OPINIÃO

A poética transformadora dos deslizamentos

03/11/2015 20:30 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

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(...)Em 1802, pouco depois de Toussant-Louverture - caudilho dos exércitos escravos - ser preso, o general Leclerc escreveu ao seu cunhado Napoleão: "Eis minha opinião sobre o país: há que suprimir todos os negros das montanhas, homens e mulheres, conservando-se somente as crianças menores de doze anos, exterminar a metade dos negros nas planícies e não deixar na colônia nem um só negro que use jarreteiras". (...) - As Veias Abertas da América Latina, de Eduardo Galeano

Essa passagem do texto de Galeano demonstra o genocídio vivido pela população haitiana no período da Revolução em que o país conseguiu se livrar das rédeas colonizadoras da França. Entre mil aspas, no entanto, precisamos localizar essa "libertação": a altos custos o povo haitiano viu a possibilidade de sentir um tanto mais próximos os pressupostos universais dos Direitos Humanos elaborados no período da Revolução Francesa que, do lado de lá do Atlântico, emancipava econômica, social e politicamente seu maior explorador. Galeano também nos fala sobre as imensuráveis perdas econômicas resultantes de um processo de vingança da França em relação ao Haiti que até hoje assolam o pequeno país. A Revolução Haitiana se inscreve na História do globo como marco inicial de independência da negritude nas sociedades contemporâneas e, ao mesmo tempo, como o princípio de mais uma etapa de miséria e penúria a maltratar um conjunto populacional que jamais conseguiu se reerguer economicamente.

Um terremoto no ano de 2010 soou nos canais noticiários como uma afirmação simbólica de que não é suficiente o fato de os haitianos, até a atualidade, estarem pagando uma conta histórica que não lhes pertence; diante da catástrofe natural sem precedentes, eles ainda precisariam mostrar sua força e coragem.

O projeto Cidade Vodu do grupo Teatro de Narradores, sediado na cidade de São Paulo, foi apresentado ao público no dia 27 de outubro, no espaço do Itaú Cultural, em formato de abertura de processo, ou seja, como um compartilhamento da pesquisa e das estruturas norteadoras que têm possibilitado uma abordagem teatral sobre o tema da imigração haitiana para terras brasileiras, suas nuances, políticas, sociais e, por que não?, estéticas.

Em determinado momento da abertura, nós espectadores fomos sutilmente invadidos por um som de pedras rolando, som de queda de casas, de edifícios, de paredes e telhados acossados pelo treme terra - essa composição sonoplástica se apresenta como uma potencial materialização do conceito de deslizamento que permeia essa Cidade Vodu. Nesse sentido, é iminente que o deslizar - esse deslocamento de ponto de vistas e de experiência - acabe por se tornar um aspecto elementar à linguagem do espetáculo "finalizado", cuja estreia está prevista para o primeiro semestre de 2016.

José Fernando de Azevedo, diretor do projeto, percebe ser o deslizamento um procedimento que possibilita o diálogo entre os integrantes do Teatro de Narradores e os imigrantes haitianos, artistas esses que se juntaram ao projeto ao longo de seu desenvolvimento. Segundo José Fernando, o grupo tem trabalhado o deslizamento na interpretação como uma espécie de dança épica em que os intérpretes brasileiros Renan Trindade e Teth Maiello transitam por personagens como o general Charles Leclerc, Napoleão e Paulina Bonaparte, figuras importantes no processo de espólio histórico da França sobre o Haiti.

"O deslizamento seria essa possibilidade de você sair de uma figura pra outra, de uma lógica pra outra, de tentar estranhar essa lógica em relação ao corpo (...). O grupo está num momento de descoberta do que isso pode ser."

Pergunto ao grupo sobre o trabalho à luz desse encontro entre artistas com experiência na linguagem teatral e esses novos agentes da cena, haitianos, que trazem consigo uma carga histórica pungente associada tanto ao terremoto de 2010 quanto ao processo de dominação de seus ancestrais. Em cena, esse encontro explicita um problema positivo a ser respondido pelo grupo: há uma espécie de dissonância técnica quando da ação em que atores e não-atores se relacionam, mas de forma alguma essa dissonância é silenciada na construção dos argumentos estéticos; pelo contrário, ela é um aspecto assumido e se torna a fundação de uma perspectiva outra, nova, em que a elaboração do tema da imigração se dá pelas vias do falar com e não somente do falar sobre. Essa compreensão metodológica, embora simples, pode ser transformadora no que diz respeito ao transbordamento das formas teatrais para além daqueles que têm o privilégio de seu acesso através de cursos técnicos, do mercado e da academia.

Sobre isso que chamo de problema positivo, José Fernando pondera avaliando "a dimensão das presenças, dos corpos treinados e corpos não-treinados":

"A questão não é treinar o outro corpo nos procedimentos que sejam nossos, é achar esse lugar de potência dessas presenças. (...) Trata-se de uma ocupação de espaços e produção de um ponto de vista. Esse ponto de vista pressupõe uma alteridade, enquanto a gente não fizer essa passagem, a gente não dá conta."

A pergunta levantada pelo Teatro de Narradores é: o que podemos pensar juntos? Que lugar seria esse de construção de um ponto de vista comum entre brasileiros e haitianos? No teatro, que olhar sobre as artes, a sociedade e o racismo como sistema oficializado na América Latina, pode ser inter-regionalmente, inter-racialmente, organizado?

A perspectiva de criação dessa Cidade Vodu é entusiasmante diante de um panorama em que, cristalizados, os procedimentos de elaboração da cena rapidamente se tornam canônicos, o que em certa medida os faz integrar os cadernos hegemônicos da cultura, ainda que não propositalmente - isso porque a arte precisa sempre se revirar do avesso, criticamente, para não sucumbir às apropriações de mercado que progressivamente mistificam o mais revolucionário dos discursos e reproduzem, às vezes de modo muito pouco consciente, códigos simbólicos bastante opressores de nossos quadros históricos.

Termino esse texto com uma fala de uma das artistas haitianas integrantes do projeto, Patricia Joseph: "Nós negros sabemos quem somos, você precisa saber quem você é, nossa luta foi muito grande no Haiti. Nós, negros, termos conquistado a nossa liberdade, foi a melhor coisa que poderíamos ter." - E que essa liberdade passeie cada vez mais pelos labirintos da cultura, da política e da orquestração de imaginários possíveis e imponderáveis.

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