OPINIÃO

Cantor Liniker é a renovação das manifestações sensíveis das quais tanto necessitamos

09/11/2015 21:41 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

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Encontro Liniker na catraca do metrô Consolação em meio à caótica Avenida Paulista. De longe o reconheço dos canais virtuais: um rapaz lindo, com um brinco grande pendurado em uma das orelhas, observando para ver se conseguia me encontrar na multidão de transeuntes - combinamos tudo por telefone mas jamais nos vimos ao vivo.

Eu me apresento e, assim mais próximos um do outro, consigo notar um olhar e um sorriso carregados de peso ancestral e, ao mesmo tempo, de uma espontaneidade típica da juventude. Liniker está no tempo de seus vinte anos. Surpreendo-me ao saber da pouca idade que só descubro na metade de nossa conversa.

Ao assistir aos vídeos das canções Caeu, Louise Du Brésil e Zero (viralizadas nas últimas semanas nas redes sociais), imaginei que o cantor fosse jovem mas não tanto, isso porque sua performance em cena, entoando sobre amores intensamente vividos, é de uma compreensão profunda sobre si, sobre a própria voz e sobre o próprio corpo. Uma profundidade singular, característica das almas antigas desse mundo onde, dentre tantas personalidades artísticas interessantes, surge de quando em quando, nos saltos das décadas de nossa cultura, uma pedra rara pinçada do fundo do rio que se apresenta como uma espécie de respiro - uma renovação das manifestações sensíveis das quais tanto necessitamos.

Nós, ouvintes ávidos por algo que surpreenda nosso preciosismo barato a afirmar todo o tempo que já conhecemos todos os gêneros musicais, toda a poética, todos os tratados melódicos e harmônicos possíveis. Liniker, pois bem, é esse tesouro secular, essa pérola negra, de rara e dura aparição.

E por pensar em pérolas negras, eu comento: "você é como o Luiz Melodia, tem essa sensibilidade estranha, potente, essa negritude gritante não só na pele mas também na voz". Ele responde de modo tranquilo, recebendo minha admiração de peito aberto:

"O Luiz é uma referência... Mas minha maior influência vem de casa, porque minha família inteira é de músicos. Meus tios são músicos, meu avô era músico. Então eu acordava domingo de manhã, meus tios estavam tocando cavaquinho em casa. A música sempre esteve muito presente em minha vida. Minha mãe teve um grupo de samba. Aí tudo isso foi me enchendo, me enchendo, me enchendo até uma hora em que eu falei: eu preciso deixar isso sair, preciso pôr isso pra fora, essa música que eu ouço precisa ser verbo, precisa ser falada. Então eu comecei a compor, comecei a compor com dezesseis anos."

Liniker, além da música também passeia por outras dimensões das artes do corpo, já estudou dança em Araraquara, interior de São Paulo, sua cidade de origem, e hoje faz curso de teatro na Escola Livre de Teatro de Santo André. Pergunto a ele sobre a relação entre a sua performance como cantor e as artes cênicas.

"Comecei a cantar, na verdade, fazendo teatro. Fazia teatro em Araraquara e teve uma peça que seria musical, pra entrar na peça eu tive que cantar e quando aconteceu as pessoas ficaram impressionadas. (...)Tem muita influência do teatro. Eu sou uma pessoa mais retraída, embora use brinco e seja grande. Mas quando eu tô cantando, eu sinto que eu vou para um outro espaço. Eu estou sendo eu ali inteiro. Ali eu posso dizer o que eu quero. Fazer teatro me instrumentaliza em muitas coisas nesse sentido. Eu fiz dança também um tempo, acho que esse corpo que vai com a música, que vai pra palavra, que explode com a melodia tem muita influência dessas atividades", disse ele.

Pergunto também sobre a discussão de gênero formalizada em sua música. As composições apresentadas ao público através das redes sociais anunciam uma relação que não atende a uma autenticação tradicional de gênero. O amor em Liniker é um tema atacado de modo metafórico e ainda assim conserva em seu discurso uma objetividade política: não se trata de um apaixonamento heteronormativo e tradicional, é mais e além: é diverso.

Na relação descrita em Zero, por exemplo, "Peguei até o que era mais normal de nós/ E coube tudo na malinha de mão do meu coração". Até mesmo o aspecto clichê romântico do amor integra a pluralidade afetiva narrada por Liniker.

"Com o amor eu preciso ter um certo cuidado. Porque eu valorizo muito esse sentimento, então eu preciso tratá-lo com cuidado. Eu trouxe o amor pra arte, eu componho sobre isso. Com cuidado. Todas as músicas são sobre homens. Na verdade, as músicas eram cartas de relações que eu tive e aí um depois de muita amargura, eu pensei: preciso colocar isso no mundo, isso não pode ser só meu. Cada música eu falo de alguém, de uma relação que eu tive", explicou Liniker.

E os aparatos "femininos" usados nos vídeos?

"Essa questão do gênero, de usar brinco, usar maquiagem, usar saia, foi tão orgânica pra mim. Acho que é reflexo de minha geração, de uma coisa muito forte de transformação que tem nos atravessado. Eu e minha mãe temos uma relação muito próxima, então quando eu era criança eu tinha muita vontade de usar as roupas dela, as coisas dela, então um dia ela me deu um brinco. Depois de um tempo, eu vim pra São Paulo e foi quando eu percebi que eu podia ser eu, que eu podia me vestir do meu jeito, e que eu tinha um corpo político de uma liberdade que era minha. Quando me perguntam se eu sou trans eu digo: eu não sei, talvez eu não tenha uma nomenclatura, talvez a minha definição de gênero seja a liberdade."

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