecas de pasta base de cocaína e um valor em dinheiro que seria referente à venda da droga) após o juiz Flávio Sanchez anular a acusação contra você e João ao atestar a ilegalidade na obtenção das provas por parte da polícia. Como está o processo de verificação do caso até agora?

Demos entrada na petição para investigar o caso em que quatro policiais que entraram em nossa casa, em cima do bar, e o porquê de não existir a presença do quarto elemento encapuzado em nenhum dos depoimentos dos outros três policiais, assim que fomos soltos. Porém essa petição não foi aceita no Ministério Público.

Por que você acha que o Ministério Público não aceitou a petição?

Conversando com nossos advogados, percebemos que esse foi um jeito do Ministério Público não atestar o erro do Estado - já que a instituição policial é representada pelo Estado.

O Ministério Público quer reabrir o processo em que vocês são acusados por quê?

O Ministério Público alega que é necessário investigar o ocorrido, o que acho correto. Já que neste caso houve a prova forjada das drogas, acho necessário justificar de onde vêm essas drogas, e quem é o quarto policial encapuzado já que ele que colocou as drogas dentro do escritório da casa, e ele que "a encontrou", apesar de outro investigador dizer ter encontrado.

Por que vocês saíram do país?

Agora dia 29 vai completar um mês que fomos soltos e vai completar um mês que perdemos nossa liberdade. Não só nós como toda nossa família mal conseguíamos dormir. A sensação de insegurança que já existia composta pela situação caótica de falta de segurança da nossa cidade para nós triplicou visto que nosso lar foi invadido por aqueles que deveriam nos trazer segurança, na tentativa de nos incriminar. Isso tudo além de todo terror e ameaças que eles metralhavam em nossas cabeças no dia da prisão, quando nos levaram apertados em um carro comum para a delegacia onde dois iam na frente, um dirigindo e outro no passageiro, e os outros dois no banco de atrás mais João e eu.

A gente perguntava por que o homem encapuzado não se apresentava, eles respondiam que era o matador, que ele ia atrás das pessoas pra resolver as coisas, tentando todo tempo nos amedrontar. Além disso, o investigador que ficou responsável pelo caso e por ter encontrado a droga, já que o encapuzado que apresentou a droga "desapareceu", ficava colocando a arma dentro da boca dele.

Nossa vida virou um caos. Tínhamos medo de quem se aproximava, de ligações, de qualquer novo ataque gratuito. Há uma insolente posição de apoio a esses tipos de práticas por parte do Estado quando cegamente se argumenta que nossos policiais são bem treinados para suas posições. Sabemos que nosso sistema de segurança é falho, não somente em Belém. Então os policiais são acostumados a fazer o que há de mais errado e sempre sair impunes. Somos constantemente vítimas, todos os dias, jornalistas, artistas, pensadores que não permitem ser oprimidos por um rio de corrupção. Vivemos sob o poder de um Estado onde é errado pensar e seguir sua cidadania, é errado ser correto, é errado não ser errado. Quantas vezes ouvimos pessoas falando que saíram de tal cargo ou trabalho por terem se recusado a seguir sistemas de corrupção? Por que as pessoas de boas condutas têm que sair em vez daqueles que cometem os erros?

Nosso sistema todo está acostumado a errar e apagar aqueles que tentam quebrar a corrente, decidimos assim não ficar esperando nos apagarem, precisamos e merecemos, por nunca ter feito mal nenhum, dormir e viver bem. Na petição que foi mandada para o Ministério Público pedíamos inclusive para responsabilizar diretamente os agentes policiais que nos prenderam de maneira abusiva se sofrermos acidentes ou agressões, mas como respondido anteriormente não foi aceita a petição.

De quem era a droga e o que atesta esse fato?

A droga estava dentro das calças do policial encapuzado o qual arrombou uma das janelas e a jogou pra dentro do meu escritório, foi João enquanto estava sendo preso que viu o homem arrombando e jogando. Como prova existem as marcas de arrombamento até hoje na janela, e várias pessoas na rua viram esse quarto homem encapuzado que teve a presença omitida nos depoimentos dos três policiais. Ele aproveitou para entrar em minha casa sozinho, enquanto mandaram eu descer para abrir a porta para os outros dois policiais que não escalaram a casa e João estava algemado no chão, para colocar a droga que havia sido jogada para dentro em uma gaveta do meu escritório - tanto que quando subimos de volta com os policiais para fazerem a busca da droga não demoraram nem dois minutos, jogaram algumas bolsas no chão pra bagunçar, pegaram a droga e o próprio homem encapuzado deu a voz de prisão ao abrir a gaveta, sem procurar nada.

***

Espera-se que a justiça possa de fato vigorar nesse processo e que ao casal Karllana e João seja permitida a volta ao seu cotidiano. Infelizmente as marcas que esse episódio de abuso de poder e autoritarismo da polícia gerou são profundas e mais uma vez explicitam as contradições e desigualdades sociais fomentadas por uma cultura de segurança pública punitivista, corrupta e militarizada.

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