OPINIÃO

Por que recusar Exhibit B

17/08/2015 22:08 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

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A despeito de todas as argumentações de ativistas ingleses e franceses contra a apresentação da obra Exhibit B em seus países, precisamos nós, brasileiros, formular nosso posicionamento para que o debate sobre a participação do trabalho do diretor sul-africano Brett Bailey na Mostra Internacional de Teatro de São Paulo seja baseada em uma reflexão verdadeiramente crítica e propositiva no que diz respeito à discussão de raça, cultura e estética em nosso país.

Exhibit B é uma instalação sustentada na experiência do voyerismo para expor o colonialismo racista europeu impingido aos povos africanos.

A resolução formal do tema se dá a partir de uma instalação-performance de homens e mulheres negros amordaçados, aprisionados em estruturas de tortura, controle e silenciamento remissivas aos contextos escravocratas. O que Brett Bailey organiza em Exhibit B é uma espécie de edição fragmentada de situações em que os negros foram violentados física e simbolicamente de modo a criar uma espécie de zoológico humano através do qual o público branco europeu teria um contato "visceral" com a responsabilidade (ou culpa?) política do massacre racial promovido por seu continente.

As artes cênicas em geral são valiosas armas para o combate de afirmações normativas, preconceituosas e discriminatórias. Sua potencialidade de desnaturalização da ordem é exatamente o que torna o teatro, a dança, a performance, o happening etc. linguagens geneticamente políticas mesmo quando não se tem a intenção de explorá-las dessa forma.

Pelo estudo da história do teatro, sabe-se que a cena foi muito usada para responder as questões emergentes de distintos períodos históricos. No seio da teoria teatral encontram-se, por exemplo, significativas análises sobre as tragédias gregas e sua relação pedagógica com as cidades-Estado na Antiguidade Clássica. O berço da cultura ocidental é diretamente associado à força dos mitos públicos, ancestrais, editados sob os códigos teatrais da época (balizados sobretudo por uma perspectiva não-realista de representação), previamente conhecidos pelos espectadores das tragédias. Essa metodologia, com efeito, garantia o reconhecimento das personagens como referenciais cujas ações podiam gerar nos cidadãos (os homens livres) aproximação e distanciamento críticos, terror e piedade, sentimentos voltados para a aprendizagem.

Importante nesse recorte do teatro grego era a interlocução pública entre os espectadores e a ação das personagens cujos conflitos transcendiam as questões de caráter individual. Pode-se dizer que o herói trágico se constitui antes de tudo como um modelo simbólico, a sugestão de um ideal e de um proceder.

Se a teoria teatral ensinada nos cursos técnicos e superiores de artes cênicas ainda não contempla os percursos artísticos e as elaborações simbólicas das populações não-brancas do globo, pelo menos podemos nos valer dela para analisar um efeito poderoso que a linguagem teatral organiza a partir de seus dispositivos estéticos: a presentificação.

No caso de Exhibit B, a atualização de um mito - uma ficção histórica amplamente reconhecível - torna-se um impasse ético na medida em que a experiência proposta na instalação se dá pelas vias da objetificação presente de atores e atrizes negros. A materialização da dor de um povo através do desenho de uma realidade desumanizadora se faz contraditória: mais uma vez a figura do negro, constituindo uma representação metonímica na qual indivíduos configuram uma ideia de coletivo, é tratada como vasilhame preenchido por uma ideologia dominante.

Brett Bailey disse em entrevista que está disposto a criticar o racismo que tem consumido ao longo de tanto tempo a população sul-africana a qual ele pertence, embora seja branco e portanto possua os privilégios reservados historicamente a sua casta racial. A partir desse ponto podemos levantar uma primeira questão passível de desdobramento: quem fala sobre um determinado tema nas artes precisa necessariamente ser afetado de forma direta por ele? Isso é, Brett Bailey, sendo um homem branco, estaria habilitado a construir um discurso estético supostamente racialista?

A atividade incansável dos militantes negros brasileiros para barrar a entrada de Exhibit B no país nos responde: Brett Bailey não deve se apossar de uma dor histórica e protagonizar a crítica ao colonialismo europeu em nome de uma comunidade da qual não faz parte.

É reconhecido e respeitado politicamente o apoio de aliados brancos no decorrer da história de empoderamento e emancipação dos povos negros no continente americano, no entanto, o tempo em que estamos exige revisão do que significa ser autor de um discurso político sobre raça, gênero e classe social nas artes e nos demais campos da comunicação social. Não se trata de vetar a possibilidade de um homem discutir questões de gênero, de pessoas ricas discutirem a pobreza ou de pessoas de cor branca discutirem questões raciais publicamente, mas sim de pautar o lugar de fala desses interlocutores e a maneira como emitem suas opiniões, sobretudo nos pleitos artísticos em que os processos subjetivos inerentes à criação muitas vezes geram o sequestro da experiência daquele que é falado, tornando-a um simulacro de si mesma.

Existem negros e indígenas ponderando - também poeticamente - sobre nossas problemáticas raciais e ainda assim essas pessoas permanecem relegadas à invisibilidade social pelas diretrizes também excludentes que ordenam o mercado das artes no Brasil e no mundo. Metaforicamente, cada Brett Bailey que surge a versar sobre a condição dos negros na História, solapa um diretor ou diretora negros que, em desvio do lugar comum, estão discutindo a apropriação cultural, o silenciamento das comunidades negras e lutando pela desconstrução, no campo social e dos símbolos culturais, do ideário do negro como objeto - objeto esse tão explorado por Bailey em sua obra para gerar constrangimento no espectador (será mesmo pela a punição moralizante que conseguiremos pautar a consciência da justiça social?).

Fica dessa reflexão uma segunda pergunta a ser trabalhada: por que, nas artes cênicas, para falar de opressão precisamos representar a opressão? Por que não buscar uma teia de idéias semelhantes, referentes, de poder imagético associativo, que possam dar conta da crítica ao discurso opressor sem ter de realizar em ato o seu enunciado? Talvez em resposta a essa escassez de imaginação da arte contemporânea também esteja se erguendo o pensamento e a voz das sociedades periféricas.

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