OPINIÃO

Morin e a Unesco

21/01/2016 14:33 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
FRED DUFOUR via Getty Images
French philosopher and sociologist Edgar Morin poses on October 20, 2012 during the Cite de la Reussite in Paris. AFP PHOTO / FRED DUFOUR (Photo credit should read FRED DUFOUR/AFP/Getty Images)

As Nações Unidas encomendaram um texto a Edgar Morin: "como contribuição à reflexão internacional sobre como educar para um futuro sustentável" e ele o escreveu. E o intitulou: "Os sete saberes necessários para a educação do futuro".

Muitos de nós lemos, mas absolutamente ninguém deu a menor importância. Por quê?

"A UNESCO publica esse texto - diz a Unesco no prefácio do livro de Morin - para estimular o debate sobre a maneira como a educação pode e deve agir como força do futuro e para promover uma perspectiva transdisciplinar, frente ao grande desafio da durabilidade".

Morin avisa que deu seu sangue no livrinho, "que representa uma síntese de todo meu pensamento sobre a educação"... E, sem dúvida, volto a afirmar, não aconteceu nada. A publicação é de 1999; digo isso para que não aleguemos não termos tipo tempo. O que acontece? O que acontece?

E não são queixas sob a forma de perguntas, são genuína e honestamente perguntas, questões que me desvelam e que me parecem encerrar algum segredo; um segredo que explica porque estamos travados e, ao mesmo tempo, poderia ser a chave para nossa saída.

"Um dos desafios mais difíceis (para a educação) será o de modificar nosso pensamento de maneira que enfrente a complexidade crescente, a rapidez das mudanças e o imprevisível que caracterizam nosso mundo", disse, com convicção, Federico Mayor, então Diretor Geral da UNESCO. E quinze anos depois, não aconteceu nada; pelo contrário, nos afastamos - se era possível fazê-lo ainda mais - dessa posição. Nada é complexo na escola. A imprevisibilidade é o verdadeiro e absoluto fator ausente da biografia didática. A mudança é o anticristo dos professores e dos sistemas educativos... Toda a rejeição é pura demais e, por isso, estranha demais. Parece que esse livro jamais fora escrito; que foi uma alucinação de poucos adictos à literatura ou às substâncias.

"Este texto - disse Morin em seu prólogo - antecede qualquer guia ou compêndio de ensino. Não é um tratado sobre o conjunto de matérias que se deve ou deveria ensinar: pretende única e essencialmente expor os problemas centrais ou fundamentais que permanecem completamente ignorados ou esquecidos e que são necessários para ensinar no próximo século. Quanto Morin não terá duvidado ao colocar em seu prólogo essa ênfase em "completamente ignorados", vocês imaginam? Não era um texto sobre isso, nem havia um lugar no texto para esses excessos - além do que Morin não é um homem retoricamente excessivo ou exagerado; salvo que fossem completamente verdadeiros.

Honestamente, ele crê que esses problemas centrais ou fundamentais do ensino têm sido completamente ignorados por nós. E continuam sendo, na realidade. Eu também acredito nisso.

Então, me vejo obrigado a concluir que somos néscios ou somos idiotas, porque nossa posição conceitual e essencial, implícita em nossas práticas escolares, não é em nada mais lúcida e pertinente que a dele e, sem dúvida, nos permitimos ignorar. Não temos argumentos melhores que os de Morin para defender o que fazemos, lemos, ditamos e rezamos a cada dia, em milhões de escolas, larga e profundamente por nosso continente, e nos opormos com dignidade intelectual às suas premissas. Ou não nos damos conta, caso em que seríamos idiotas, ou não temos vontade, caso em que...

O que acontece? O que acontece, pelo amor de Deus!

Antes de me posicionar diante da pergunta, quero resgatá-la como construção. Se ao menos estivéssemos perplexos diante da própria pergunta, já estaríamos avançando; já o esforço da UNESCO estaria se justificando. Mas, não. Essa pergunta, que mobiliza e inquieta e que me leva até Deus por ansiedade, não está formulada na comunidade educacional. Não nos perguntamos o que acontece porque não conseguimos dar conta de que algo grave está ocorrendo. Lemos Morin como se lêssemos Platão ou Montaigne, quer dizer, como se lêssemos curiosidades, lógicas encantadoras e completamente inocentes para nós hoje em dia (que é como lê - seja dito de passagem - a escola esse tipo de autor). Lemos como se Morin não tivesse existido ou fosse um personagem de alguma ficção, tipo Pierre Menard. Lemos como se fosse transparente.

Mas existe e, além de tudo, é um homem pleno de seu tempo; e há outros como ele. E nós, nada.

E creio que não se trata de idiotice, quer dizer, de falta de inteligência para nos elevar aos níveis de complexidade teórica que a discussão propõe; nem creio tampouco que se trata de uma necessidade militante, consciente e retrógrada; eu creio que se trate de que uma trama nos excede e nos desordena simbolicamente de tal maneira que não nos sobra outra alternativa que não retroceder.

Creio que sentimos que se fôssemos seguir Morin, então uma após a outra iriam caindo todas as nossas premissas, todos os nossos refúgios; que se desmoronaria como uma avalanche toda a estrutura de valor, de poder e de sentido que sustenta hoje em dia - e há muitos anos - o sistema educacional a que pertencemos. E é muito difícil - senão impossível - ir deliberadamente até sua própria desintegração simbólica. O mesmo sistema nervoso autônomo nos detém; não faz falta nem nos dar ordens. Acontece que não podemos, acontece que a máquina retrocede.

Mas também acontece que sabemos que não podemos. E nisso Morin e a UNESCO se equivocam: não se sai dessa situação de tetraplegia simbólica por meio da persuasão intelectual. Morin tem razão no que diz, mas precisa das estratégias profundas para conseguir que o que diz se realize. Quer explicar e o que pretende não se explica. Não se explica que devemos mudar na direção que ele propõe para atingir a mudança, nem é tampouco a explicação - como estratégia didática - o caminho para atingir esses sete saberes fundamentais que apregoa e que subscrevo, enfaticamente.

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