OPINIÃO

Das entranhas das bonecas quebradas

05/10/2015 15:36 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Divulgação

A idéia de auscultar uma boneca já parece suficientemente provocativa. O espetáculo Bonecas Quebradas da produtora Bonecas Quebradas aquece o teatro em sua melhor categoria histórica: o debate de um tema público à luz da criação estética.

Pude conversar com as idealizadoras do projeto, Lígia Tourinho e Luciana Mitkiewicz.

Nas três perguntas realizadas, as atrizes-pesquisadoras apontaram elementos substanciais ao debate sobre o feminicídio na América Latina e à discussão estética de gênero.

Como surgiu o Bonecas Quebradas? De onde veio o desejo de "auscultar a imagem da Boneca Quebrada"?

A ideia do projeto Bonecas Quebradas nasceu por meio de um processo colaborativo de construção de cena e dramaturgia, que inclui na criação nomes como Ileana Diéguez (consultoria teórica) João das Neves (dramaturgia), Verônica Fabrini (encenação), Isa Kopelman, Luciana Mitkiewicz e Lígia Tourinho (elenco), Rodrigo Cohen (cenário e figurinos).

Amparada pelo conceito de Anima Mundi, de James Hillman, e de objects-trouvés, de Kantor, a ideia motriz do projeto era a de ouvir a espectralidade que atravessa as bonecas quebradas da Isla de las Muñecas mexicana, a patologia que nelas grita. Em fevereiro de 2015, a equipe de criação foi ao México para aprofundamento da pesquisa da construção do espetáculo. A partir disso, os rumos do projeto começaram a se delinear melhor e a delimitar uma história desconhecida e assustadora: desde a década de 1990, 2.000 mulheres foram assassinadas e 4.000 desapareceram em Ciudad Juarez, na fronteira com El Paso, no Texas. Uma trama que entrelaça feminicídio, capitalismo transnacional e conservadorismo machista na fronteira com o maior consumidor de drogas do mundo: os EUA.

Tecida entre o poético e o documental não-linear, com momentos de alusão ao oratório, típico dos coros gregos, a dramaturgia lança uma luz sobre a história dos assassinatos em Juarez e sobre a continuidade desses crimes: as jovens assassinadas são peças de uma perversa engrenagem. De mão de obra barata, convertem-se em objeto de prazer sádico e de disputa de poder entre narcotraficantes e empresários locais. A impunidade conta com a cumplicidade de uma polícia e de um governo corruptos, que apresentam culpados de fachadas. O feminicídio em Cuidad Juarez é de outra natureza, ainda mais cruel, mais perversa, mais monstruosa e, por isso mesmo, exemplar.

O dramaturgo João das Neves propôs um recorte espacial para a trama, buscando contrastar a riqueza de saberes e culturas ligadas ao cultivo do algodão com a morbidez dos "sembramientos" (desova) de corpos nesses locais.

No espetáculo de vocês há um claro recorte de raça, gênero e classe tratado com muito cuidado pelas vias da performance e da linguagem épica. Como se deu esse "resultado"? Por que essa escolha estética?

Os recortes são resultado dessa abertura a auscultar a imagem da Boneca Quebrada por uma via documental. Durante a pesquisa de campo e o processo de criação realizados no México, o tema da violência contra a mulher, desenhado com requintes sacrificiais e com um contorno urbano e neoliberal, vieram à tona e, de forma pulsante, se fizeram texto e cena.

Partimos de uma escuta sobre os documentos e fatos, sobre as experiências da equipe, partilhados no México e continuados no Brasil, que nos remeteram ao deserto, ao campo algodoeiro, à violência contra as mulheres e crianças, aos massacres neoliberais dos povos originários. Não foi uma escolha de denúncia desse massacre de mulheres, em sua maioria pobres e de origem indígena, não fizemos um recorte de raça, gênero e classe, mas o contrário, em sua maioria, essas são as características das vítimas.

Como no Brasil, a violência contra as mulheres negras é assustadoramente maior do que contra as mulheres brancas. Estamos ainda muito distantes da idealizada igualdade de gênero e de etnias.

Em que medida as teorias feministas permeiam o processo criativo de vocês e se, como mulheres, sentem-se diretamente afetadas pelo tema?

Nossa peça ativa a denúncia e adentra no campo do artevismo. Porém, a força do mito também guia nossa dramaturgia. Evidentemente, é uma guia oposta ao modo como a questão mítica é tratada nesse caso.

Nossa proposta convoca a força mítica ancestral da grande mãe, da Terra (Gaia). Ao convocar a ancestralidade dos povos originários e denunciar o feminicídio, aliado a uma continuidade da exploração e do massacre contra os povos originários, convocamos também o tecer e a ancestralidade mítica das "Choronas" mexicanas.

As mães dessas jovens trazem a força ancestral do mito da Chokani ou de La Llorona, a mais famosa lenda urbana local, que conta a história de uma mulher indígena que teve três filhos com um cavaleiro espanhol que nunca formalizou a relação e depois se casou com uma mulher espanhola. A mais famosa versão da lenda conta que Llorona enlouqueceu de dor e afogou os seus três filhos no rio e se suicidou. Desde então, o seu fantasma grita por seus filhos. É evidente a aproximação dessa lenda com o Mito de Medeia.

Há, porém, outra versão da lenda, que diz que seus filhos foram assassinados por outra pessoa e que ela segue pela eternidade chorando por eles. Nosso trabalho cria uma teia entre o épico, o documental e o mítico: as mães dessas jovens seguem buscando por suas desaparecidas, em uma busca que para muitas se perpetua por toda sua existência, como para Chorona.

Essas jovens geralmente são culpabilizadas por sua própria morte, por serem jovens, belas, por terem saído de casa ainda escuro, para trabalhar e estudar, por retornarem às casas tarde da noite, após a escola. A inversão é regra, a culpa da violência geralmente está nas escolhas da mulher, suas roupas e rotina, e não na atitude do agressor.

As teorias feministas nos ancoram e atravessam. Como não poderia ser diferente, seguimos com um desejo de paz para uma nova Era, onde possamos lidar com mais tranquilidade e respeitar o outro, as diferenças de etnia e gênero e tantas outras.

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