OPINIÃO

Pagu Apaixonada

27/10/2015 19:11 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

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Patrícia Galvão, Pagu, é talvez uma das poucas militantes do Partido Comunista reconhecidas historicamente. Ainda assim, o olhar que se lança sobre ela muitas vezes está atrelado a uma expectativa revolucionária de esquerda que, embora tenha legitimidade por suas intenções libertárias, na maioria das vezes é desprovida de profundidade crítica no que diz respeito à questão de gênero na política brasileira.

O espetáculo Diário de Uma Revolucionária, apresentado recentemente no mês de setembro no espaço da Companhia Do Feijão, no centro de São Paulo, é baseado no diário Paixão Pagu. Esse material foi escrito por Pagu na prisão onde a militante foi encarcerada, no período da ditadura Vargas.

Na peça, os espectadores assistem à representação da história de uma Pagu multifacetada, interpretada de modo coletivo por cinco atrizes que, em termos narrativos, constroem a cada cena o percurso da militante - dos primórdios de sua participação no Partido Comunista até os anos de maturidade, quando as questões da atividade clandestina tornam-se nós políticos e subjetivos, ora prazerosos, ora angustiantes.

A relação entre a militância de Pagu e sua condição de mulher se faz uma estrutura importante na peça uma vez que vários episódios apresentados evidenciam a opressão de gênero vivida dentro e fora do Partido Comunista. Pagu, que em diversos momentos produziu análises refinadas sobre os quadros políticos vividos, muitas vezes foi impelida a realizar ações degradantes em nome do Partido, de modo a ser sistematicamente encaixada em um modelo de mulher previsto pelo machismo patriarcal. A militante foi usada como moeda de troca sexual para garantir informações em várias missões que integrou, por exemplo.

O conflito e a opressão de gênero são sublinhados pelo fato de a cena ser composta apenas por atrizes. O olhar masculino da direção, nesse sentindo, não interfere de modo autoritário na poética dos corpos e no discurso da forma. As opções de encenação priorizam uma estrutura épica de desenvolvimento da peça, de modo a produzir um efeito interessante de distanciamento não apenas das atrizes em relação às personagens interpretadas, mas também da própria figura do diretor, um homem, diante de um material referencial evidentemente feminista. O espetáculo Diário de Uma Revolucionária se apresenta como uma espécie de justiçamento, reconhecimento político do protagonismo de uma mulher na História do comunismo brasileiro, à luz dos acontecimentos no estado de São Paulo.

Há que se evocar os nomes de outras mulheres que participaram ativamente das transformações históricas latinoamericanas através da construção de quadros políticos e sócio-culturais revolucionários. Tereza de Benguela, Dandara dos Palmares, Alzira Soriano de Souza, Lélia Gonzales, Carolina Maria de Jesus, quando relembradas por jovens militantes das diversas frentes feministas compostas na atualidade, desmantelam a velha prática sexista da historiografia e do teatro político que enfatiza as ações dos homens de modo nuclear sem considerar recortes importantes, de gênero e raciais, que incontestavelmente democratizariam as conquistas e avanços políticos responsáveis pelas mudanças em nosso país e na América Latina.

No ano de 1965, através do espetáculo Arena Conta Zumbi, Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri trouxeram ao debate estético-político a presença de Zumbi dos Palmares, personagem importante da resistência negra no período colonial. No momento histórico em que a peça foi apresentada, Zumbi era invisível nos tratados da História nacional, ou seja, mais uma vez o silenciamento simbólico sobre a negritude formadora do país tentava estabelecer uma diretriz absolutamente branca para estruturar os processos de abolição da escravatura e de luta do povo preto.

Assim como a questão racial, a problemática de gênero na História se apresenta também como uma demanda a ser observada cada vez mais profundamente pelos grupos de ação artística no estado de São Paulo.

Como comentado, Patrícia Galvão muitas vezes foi sujeitada, por suas lideranças do Partido Comunista, à violência sexual e moral em troca de alguma informação ou material importante para dar prosseguimento aos trabalhos revolucionários. No teatro, sobretudo nas produções comerciais, as mulheres até hoje permanecem sob o jugo da moral e do machismo.

Embora a criação artística seja apreciada como um espaço de experimentação e liberdade, muitas vezes certos costumes tradicionais de diminuição e objetificação da presença feminina permanecem intactos, como se fossem verdades naturais de toda e qualquer relação produtiva entre homens e mulheres.

Ser atriz, mesmo no século XXI, aparentemente é um convite à invasão sexual e ao abuso. O famigerado "teste do sofá" se estendeu na História enquanto exercício de poder em que diretores, produtores, dramaturgos homens precisam comprovar a própria autoridade aliciando jovens artistas em testes muito pouco associados à desenvoltura e inteligência cênica.

O lobby sexual no mercado das artes cênicas é um tema delicado, toca inclusive uma juventude de rapazes homossexuais que surgem no cenário teatral muitas vezes como discípulos gregos de artistas consagrados - o que não seria um problema de gênero, não houvesse uma ponte entre sexo e trabalho institucionalizando de modo hierárquico alguns rituais iniciáticos, aparentemente inofensivos quando baseados em uma espécie de "pathos Dionisíaco".

Por outro lado, é interessante ver o aumento de mulheres ocupando os postos historicamente reservados aos homens nas artes contemporâneas. Nos quatro cantos do país, interessantes encenadoras associadas ou não à academia criam, pela força dos modos de produção e da pesquisa estética intrínseca à vivência de gênero, um panorama bastante rico de obras artísticas no teatro, na dança e na performance. Maria Thais Lima Santos, Cibele Forjaz, Grace Passô, Wlad Lima, Lu Favoreto, Marcela Levi, Lucía Russo, Sayonara Pereira, Roberta Estrela D'Alva, Cláudia Schapira, Ligia Tourinho, dentre outras, são alguns nomes do cenário do sudeste e norte brasileiros.

Também importante salientar que as funções técnicas anteriormente associadas à força e habilidade masculinas, como iluminação, cenotecnia e sonoplastia, também cada vez mais têm sido realizadas de modo excelente e criativo por mulheres. Parece pouco, mas a desconstrução de algumas normas simbólicas e materiais a respeito da elaboração artística/intelectual e da execução técnica, é uma conquista importante para as transformações sociais, políticas e estéticas de gênero. Pagu respira.

Ficha Técnica do Espetáculo

Direção e Dramaturgia: Pedro Pires

Elenco: Inês Soares Martins, Mila Fogaça, Natália Xavier, Thais Podestá e Vanessa Garcia

Cenário: Pedro Pires

Figurino: Natália Xavier e Arieli Marcondes

Trilha sonora: Pedro Pires

Iluminação: Pedro Pires e Zernesto Pessoa

Operação de luz: Marina Miguel

Operação de som: Luana Gurther

Arte gráfica: Angela Ribeiro

Produção: Suzana Muniz

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