OPINIÃO

Elogio ao Teatro Marciano

29/05/2015 17:39 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:19 -02
Humphrey King/Flickr
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Quando for possível viver em Marte talvez se torne também possível a realização do grande teatro destituído de sentido político e social - e de modo algum ele será chamado criticamente de "arte vazia" uma vez que o conceito de "vazio" também não admitirá a mesma significação que atualmente a filosofia ocidental e os estudos demográficos planejados pelo Estado costumam usar.

Não.

Em Marte a ideia da "arte vazia" não estará pautada na ausência de significados tampouco na ausência de espectadores. Em Marte isso não será uma questão. Os teatros estarão vazios, bem como os cinemas, bem como os saraus, bem como as rodas pedagógicas de conversa, e esse fato será legitimado nos livros de História a serem escritos porque a experiência da arte marciana prescindirá de público. A experiência da arte marciana será do artista unicamente. Intransferivelmente. Apenas.

Ademais, do ponto de vista da política ambiental, os vazios físicos e poéticos operarão como zonas de economia de oxigênio (posto que o seu consumo em Marte será um imbróglio político tanto quanto atualmente é a questão da água no globo terrestre). A idéia é que as manifestações artísticas, sensíveis, estejam intimamente ligadas à regulamentação da respiração. Desse modo, em Marte, só se manterá vivo aquele que puder ter acesso a uma boa e bela obra espetacular. Toda construção poética relacionando o ato de existir à ação representativa ou ficcional caracterizará materialmente a realidade. Em Marte, portanto, todo poema que venha a tecer relações entre a vida e a arte será sepultado enquanto símbolo e canonizado enquanto concretude.

Mas não se doerá a humanidade. A humanidade em Marte, nesse ponto, já terá se habituado à morte da poesia.

Nota-se a partir das projeções apresentadas que em Marte a produção cultural antecederá a formação da cultura marciana. Essa observação pode ser compreendida a partir do pressuposto de que a cultura marciana não existe. O planetinha analfabeto e desabitado ainda espera com o peito nu o momento em que as labaredas do fogo terrestre forjem em sua pele a posse e a profecia sobre os tempos vindouros.

Em Marte não houve 400 anos de escravidão e sua historiografia humana recente não permitirá que as pessoas sem percepção estética, distantes racialmente das cifras fundamentais da arte contemporânea e/ou artistas menores, possam problematizar o contexto de utilização das linguagens artísticas em geral e, especificamente, da criação teatral.

Ali poderá se realizar o grande planejamento estético dos gênios: um processo de criação blindada e imune às discussões oportunistas sobre a relevância da produção cultural associada à raça, classe, gênero, às expressões regionais, populares - em suma, associada à cultura. Em Marte as obviedades serão superadas e a cultura nada terá a ver com a cultura. Terá a ver, suponhamos, com petróleo e crédito bancário.

E como quem tomba violentamente a mulher desejada com um longo beijo, conquistar-se-á o território marciano preenchendo-o de saberes e significados. Eis a voz dos deuses-astronautas agora em nossa garganta, nos sons e silêncios da poderosa metrópole envolvida em transações ultraespaciais, rumo às terras virgens de além-céu. Buscam-se através de bússolas, astrolábios e mapas virtuais inúmeras rotas que facilitem a exploração do universo. O caminho das Índias. O caminho do açougue.

Marte é o quarto planeta mais próximo do sol, perdendo apenas para Mercúrio, Vênus e a própria Terra de onde podemos alcançá-lo às vistas nuas, sem ajuda de telescópio. Esse planetinha tem a atmosfera rarefeita e é muito semelhante ao globo terrestre em alguns aspectos como, por exemplo, sua formação atmosférica composta por elementos como gás carbônico, nitrogênio, argônio e o supracitado oxigênio. Essas deliciosas e fundamentais informações sobre Marte alimentam nossos sonhos nada distantes sobre o seu povoamento. Munidos com nossos cachecóis, logins, produtoras culturais, teóricos alemães e avatares, desbravaremos a densa mata fechada - sem lei e à sombra.

Torçamos para que os nossos patrimoniais gênios tenham milhas suficientes para realizarem essa longa e experiencial viagem ultraceleste.

Mas é necessário avisar, nem tudo são flores:

Só um mero e importante detalhe poderá demover esse projeto cruzadista de implantação da cultura maior: se de repente, em Marte, houver marcianos, alienígenas, esses primitivos, esses selvagens, esses bichos...