OPINIÃO

Em 'Why the Horse?', Maria Alice Vergueiro encena a própria morte

24/04/2015 15:03 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02
divulgação

Em cartaz até o dia 10 de maio no SESC Santana em São Paulo, o espetáculo "Why The Horse?" do Grupo Pândega de Teatro, ataca um tema bastante discutido nas arenas teatrais: a morte - mas ao contrário do fetiche romântico verificável em várias das encenações a propósito do tema, "Why The Horse?" não é apresentada apenas como uma reflexão filosófica sobre a finitude da vida, pelo contrário, no espetáculo a idéia da morte é construída sobre um alicerce real e prático incontestável: a protagonista do espetáculo tem 80 anos e está, de fato, morrendo. Maria Alice Vergueiro além de ser a diretora da peça, incorpora a si mesma e atua como anfitriã e homenageada no velório/cena.

A morte natural e social, diferentemente das datas de celebrações civis, de aniversários e até mesmo do nascimento (que se manifesta passível de multiplicação simbólica em algumas culturas e religiões), é um evento único, desfecho da atividade humana na realidade material. Abandono do mundo para que o mundo continue a respirar. Os atores e as atrizes de "Why The Horse?" brincam com a qualidade transitória do evento teatral e a possibilidade de usá-la a favor da operação minuciosa de reprodução, a cada noite de espetáculo, da única ocasião da vida que não pode ser reproduzida. Maria Alice e o Pândega se valem da contradição entre a idéia do repetitivo efêmero do teatro e do irrepetível eterno da morte para constituir uma peça histórica de devaneios e esperança na cena como espaço de reflexão e experiência estética urgente, revelando - muitas vezes de modo sarcástico - uma perspectiva da morte que o dramalhão ocidental não nos permite enxergar.

No último dia 17 de abril tive a oportunidade de entrevistar Maria Alice sobre o espetáculo "Why The Horse?" e o tema da morte:

Maria Alice, como é traçada essa relação entre o teatro e a morte neste happening-peça-performance-despedida?

Minha morte é uma solenidade que a gente, o grupo, entendeu que seria bom fazer pra uma verificação de quanto tempo eu poderia realizar esse trabalho até chegar realmente o momento da minha partida. E eu tenho como interesse que exista mesmo uma possibilidade de repetição. É claro que eu não vou morrer todo dia naturalmente, então nós resolvemos que trabalharíamos com um texto, uma base de ações, que poderia ser levado até as últimas consequências mas que a gente na verdade vai dominar isso, esse problema, porque passa a ser um problema, né? Se você não pode repetir como repetir?

E como essa peça-problema se relaciona com a tua história no teatro?

Olha, na verdade, a minha história é permeada de temas que valem pra uma peça de teatro, valem pra uma performance, pra um happening, porque trata-se de uma busca temática aberta. Mas sobre isso da repetição, talvez seja uma vez mesmo que a gente faça. Na vida toda, na história toda. No caso dessa peça, pode-se repetir se quiser perpetuar, mas não é recomendável, porque nesse caso a repetição não tem nada que ver com essa ação, é uma ação esdrúxula.

A ação da peça "Why The Horse?" é esdrúxula e por isso temos um nó, porque ela não é teatro e é teatro, ela é e não é um happening, é e não é a realidade - tudo ao mesmo tempo e contraditoriamente.

Pode ser. Eu tenho um texto que é a letra de música do Brecht, "Ó Delícia de Começar", mas eu não tenho a perspectiva de tratar esse texto de um modo reprodutivo, porque o ideal é se você realmente não repetir e sim criar, ficar com isso como sendo uma forma de você atuar. Não é possível sempre repetir.

A letra dessa canção fala sobre uma espécie de corpo-máquina, um corpo que é alimentado pelo combustível do cigarro, da paixão, do óleo para começar o trabalho. Como é estar em um corpo-máquina morrendo, em processo de partida?

É mesmo um processo de partida. Eu acho que é normal, entende? Porque a gente não vai ficar para sempre mesmo. Se você encara isso ainda jovem vê de um jeito, se você encara isso em outro momento, de forma mais delineada, percebe uma existência que você pode fazer vibrar dando um fim, uma finitude nela. Eu acho que o assunto é mais possível de você elaborar à medida que você faça o ensaio disso, né? Se você achar que vai fazer um ensaio disso, você está refletindo, elaborando, se acostumando. Todos nós estamos nesse processo de morte, claro que quando você é mais velho, você chega mais próximo. Eu estou muito calma, eu estou muito tranquila, não estou desesperada nem um pouco. Achando até que isso pode ser uma forma de discernimento, uma forma de você se conhecer melhor. Eu não me acho em perigo, eu acho que eu estou buscando ainda uma forma de me retirar do processo da vida. Eu não tenho - por exemplo - pudor, medo, pelo contrário, eu estou agindo, agindo como se nada tivesse acontecendo. Estamos juntos com o grupo, estamos fazendo piada. É uma forma - como dizem - de chegar à vida e não se afastar dela. Isso está na peça. Você viu a peça? O que achou?

Acho que é um evento que não poderia ser repetido, porque é muito grandioso e muito triste também. Eu não poderia assistir novamente à peça.

Por que?

Porque não consigo dar conta da vivência estética ali da morte.

Eu também. Eu também não conseguiria.