OPINIÃO

Clepsidra: ideologicamente indigente

15/07/2015 14:44 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:40 -02

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Foto de Rafael Samora

Afirmar que a produção do Clepsidra se remete poeticamente ao material histórico do Clube da Esquina e da Lira Paulistana (movimentos musicais esses apresentados aos ouvidos brasileiros nas décadas de 60, 70 e 80) é uma opinião elogiosa com a qual Maurício Panzera e Renato Torres, integrantes da banda, já devem estar habituados. Contudo, há que se aprofundar essa constatação: o trabalho do Clepsidra não poderia ser valorado a partir de uma lógica comparativa, suas composições dialogam inteiramente com o Clube e com a Lira mas jamais num sentido de reedição ou citação musical e sim como densa pesquisa em que as influências se apresentam enquanto recurso e alimento poético - um mapa que orienta os caminhos e que ao mesmo tempo se refaz no decorrer da viagem. Nesse sentido, o lirismo mineiro e a desconstrução crítica paulistana, dentre outras inspirações do mundo musical e literário, se manifestam nas canções do Clepsidra como parcerias atemporais entre poetas. Trata-se, portanto, de uma longa conversa entre velhos amigos e dessa vez, faça-se justiça, a música da região norte do país também participa do jogo - não confirmando o clichê à altura, mas sim pautando por si mesma altitudes a serem tomadas por referência.

SOU CARCAÇA DE CARNE DURA

MORDEDURA DOS CANINOS

EM TEU CALCANHAR DE AQUILES

A produção deste terceiro disco do Clepsidra trava significativa relação com a letra da música também intitulada "Independente". Nessa canção os rapazes da banda criam uma espécie de manifesto sobre o caráter autônomo da produção cultural. Na letra encontramos um projeto ideologicamente indigente de mundo, de arte, de música que se revela como um estandarte estético conduzido pela levada rock 'n roll reconhecível em outras composições do Clepsidra.

Itamar Assumpção, aquele um - o desdito, Benedito santo do pau oco, se faz uma motivação simbólica da faixa - em tempo, o Beleléu, nego dito, cascavel Itamar, junto à banda Isca de Polícia, foi uma das principais cabeças pensantes das vanguardas musicais de São Paulo na década de 70 e 80, armadas até os dentes contra os protocolos mesquinhos das grandes gravadoras e da indústria cultural.

Renato Torres (guitarra e voz) nos conta que a banda sempre foi, desde o seu início em 2001, uma proposta musical experimental. Ele e Maurício Panzera (baixo) se dispuseram a dispender o tempo necessário para a formulação dos resultados desejados. Essa postura em relação à criação de um disco e de uma banda já contradiz os aspectos atualmente definidores da produção cultural no estado do Pará e no restante do país em que o mercado das artes é regido pela urgência dos processos criativos para que resultem, antes de tudo, em lucro financeiro.

No decorrer da gestação da linguagem do Clepsidra, Renato e Panzera puderam se relacionar também com outros projetos em Belém, dialogando com diversos artistas da cidade. Desse modo os dois músicos foram pouco a pouco construindo uma certa reputação que, ao longo dos dois primeiros discos do Clepsidra ("Bem Musical", lançado em 2004, e "Tempo Líquido", lançado em 2006 - ambos pelo selo Na Music), já apresentava uma "estatura de linguagem, de semântica musical", segundo Renato, relacionadas à movimentação musical urbana que ele e Panzera integravam em paralelo ao trabalho na banda.

"Ao chegarmos ao 'Independente', nosso terceiro disco, que estamos lançando agora, a banda já era um trio (com o baterista Arthur Kunz, hoje da banda Strobo), e percebemos que essa linguagem estava em tal grau de apuro que poderíamos gravar um disco onde só nós tocássemos, sem músicos adicionais (o que acontece nos dois primeiros trabalhos). Ou seja, o conceito de independência começou por essa decisão radical, que partiu do Kunz mas que imediatamente nos convenceu que esse era o passo óbvio. Gravamos o disco depois de ganhar num edital uma carta de lei de incentivo municipal, mas não conseguimos captar um centavo. Nossa vontade de fazer o disco era tanta que resolvemos financiá-lo de nossos bolsos. Terminamos essa etapa de gravação em 2010. Depois disso, o disco ficou engavetado por algum tempo, até conseguirmos um apoio para mixar e masterizar, e mais um tempo para conseguir finalizar a arte gráfica. Ao cabo de cinco anos, chegamos finalmente ao disco físico, em parceria com o Ná Figueredo.".

Renato também nos conta que o disco "Independente" seja provavelmente o resultado da trajetória mais simbólica da banda, uma vez que o trabalho foi realizado no decorrer de um longo prazo, sem financiamento institucional público ou privado, em uma situação na qual os músicos, apesar do auxílio e apoio de alguns amigos, tiveram de contar acima de tudo com as próprias forças criativas e materiais.

"Foi uma espécie de Via Crucis onde muito do que somos hoje foi forjado, uma certeza de que é preciso tomar as rédeas de todo o processo - ainda mais se você faz um trabalho como o nosso, sem apelo comercial, experimental, personalíssimo. 'Independente' é, por assim dizer, um 'disco conceitual involuntário' porque não foi pensado pra ser conceitual mas acabou adquirindo por obra do processo esse status. Hoje temos essa leitura dele.".

COURAÇA, CAROÇO, GROTÃO

GRUTA ESCURA, GRÃO DE BICO QUIETO

FETO DE FURACÃO

"Independente" afirma seu processo criativo minucioso a cada faixa e desvela uma busca por um discurso melódico, harmônico e textual que geram no ouvinte uma curiosidade não somente musical mas também literária. As letras do disco, a maioria delas escritas por Renato Torres (à exceção de "Voragem" de Larissa Medeiros, e Além-Mar, escrita a quatro mãos com Dionelpho Jr.), são constituídas por uma trama poética viva, móvel, repleta de metáforas, aliterações e outros dispositivos-alçapões da escrita poemática. Perguntei ao Renato também como se organizam os processos criativos do Clepsidra:

"Eu e Panzera somos parceiros há muito tempo e temos uma dinâmica um tanto fluídica, sem planejamentos. Quando iniciamos o projeto pesquisamos na época arranjos produzidos com sequenciadores, no computador, criando assim um disco com bastante influência da música eletrônica e eletroacústica, o 'Bem Musical'.

Quando partimos pro segundo disco, a intenção já era criar um trabalho em torno do nome da banda (Clepsidra significa relógio de água). Reunimos então canções que falavam sobre um ser e estar urbanos na Amazônia, mais especificamente em Belém, metrópole que reúne impulsos de capital, de cidade grande, e influxos íntimos, ulteriores, de província, e mais fundo ainda, da temperatura afetiva dos interiores do Pará. O disco então fala sobre essa nossa identidade híbrida. O resultado gerou uma epígrafe que voltamos a usar no encarte de 'Independente', um verso retirado da canção 'Tempo Líquido' (Renato Torres e Daiane Gasparetto): 'tempo grande, água pequena' - frase de grande efeito simbólico em tempos que se alargam velozmente, e onde os afetos estão rarefeitos. Já o processo de 'Independente' foi mais tecnicamente musical, por influência de nosso terceiro membro à época, o baterista Arthur Kunz, o que gerou nosso disco mais polido, mais bem acabado tecnicamente falando. Foi a primeira vez que fizemos uma pré-produção com métodos mais profissionais, experimentando os arranjos cuidadosamente antes de gravá-los em definitivo.".

E ME ATIREI NO MUNDO

VORAZ PROFUNDO

EU INUNDEI O MUNDO, ARRISQUEI

Diante dessa recusa aos procedimentos mercadológicos no ambiente musical em Belém, Renato decidiu também investir em uma forma de suporte técnico alternativo que desse conta de suas composições. O Guamundo Home Studio, de acordo com Renato, está intimamente ligado ao percurso do Clepsidra porque tem suas raízes no mesmo período em que ele e Panzera começaram a experimentar softwares e outros recursos de gravação caseira.

Ainda demorariam alguns anos de aprendizado e de aquisição de equipamentos para que Renato começasse a pensar no Home Studio como uma estrutura viável para dar suporte aos seus trabalhos e aos de outros artistas que também buscassem meios autogeridos de produção. Determinante nesse percurso foi Renato ter começado a investir em sua carreira solo (o que deu origem ao projeto "Vida é Sonho" como show, e agora como Compact Disc).

"Consegui durante dois anos seguidos, 2012 e 2013 cartas da Lei Semear para gravar o disco solo, mas não consegui (novamente!) captar nenhuma das duas. Some-se a isso o fato de ter tentado também o edital Natura Musical, sem sucesso. A frustração desses acontecimentos me levou à opção inevitável: decretar minha total independência dos editais tradicionais (afeitos às particularidades pitorescas da chamada Nova Música do Pará) e passar a me concentrar seriamente na produção musical no Home Studio, atingindo os resultados mais profissionais que eu pudesse atingir. Comecei a mergulhar de vez na engenharia de som, até que em dezembro de 2014, depois de pesar muito as responsabilidades, resolvi abrir oficialmente a página do Guamundo Home Studio no Facebook, além de um perfil no Soundcloud, com logomarca e tudo. Desse modo, dá pra perceber que o Guamundo tem um recorte específico: não é (como tudo o que eu faço) um 'estúdio tradicional', com fins estritamente comerciais. Há planos do Guamundo virar um selo de novos artistas independentes que tenham essa marca pessoal, que produzam música com preocupações estéticas, digamos, menos pernósticas e mais humanas. Dificilmente gravarei ou muito menos produzirei um artista no Guamundo que tenha intenções meramente comerciais. Pra isso, existe um mercado cheio de ótimos estúdios e produtores altamente capacitados. Meu interesse é que o Guamundo funcione como um vetor criativo, horizontal e produtivo para a realização e fortalecimento de uma cena que, de outro modo, não conseguiria resistir ao massacre vertical dos editais excludentes."

O Clepsidra forja em sua trajetória passos de resistência estética, tanto no âmbito da composição musical, seus processos, seus métodos e experimentações formais, quanto no âmbito da relação entre o trabalho artístico e a cidade, emancipando os processos de criação, divulgação e distribuição da música em Belém e organizando vias alternativas de contato com o público, na tentativa de escapar da naturalizada estrutura das grandes gravadoras. E para tanto desejo, haja vida e Voragem.